;
Acesso direto ao conteúdo

Artigos IDPH

 

Paradoxos do Poder: "Durante a Jornada de Construção do Bem-Estar"

© Walther Hermann

Como palestrante e educador tenho o hábito de, na medida do possível, adequar meus seminários e cursos à necessidade dos participantes. Assim, geralmente, no início destes eventos faço um levantamento das expectativas dos participantes. Cada turma, muitas vezes, tem uma característica própria, porém, é quase invariável figurar entre os anseios das pessoas a busca e conquista de controle e poder. Algumas vezes o controle se configura como auto-controle, mas sempre está presente. Consensualmente vivemos em uma época em que conhecimento e informação realmente são "sinônimos" de poder.

Desde longa data, também, existe um segmento de mercado totalmente apoiado no comércio das previsões, antevisões e clarivisões. Até os mais racionais, as mentes mais lógicas e os mais céticos se mostram humanos ao buscar ou aceitar ajuda ou consolo de cartomantes, astrólogos, numerólogos, etc, com a constatação da frágil condição humana frente à existência de algo que chamamos de destino (quando alguém me pergunta se existe destino, usualmente dou uma resposta evasiva: - "Acredito que existam destinos possíveis...").

Considere os mercados editorial, jornalístico e cultural milionários que incluem as previsões de Nostradamus, textos sobre astrologia, cartomancia, etc. Ou mesmo as inúmeras páginas que descrevem e classificam as tendências de personalidade das pessoas em função da fisionomia, organização motora, expressão corporal ou verbal, etc. Essencialmente, tudo que possa instrumentalizar cada indivíduo com habilidades de como lidar com os outros e a realidade.

Além destas prospecções no futuro à busca de significado, segurança ou oportunidades, há também, graças às nossas concepções causais do nosso universo, uma grande busca pelas razões passadas: - "Porque aconteceu isso?"

Assim, depois deste cenário inicial tão incógnito, no qual nos damos conta de nossa situação de expectativa em relação ao futuro e, no qual muitas vezes temos a impressão de estar confinados numa condição de estar sendo "ignorados" em nossos questionamentos ou, talvez, surdos e cegos às possíveis respostas ou evidências, quero apresentar algumas percepções que me foram oferecidas pelo convívio com a prática do Tai Chi Chuan e com parte da cultura oriental. Talvez já, tão antiga e experiente que não faça exatamente as mesmas perguntas que nós ocidentais fazemos. Dizia um grande sábio oriental, Rumi, que "... o anseio interior se expressa na forma de inúmeros desejos que, pensam as pessoas, sejam suas necessidades verdadeiras. Porém, a experiência mostra a inconsistência destes pois, mesmo que sejam satisfeitos, o anseio não se atenua..." e novos desejos são formulados consciente ou inconscientemente.

Embora em alguns momentos de nossas vidas nos movimentemos meio que sem rumo ou mecanicamente, ao buscar significado ou vislumbrar o futuro e tentar diminuir o impacto de suas investidas contra o presente, ou mesmo, ao sentir esta "pressão interior" que nos impulsiona para existir e expressar-nos, certamente podemos concluir que estas percepções se relacionam de alguma forma com algo que podemos chamar de poder em sua acepção mais essencial e primitiva.

Mais algumas faces desta mesma "moeda". Certa vez, um grande mestre afirmou: - "Se você quiser ser mais organizado, você também deve praticar a desorganização; se quiser mais vitalidade, deve também praticar mais descanso; se quiser mais concentração, deve ainda praticar a desconcentração (ou descontração); se quiser mais controle, deve praticar o descontrole!!! Estas palavras operaram em minha mente como um vírus em um computador: "rasgando" a estrutura de meus pensamentos. Eu já reconhecia a sua maestria e aprendera muitas coisas valiosas com este professor. Meu coração disparou e lembrei-me de uma experiência que vivera que, de alguma forma, sustentava a possível realidade daquelas palavras. Na prática do Tai Chi Chuan, existe um estágio no qual, dependendo do estilo praticado, para adquirirmos mais velocidade, rapidez e eficácia nos gestos marciais, devemos praticar cada vez mais lentamente (sem perder a fluidez). Ao constatar a veracidade desta percepção, comecei a praticar os gestos do Tênis de uma forma mais consciente e lenta e pude observar experimentalmente, também, um incremento na velocidade e ritmo do meu jogo!

Restava então comprovar, na prática, se aquelas afirmações daquele mestre poderiam ser reais ainda em outros ambientes. Invariavelmente precisas!!! Esta, comprovei, é realmente uma das dimensões de nossa existência: a contradição ou paradoxo.

