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Concentração e outras habilidades

© Walther Hermann

Sinopse

Um rápido mosaico das possibilidades de treinamento complementar de atletas que buscam as qualidades de alto nível, especialmente no que diz respeito ao treinamento psicológico e mental.

Contexto

A profissionalização de atletas fez com que, cada vez mais, o talento não seja a qualidade mais importante. Isso porque a excelência na prática esportiva é hoje um conjunto de várias habilidades a serem aprendidas e treinadas. Se no passado era possível a um atleta possuir uma profissão diferente de sua atividade esportiva, atualmente a dedicação exclusiva é quase uma regra. Assim, a busca de melhores competências emocionais e psicológicas é hoje um dos maiores diferenciais de qualidade, pois as competências técnicas, de preparo físico, etc, já são de domínio de todos.

Artigo

Vivemos em uma época de grandes mudanças e transformações. Pressionados a cada dia por novas descobertas científicas e pelo desenvolvimento rápido da tecnologia atual (novos eletrodomésticos, novos computadores, novos paradigmas de comunicação e comportamento, realidade virtual etc.), temos aprendido a desenvolver uma atitude de esforço constante para atualização e superação de limites. O crescente aumento de desempenho e produtividade das máquinas e instrumentos parece contaminar os seus criadores (nós, seres humanos) com uma expectativa cada vez maior em relação a desempenho e resultados dia-a-dia "melhores". Talvez, relacionado a isso, a mentalidade que se desenvolve nos esportes pareça orientada, progressivamente, para a superação de limites, quebra de recordes, supertreinamento etc.

Definido esse cenário, muitas vezes percebo que a busca e a superação de limites torna-se até mais importante que o próprio prazer de praticar um esporte. Recursos como melhores sensores para avaliar resultados esportivos, computadores que realizam análises biomecânicas de gestos e ensinam aos atletas os melhores movimentos para o seu próprio corpo, parece que vieram para ficar. Com todas essas possibilidades à disposição de um número cada vez maior de esportistas, percebemos que aquilo que diferencia um campeão já não se restringe mais à formação técnica, à intensidade de treinamento ou aos equipamentos disponíveis.

Cada vez mais, torna-se mais evidente que a preparação psicológica e a maturidade emocional passam a ser os fatores diferenciais entre os campeões e os competidores. Neste final de semana, li no jornal que um dos maiores tenistas do planeta não levou consigo o seu técnico para competir em Wimbledon (o mais importante torneio do circuito de tênis profissional), e sim um amigo padre!

Como profissionais atuando nesses segmentos de preparação psicológica para atletas de competição e consultoria em educação baseadas nos novos paradigmas da aprendizagem, temos tido a oportunidade de encontrar e trabalhar com atletas de diferentes modalidades esportivas e diferentes níveis técnicos: desde atletas infantis até olímpicos. Queremos compartilhar com vocês algumas percepções que talvez sejam familiares a vocês.

Ao conversar com um treinador a respeito da mudança de um detalhe técnico nos movimentos de um atleta com o qual trabalhamos, sua resposta foi afirmar que o esportista já realizava o gesto citado há quase dez anos e que, portanto, qualquer alteração necessitaria um treinamento mínimo de "quarenta mil horas" de trabalho.

Isso apóia a cultura comum que afirma que o aprendizado e a automatização ocorrem através da repetição e apenas do treinamento mecânico. Em nenhum momento são levadas em consideração a percepção corporal e a sensibilidade como componentes do aprendizado e da transformação de comportamentos.

Mesmo porque, considerando-se o nível de tensão a que um atleta se submete em treinamento, poucas vezes é permitido que ele tenha consciência do que faz e como faz (essa é uma das mais conhecidas razões para o fato de ocorrerem muitas contusões em esportistas). Caso você se interesse por essas questões, procure um livro chamado "Organização das Posturas e Movimentos Corporais - FUTEBOL 2001", de J. A. Gaiarsa, da Summus Editorial.

A ênfase dada à percepção corporal em nossa cultura esportiva é mínima. Não se considera, a grosso modo, a hipótese da adequação dos gestos ao praticante ou mesmo suas sensações, percepções e experiências. Se lembrarmos que, por exemplo, o Tai Chi Chuan é uma arte marcial (esquisito, não é?), e não somente uma prática de relaxamento, equilíbrio e saúde, talvez nos ocorra a seguinte pergunta: "Como pode uma pessoa lutar praticando movimentos tão lentos e suaves?". Essa contradição somente se resolve quando entendemos que durante a prática lenta desenvolvemos percepções, sensibilidade e acuidade sensorial. Além disso, os movimentos lentos são apenas o processo de iniciação. Na China, o Tai Chi Chuan, quando aprendido como luta, é considerado uma das mais poderosas técnicas.

Lembro-me quando, há alguns anos, um conhecido instrutor e praticante de alto nível de Ai Ki Do comentou que lutar é somente concentração. Passaram-se alguns anos até que, após um longo estudo de hipnose aplicada ao esporte e à aprendizagem, fosse realmente possível entender essa mensagem, um tanto quanto compacta. O modelo, agora muito mais completo, é que os Estados de Excelência, percepção e concentração (em qualquer ramo da atividade humana) são estados alterados de consciência: estados de atenção especiais e, no atleta de alto nível, estabilizados - ele sempre sabe onde e como resgatar os recursos para obter os seus resultados melhores. Uma explicação rápida corresponde a supor que um estado de excelência qualquer é como uma freqüência de um canal de televisão onde o iniciante não sabe qual foi o canal que ele usou quando fez aquele jogo maravilhoso; o atleta de alto nível em cada momento sabe como sintonizar o seu canal preferido!

Resta uma pergunta: "Se um atleta de alto nível possui tais habilidades e o iniciante ou simples praticante não, como ensinar essas habilidades aos aprendizes da excelência?". A Psicologia Esportiva trata desse assunto: gerar e ensinar esses conhecimentos, exercícios e práticas que fortalecem os estados psicológicos e de desempenho de um grande esportista.

Lembro-me, ainda, quando iniciei minha prática no Tênis e os instrutores me diziam insistentemente: "Olhe a bola... Olhe a bola... Olhe a bola!". Dentro de meus hábitos visuais, de fato, eu estava olhando a bola! Porém, anos depois, já tenista, descobri que meus hábitos e habilidades visuais são completamente diferentes de um iniciante: o iniciante não possui disciplina motora visual compatível com a observação do movimento contínuo desta, ele vê fragmentos do seu movimento (algo como fotogramas de um filme de cinema). Por isso, antes de ser cobrado a respeito de sua falta de atenção, deve-se ensinar-lhe como olhar a bola.

Conclusão

Esse rápido artigo tem a finalidade de despertar o interesse do esportista pelo aprimoramento de algumas qualidades que talvez tenham sido desconsideradas como importantes. Não obstante, se utilizarmos a analogia de ser um atleta de alto nível uma jornada em busca da excelência, então as possibilidades descritas nesse artigo podem constituir numa meta para qualquer profissional que deseje obter excelência ou utilizar-se dessa metáfora para o seu amadurecimento profissional.

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