Crise de Consciência e Consciência da Crise
© Cláudio Calmon, 13 e 14 de dezembro de 2002
Desde que cheguei aqui nos Estados Unidos da América para passar uma temporada trabalhando e tirar o pé da crise, tenho tentado observar e discernir sobre quais as principais diferenças entre nós "Tupiniquins" e os filhos do "Tiosam". Posso dizer de antemão, que todas as conclusões a que cheguei até o presente momento sofreram a interferência do observador, o que naturalmente, não podem ser chamadas de verdades absolutas, mas apenas de percepções particulares a partir das lentes utilizadas pelo observador e outras influências.
A primeira conclusão diz respeito às diferenças socioeconômicas entre os dois povos. Embora as condições em que os colonizadores encontraram os "seus novos mundos" foram semelhantes, ou seja, natureza e habitantes indígenas, com "ligeira" vantagem para nosssos colonizadores em relação às riquezas naturais e incidência reduzida de fenômenos catastróficos da natureza. Já ouvi dizer que os problemas são oportunidades disfarçadas para crescermos, enquanto sua ausência pode nos acomodar. A partir de então, parece que começamos a perder a corrida do "progresso?!". Considerando-se as semelhanças entre os países - todos europeus - que conquistaram as américas, e também suas diferenças, principalmente culturais, hoje seus respectivos níveis diferentes de desenvolvimento na europa, parecem refletir de certa forma as diferenças entre nós e os norte-americanos. Até internamente, devido à influência de diferentes povos colonizadores e seus objetivos, podemos observar as diferenças de desenvolvimento em nosso país, entre o norte e o sul. Se o nordeste apresenta problemas de seca, o sul apresenta os do frio e das geadas. A não ser pelas diferenças de misturas raciais, estamos "quites". Ou não estamos quites justamente por essas diferenças? E entre nós e os americanos? Voltando então às minhas percepções, poderia arriscar dizer que nós brasileiros, temos uma certa "devoção" por cultuar a crise, mania que já dura mais de quinhentos anos. E os nossos conterrâneos de continente, os americanos, parecem mergulhar numa nebulosa crise de percepção. A crise parece tão profunda, que no "september eleven" eles levaram um bom tempo para descobrir se tratava-se de um ataque extraterrestre ou embriaguês coletiva dos pilotos da American Airlines. Uma terceira opção foi levantada posteriormente: A possibilidade de existirem outros povos habitando o planeta terra, os quais estariam organizando uma operação para dominar a América.
Outra observação interessante foi feita por um amigo, quando me chamou àtenção para o trio: o americano seu carro e seu cachorro. Eu disse então - Será que eles gostam tanto de cahorro porque estes não reclamam, não questionam, concordam com tudo e estão sempre disponíveis? Quem sabe, disse ele. Complementando a observação anterior, pude perceber um outro elemento integrantre, que somava-se ao trio americano/carro/cachorro: o café! Não é muito difícil observar no trânsito; o americano, em seu carro, com o seu cahorro e tomando o seu café, de aproximadamente 500 ml. Bem diferente do nosso tradicional cafezinho no buteco da esquina. O que seria da Starbucks se não fosse esse hábito?
Mas apesar de toda a percepção da crise do brasileiro, os botecos proliferam e a cervejinha nunca fica de fora. Para esta não existe crise, ela apenas acompanha o bate papo sobre a crise! Do lado de cá, na américa do norte, a loja na qual trabalho, que vende objetos usados, recebe toneladas de doações. Um povo que parece consumir sem parar. Compra usa ou não, doa e outros voltam a comprar, num ciclo que não termina nem na lata do lixo, porque depois eles vem cair sobre as nossas cabeças de alguma forma. Até o dia em que tudo for reciclável pelo menos. Já li em algum livro que os americanos se assemelham a hamsters na roda de exercícios, numa alusão à busca desenfreada ao "sonho americano" de prosperidade ilimitada. O autor termina dizendo que eles trabalham como loucos, comem como porcos ; "da índia" e depois, no auge de seus 40 anos seus corações explodem!! Quanto exagero, meu manager já tem quase 50!
Seria então, a crise de percepção dos americanos, uma falta de percepção da crise ? E a nossa percepção da crise, uma crise de percepção de um país em que "se plantando tudo dá" ? Ou seria uma terceira alternativa: Os dois povos mergulhados até o último fio de cabelo em uma profunda crise de percepção da crise de percepção em que se encontram? Ou talvez, uma quarta possibilidade: O observador e sua lente estejam generalizando ao extremo, supondo que existam apenas duas culturas nesses dois países multiculturais? Supondo que o observador esteja equivocado a respeito das conclusões anteriores, quem sabe você, leitor, possa ter uma quinta forma de perceber, mais adequada à verdadeira realidade?!!! Ou, quem sabe ainda numa sexta opção, poderíamos enriquecer nossas percepções ao utilizarmos as lentes uns dos outros e criarmos formas mais enriquecedoras de percebermos e atuarmos neste mundo ?!!! Finalmente, como tenho consciência da minha própria crise de percepção, que tal a possibilidade de existirem muitas e muitas outras possibilidades, as quais nem possamos imaginar, por estarmos presos às nossas próprias crises de percepção?!!!
Referências Adicionais
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