Ainda sem questionar onde estão os limites de nossa realidade, ficou evidente que os fatores e parcelas que concorrem para a realização e materialização de nossos sonhos, anseios e planos são muito mais numerosos que aqueles que usualmente consideramos racionalmente. Observe que existem incontáveis títulos de livros que pretendem nos oferecer as fórmulas do sucesso: quais são as ações, o encadeamento de pensamentos, etc. Porém, não funcionam com todo mundo.

Quero apresentar dois exemplos, nem que por livre associação, nos mostram esta outra dimensão das estradas curvas pelas quais nossa mente inconsciente nos conduz à conquista de algum poder. Em ambos os casos os protagonistas vivem nos Estados Unidos e, por muito tempo, tiveram dúvidas a respeito de seus sucessos e competências.

Do primeiro dos exemplos tomei conhecimento, "acidentalmente", no embalo da leitura de uma reportagem de capa sobre a empresa Eu S.A. de Tom Peters, em uma das edições da revista Exame de 1.997. De fato, a matéria seguinte foi bastante sensibilizante para mim. Um profissional que atestava, convictamente, que "vendia ignorância". Depois de uma longa carreira de pequeno ou médio empreendedor de pouco sucesso, concluiu que seu maior patrimônio era a dificuldade que tinha de compreender alguns manuais, guias e informativos. Na prática, é claro, sua dificuldade de compreensão o motivava a reorganizar aquelas informações de uma maneira mais compreensível para si. E, finalmente, para os outros. Neste empreendimento presente, profissionalmente, se auto-qualificava de arquiteto de informações. Extremamente preciso, exceto pelo fato desta profissão não existir, pelo menos até então.

Após ler este texto tive o sentimento de um grande alívio: identifiquei uma profissão para mim. Arquiteto de aprendizagens... Ou talvez consultor em racionalização de processos de aprendizagem. Ou... De qualquer forma, o mais significativo não é que o mundo esteja mudando (ele sempre mudou!!!), e sim que as mudanças do mundo estão começando a mudar nossas crenças a respeito dele. As transformações estão nos fazendo mudar nosso modelo e concepção do mundo. Neste momento, pérolas como estes dois exemplos nos atenuam as tensões e estresse decorrentes de nosso esforço de desapego de nossos velhos paradigmas.

No início do ano de 1.998 retornei à escola na qual concluí o segundo grau e, feliz ao encontrar um antigo professor, soube de sua angústia profissional de participar do time de educadores empenhados em construir currículos e aconselhar alunos de nível médio em suas escolhas de carreiras. Confidenciou-me: - "...as antigas profissões estão desaparecendo e nós não sabemos para onde estamos indo!!" Pense no risco a que está exposto um professor atual de, ao escrever algo na lousa, ter sua atenção chamada por um aluno que afirma que sua informação é obsoleta ou antiga, de acordo com suas "viagens" e pesquisas na Internet ou em seus materiais multimídia. Muitas vezes, o próprio professor não teve tempo de se atualizar ou de prospectar o novo.

O segundo exemplo me foi contado por um amigo ao ouvir-me contar o primeiro. Sobre um empreendedor fracassado. Nenhuma novidade... Existe uma estatística que diz que, na média, um empreendedor fracassa três vezes antes de atingir sucesso. Mas este indivíduo tinha sido mal sucedido em, talvez, dez ou vinte empreendimentos! Até que, um dia, já exausto, avaliou tudo o que fizera até então e se formulou a seguinte pergunta: - "Afinal de contas, o que eu sei fazer?". Ou talvez: - "Afinal de contas, o que eu aprendi?". Bem, não estou certo exatamente. Não importa de fato a pergunta, mas sim a atitude, reconhecer para onde sua vida o havia conduzido: - "Eureka!!!" Chegou à conclusão que, o que sabia ou aprendera finalmente, era ter desenvolvido a habilidade de se motivar e, enquanto profissional, se levantar novamente!!! Ficou milionário ao construir seminários e palestras sobre motivação e flexibilidade para empreendedores.

Quer possamos dar o nome de transcendência ou de significado para alguns conjuntos de experiências em nossas vidas, se em alguns momentos parecemos estar navegando sem rumo ou sem saber mesmo como, é possível, a partir de uma perspectiva mais ampla, numa dimensão de tempo maior, identificarmos algumas qualidades ou habilidades que possam ter extremo valor neste novo modelo de mundo que vem sendo construído - mesmo que ninguém ainda tenha se dado conta.

