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Entrando em Forma sem Dieta: Caminhando em direção aos objetivos por estradas curvas

© Walther Hermann

Este artigo seria mais um entre tantos outros se não tivesse sido escrito por um educador. Pelo menos quero crer que não há a mínima intenção de lição de moral nestas linhas, mesmo porque, enquanto hipnólogo, muito me interessam os resultados obtidos sem esforço que proporcionem maior prazer e bem estar. Eu sou um arquiteto do aprendizado (se é que esta profissão exista!) e o que relatarei aqui são alguns resultados de percepções e observações de um estudioso do fenômeno de aprender. Eu mesmo não vivi a experiência de ser obeso ou de querer ou me esforçar para perder peso. Porém, aprendi muitas coisas que acredito serem úteis para aquelas pessoas que estão insatisfeitas com o próprio peso (acima ou abaixo).

Com os meus olhos de pesquisador, o ato de entrar em forma pode ser abordado a partir de dois pontos de vista complementares: 1) Direto: se alguém, em qualquer momento, conseguiu atingir o objetivo de entrar em forma alterando o próprio peso e forma física, então pergunto: Como fez isso?? Evidentemente, muitas pessoas conseguiram por caminhos os mais diversos;

2) Transcendente: independentemente de ter o resultado alcançado, o que será que pode-se aprender de útil neste caminho a respeito de mudanças, transformações, planejamento, concretização de sonhos, etc. Com olhos de educador, qualquer empreendimento humano acaba por exercitar nossa vontade, nossa paciência e várias outras habilidades empreendedoras.

Ao conceber estes pensamentos, duas idéias me ocorreram à mente:

1) Como estruturar estas informações de modo a serem de utilidade para os leitores sem que fosse oferecida uma longa lista de procedimentos;

2) Como construir, através da linguagem escrita, a motivação necessária para serem estabelecidas novas metas e tomadas algumas decisões. Assim, daqui para frente você poderá ler estas linhas de, pelo menos, duas formas diferentes: como leitor normal ou como observador de suas reações, sensações e sentimentos ao acompanhar o texto.

Tenho um amigo que era fumante inveterado e que abandonou o hábito de fumar quando percebeu que estava dependente deste ato. Num feriado em que acabaram todos os cigarros, o seu desespero foi o sinal de alerta: sentiu-se visceralmente desafiado a superar o impulso. Isto foi suficiente para que decidisse nunca mais passar por situação semelhante. Esta estória apenas indica um fenômeno bastante frequente na existência humana que é representado por aquilo que chamo de motivação profunda, convicção e tomada de decisão: - "Chega!!!" De fato, provavelmente, alguns anos tenham se passado e muitos conflitos sido vivenciados antes deste desfecho. Entretanto, o que me interessa é como ele mobilizou esta potência e certeza interiores neste momento oportuno. Cada um de nós teria pelo menos um episódio para contar, da própria experiência, de entrar em contato com esta dimensão de nosso poder.

Para as minhas pesquisas sobre hipnose e aprendizagens inconscientes, este tipo de evento possui uma estrutura bastante importante que poderia ser apresentada na seguinte questão: - "Qual é a diferença entre aqueles objetivos que nós planejamos e realizamos e aqueles outros objetivos que nós planejamos, muitas vezes até nos esforçamos, e nunca atingimos??!! Se eu tivesse coragem, eu responderia que o sucesso de um empreendimento (no sentido amplo) depende da "conspiração" de nossa mente inconsciente. Mas, de fato, não tenho esta coragem.

Cinco dimensões importantes sustentam qualquer processo de aprendizagem e suas sínteses: significado profundo e motivação; crenças de possibilidades e metas mensuráveis; ações, técnica e procedimentos; percepção, discernimento e sensibilidade; "conspiração inconsciente" e eventual reconstrução da identidade (auto-imagem) - esta última diretamente relacionada com as anteriores.

Abordando, agora, o aspecto prático destas questões, provavelmente acabaremos por considerar várias crenças, mitos e sabedoria popular. Tenho alguns amigos que me surpreendem com o pouco que comem e, no entanto, são obesos. Separemos então aquilo que poderíamos chamar de obesidade daquilo chamado de retenção de líquidos. Independentemente de acreditarmos inicialmente em causas genéticas, talvez seja útil considerarmos a hipótese de, ao longo da vida, de alguma forma, sermos capazes de alterar o destino genético. Então esta conversa passará a ter o tom de uma fantasia, talvez. Porém muito útil do ponto de vista prático. E, acreditem em mim, algumas pessoas que acreditavam que seus problemas eram genéticos, em toda a história da humanidade, ainda assim, foram capazes de construir resultados bastante interessantes para elas mesmas.

Daqui em diante, mantenha os olhos e os ouvidos bem abertos para evidências que você traz em sua memória ou experiência que corroborem algumas percepções que irei apresentar.

A primeira delas é bastante simples. Porém impossível de ignorar: quando você está ingerindo algum alimento ou bebida, já deve ter notado que, num determinado momento, há uma mudança no paladar e, por mais agradáveis e saborosos que fossem no início, subitamente o gosto muda! Leve isto em conta na próxima vez como um sinal de que a quantidade ingerida chegou ao seu limite. São pequenas percepções como esta, na própria linguagem dos sentidos e sensações, que temos à nossa disposição para tomarmos decisões a respeito da forma de nos alimentarmos.

Com uma pitada de irreverência, um de meus grandes mestres atesta convictamente que a Natureza é muito sábia. Também afirma que o nariz humano está localizado acima da boca para poder cheirar (farejar) o alimento que entrará no corpo. Caso contrário, o nariz teria sítio na base da coluna vertebral. Irônico, não?? De fato, se observarmos com detalhe, lembraremos que o homem é o único animal que não cheira o que come (apesar de estar preparado para isso) - consideram falta de educação: já fui ameaçado de ser privado de refeição, por uma cozinheira, se continuasse a cheirar a comida!!!. Na prática, ao sentirmos o aroma do alimento, informamos o nosso sistema nervoso autônomo que tipo de suco gástrico deverá ser produzido para digerir aquele alimento. Além disso, recebemos imediatamente na forma de sensações se devemos ou não comer aquele alimento naquele momento. Eu, por exemplo, adoro doces (tenho até o apelido de "Formigão"), porém, existem ocasiões nas quais não suporto ingerir doces!!

Como instrutor de Tai Chi Chuan pude observar que a aparência física, tônus muscular, coordenação motora, propriocepção (percepção do próprio corpo, sensações, consciência corporal, percepções de movimentos e posições, distâncias e tamanhos) e sensibilidade estão intimamente relacionados àquilo que podemos chamar de auto-imagem. Esta auto-imagem é construída inconscientemente a partir de nossas experiências, aprendizagens e percepções no ambiente e está completamente associada a quem nós pensamos e acreditamos ser: nossa própria identidade. Este assunto é bastante técnico e poderá ser aprofundado lendo-se a primeira parte do livro "Consciência pelo Movimento" de Moshe Feldenkrais, Summus Editorial. Já aqui, nesta dimensão, muitas aprendizagens podem ser desencadeadas e muitos maus hábitos podem ser enfraquecidos - durante o processo de desenvolvimento de novos e diferentes padrões motores e de movimentação corporal como no caso de uma prática esportiva ou até mesmo de mastigar!! Faça uma experiência de educação da percepção: um dia que lhe sobre tempo para tomar banho, confortavelmente, lave algo em seu corpo que você nunca lavou antes, e deixe de lavar algo que você sempre lavou. Também, enxugue algo que você nunca enxugou e deixe de enxugar algo que você sempre enxugou. Apenas a título de curiosidade.