Dizem que se não sabemos para onde queremos ir, então, qualquer caminho serve! Esta assertiva nos induz a uma profunda reflexão relacionada com o discernimento e o processo de escolha (ou de tomada de decisão, se preferir). Como arquiteto do aprendizado, observo que existem pelo menos duas dimensões desta questão: a consciente e a inconsciente. Quero falar um pouco sobre minha própria estória pessoal (é bem mais seguro falar assim do que sobre minha história pessoal, considerando que a única coisa que me liga ao passado é minha memória e, como de tantas outras pessoas, um tanto quanto suspeita!).

Durante muito tempo, em minha vida, permaneci realizando coisas e empreendimentos cuja relação, semelhança de propósito, ou mesmo significado, permaneciam completamente obscuros, exceto pelo fato de serem aprendizados que me atraíam: frequentar diferentes escolas na universidade, praticar e ensinar tênis, praticar e ensinar Tai Chi Chuan, empreender uma pequena confecção, ter inclinação pelo estudo do comportamento e por tradições religiosas comparadas, etc. Tudo isso, para mim, mais parecia um conjunto diverso de identidades e interesses sem nenhuma convergência. Naquela época, realmente tinha a impressão de que minha existência era completamente compartimentada! Em tempos anteriores tivera fantasias sobre um futuro promissor no qual conquistaria o poder de construir uma vida próspera e criativa, porém, nesses tempos, não tinha referência precisa de qual seria o tipo de profissão que expressasse estes anseios vinte ou trinta anos depois.

Durante esta longa fase em que eu já tinha algumas peças do quebra-cabeças mas não sabia qual seria a paisagem, sem saber também, todas aquelas fantasias e sonhos de adolescente haviam desaparecido de minha consciência e, aparentemente, todas as ações, pensamentos e decisões pareciam apenas fluir conforme a correnteza ou os ventos. Fazia muitas coisas mas não seria capaz de identificar um rumo aparente: apenas um dia sobrevinha ao outro. Minhas metas sociais, profissionais, familiares, pessoais ou mesmo espirituais ainda não convergiam e pairava uma profunda dúvida existencial: as realizações profissional, pessoal e espiritual apontavam para rumos completamente divergentes - escolher uma significaria afastar-me das outras.

Nestes últimos anos, nesta nova identidade profissional, tenho tido a oportunidade de conversar com muitas pessoas e observo que este drama é vivido por muitas delas. Como exemplo, lembro sempre de uma conversa com uma amiga que, sendo bancária, reclamava que não tinha tempo para fazer a atividade física necessária para manter a forma e o peso adequados. Nesta ocasião empreendi um esforço para oferecer-lhe a percepção de que seu drama dependia bastante de sua habilidade de escolher e de sua hierarquia de significados e valores. Quantos de nós não afirmamos, regularmente, que não temos tempo para fazer aquilo que "queremos"??!! Então contei-lhe uma experiência que tivera quando, após trabalhar uma determinada manhã das 9:00h às 12:30h realizando conversas telefônicas, perguntei-me o seguinte: - "Quanto tempo levaria para fazer tudo o que fiz nesta manhã se não existisse o telefone ou um meio de comunicação compatível??!!" Minha própria resposta intuitiva me surpreendeu: - "Talvez um ou dois meses!!" Percebi então o quanto nossa existência neste final de século nas metrópoles está nos conduzindo a construir em nós mesmos a habilidade de tomar decisões e sintetizar informações, conhecimentos e percepções, progressivamente, com maior velocidade.

Seja por livre iniciativa, seja por necessidade, somos pressionados pela realidade para escolher. Pense bem: se você crê ou sente a presença de algo que possamos chamar de uma Divindade ou Deus (seja com que nome possa ser chamado), Algo que contenha, pelo menos, o significado da existência ou algo maior que nos proporcione a experiência de existir - talvez o Universo ou mesmo a Natureza, então, talvez, em nossa fantasia, possamos dar-Lhe uma identidade ou forma com quem ou com a qual, ocasionalmente, possamos conversar ou nos expressar para agradecer, pedir ou reclamar. Numa destas "conversas", ao batermos nas "portas dos céus", provavelmente você nunca ouviria a pergunta: - "Por que você não viveu de uma forma mais parecida com a de fulano??"; nem mesmo: - "Por que você não foi mais parecido com ciclano??" Imagino que a pergunta que você escutaria seria a seguinte: - "Por que você não é mais parecido com você mesmo??!!"; ou - "Por que você não tem trilhado mais o seu próprio caminho??!!" Afinal de contas a própria diversidade foi construída por Ele/Ela!!

comentários

 

[ Retornar ao Índice ]