A mastigação, principalmente para aqueles animais que se alimentam de vegetais e cereais ou derivados, ainda apoiando-nos na sabedoria instintiva do próprio reino animal, nos oferecerá três dimensões de descoberta: fragmentar adequadamente os alimentos, estimular a necessária salivação e, certamente, ainda muito mais importante, nos dar a oportunidade de sentir o gosto dos alimentos. Sim!!! Sentir o gosto! Dar tempo para cada porção de alimento chegar tranquilamente no esôfago e sentir prazer e saborear cada bocado. Quanto à salivação, vale lembrar que algumas substâncias tais como amidos e alguns carboidratos têm o início de sua digestão efetivados pela saliva.

Novamente, através do paladar, estaremos confirmando e complementando a informação enviada ao nosso sistema orgânico qual é a melhor composição química do suco gástrico a ser sintetizado para aquela refeição ou ingestão. Estas simples práticas servem rapidamente para eliminar muitos tipos de problemas gástricos: flatulência (os famosos gases) e alguns tipos de gastrites e, algumas vezes até, mal funcionamento dos intestinos.

Evidentemente, todas estas propostas não integram um plano de mudança radical de comportamento. Principalmente porque as grandes e rápidas transformações agridem o equilíbrio interior por ultrapassar a nossa flexibilidade às mudanças. Um plano de mudanças gradual se apresenta como uma alternativa bastante sábia. Como experimentação, na próxima refeição, reserve uma garfada, e apenas uma, para sentir plena e intensamente o sabor do alimento e para mastigá-lo e, até mesmo antes de engoli-lo, ter tempo para sorver o suco natural resultante da mastigação e da salivação. Gandhi dizia que devíamos mastigar os líquidos e beber os sólidos referindo-se à salivação dos líquidos e à extrema fragmentação dos sólidos através da mastigação. Ocasionalmente, você até poderá se surpreender com quão automática tem sido realizada esta prática tão nobre e nutritiva. Observe também alguns outros automatismos: em que lado da boca você tem o hábito de mastigar mais frequentemente; que tipo de alimentos você ingere e em que ordem; etc. Então, todo este processo de reeducação alimentar se tornará uma grande brincadeira, repleta de descobertas e surpresas - ou você acredita que exista um estado de espírito melhor que a curiosidade para aprender...

Um dia, conversando com um amigo, soube que ele considerava ter um problema sério de obesidade que o incomodava sempre que se "descuidava de si mesmo". Devia manter uma preocupação constante com sua forma física, caso contrário, engordava. Quando lhe contei que sua obesidade ocasional mais parecia ser um mecanismo inconsciente de controle de estresse, percebi por sua expressão não verbal, que havia ressonância inconsciente. Ou seja, todas as vezes que começava a engordar, era por extrema atividade profissional e consequente descuido de seus hábitos e rituais de descanso e de auto-estima. Imediatamente, soava um "alarme" na consciência (na forma de aumento de peso). Quando seu peso e aparência atingiam um limite estabelecido como máximo ("tantos quilos", "tanta barriga"), neste momento, incomodado, automaticamente passava a se responsabilizar por mudar. Começava a se cuidar e, novamente, emagrecer. Aliás, como bom empresário, passava a vida engordando e emagrecendo, num ciclo quase infinito!

Esta estória ilustra o complexo jogo de forças destas dimensões de nossa mente inconsciente que nos conduz por nossas decisões e caminhos de como nos comportar. Muitos, talvez, vistam a carapuça. A solução??? Negociações, negociações e negociações em muitas conversas de travesseiro consigo mesmo. Desde que vocês passem a respeitar as motivações mais profundas do seu interior e aprendam a preservar os sentidos e significados mais profundos instalados por vocês mesmos ou por seus processos de sociabilização.

Como atleta, me atrevo a conjecturar que o mito do acúmulo e queima de calorias ser a causa linear da obesidade ou boa forma me parece uma conclusão muito simplista para explicar todo complexo sistema de interações de enzimas, proteínas e outras substâncias orgânicas. Digo isto porque informações que chegam a público parecem reforçar a crença de que as causas simples da obesidade são um tipo de descompensação na balança de ingestão e consumo de alimentos calóricos. Tenho uma amiga que só come um pouco de salada em cada refeição e não está nada satisfeita com o seu peso. Mais ainda. Durante um seminário de duas semanas do qual eu era o palestrante, uma outra amiga me contou o seguinte episódio: após três semanas de dieta e "malhação" de aproximadamente noventa minutos diários em academia de ginástica e esteira, observou que havia perdido menos de meio quilo - que foram recuperados rapidamente após esta constatação. Porém, no final de semana prolongado durante o curso, encontrara um antigo namorado e junto com a família passaram no litoral comendo petiscos (camarões, lulas, frituras, etc) à beira mar e alguns litros de "chopp". Ao retornar havia emagrecido dois quilos!!! Repito, então, qual é a diferença entre as metas bem sucedidas e as metas não atingidas??!!

Tendo tanto Freud quanto Jung, no início de suas carreiras, começado pelo estudo da hipnose e nos deixado de herança potentes conceituações a respeito da psique humana, observo que, talvez, uma das mais significativas sejam as idéias de inconsciente e inconsciente coletivo. Para este artigo, porém, quero abordar o que eu chamaria de consciente coletivo. Muito evidente para pessoas que viajam para outros países e têm oportunidade de observar as diferenças culturais, étnicas e de comportamento próprias de outros povos.

Não por escrever para esta saborosa revista, nem para chocar os leitores, mas a questão estética, devemos lembrar, possui padrões definidos no tempo, no espaço e na cultura: o que se convencionou aceitar como beleza ocidental na Idade Média é bastante próximo dos padrões de beleza atuais no oriente médio - as mulheres mais "cheinhas" fazem muito mais sucesso. Como curiosidade, também ao abrir o Kama Sutra (texto sagrado da cultura extremo oriental) descobriremos que o abdômen proeminente (vulgar: barriga) parece possuir um outro significado. Quando ensinava Tai Chi Chuan regularmente costumava dizer que o abdômen "reto" muitas vezes está associado à intestino preso em geral e cólicas menstruais nas mulheres (a forma mais natural do abdômen, quando a musculatura esta relaxada é curva, porém, quando contraída está diretamente associada à tensão anal e da cavidade abdominal - por isso a prisão de ventre). Vale lembrar, ainda, que o sentimento de culpa que acompanha algumas pessoas na hora do deleite gastronômico, com relação ao aumento de peso ou à forma física, pode ser amolecido ou reenquadrado a partir destas ponderações.

Todas estas dicas e sugestões, poderíamos dizer integrar um sistema de emagrecimento. Não posso deixar de incluir também de ganho de peso. Comumente chamamos isto de "regime" e, como ouro qualquer, também tem suas limitações. Entretanto, diferente de qualquer outro, é muito mais agradável e respeitoso com nossos impulsos mais espontâneos

  • regra essencial para conquistarmos a cooperação de nossas dimensões inconscientes na busca e obtenção de resultados mais dignos de bem estar.

Não obstante, se avaliarmos os ganhos secundários (princípio da alavancagem na aprendizagem inconsciente), a transcendência dos resultados, o aumento de consciência (auto-conhecimento), auto-respeito e auto-estima, possivelmente, no longo prazo, atinjamos resultados inimagináveis inicialmente e que nos surpreendam positivamente, ou mesmo, que superem em muito as pequenas expectativas iniciais.

Afinal de contas estamos entrando na era de encantar o cliente. Época na qual a lei do levar vantagem parece estar sendo dissolvida na consciência coletiva do brasileiro e, finalmente, cada um de nós, enquanto profissional ou pessoa, esforça-se para superar os desejos e anseios dos clientes e para surpreendê-los com a qualidade dos resultados.

Esta atitude básica é valiosíssima, acima de tudo se nós começarmos a usá-la conosco mesmo ao considerar cada parte de nós mesmos como clientes internos. Vá adiante e divirta-se.

Texto escrito em dezembro de 1.997 por Walther Hermann (Educador, escritor, hipnólogo, consultor de empresas, instrutor de Tai Chi Chuan e instrutor de Tênis).
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