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Crises, Oportunidades e a "Bola de Cristal" II: Novos Tempos, Novos Sentidos

© Walther Hermann

Sinopse

Prosseguindo com os sonhos de um mundo melhor, a partir do potencial disponível no atual momento pelo qual passa a humanidade, esse artigo pretende despertar a curiosidade para questões do microcosmo humano, tais como atitudes e motivações que possam se propagar até a dimensão planetária e condicionar o futuro da vida coletiva. Ou seja, o que seria, na dimensão do indivíduo, significativo para o desenvolvimento humano, na dimensão de nosso destino?

Contexto

Embora ainda muito pouco valorizada, a capacidade de aprender com a experiência, seja do indivíduo ou de grupos de indivíduos, talvez seja tão importante quanto a própria vida. Em alguma instância, hoje acreditasse que a energia que nos dá possibilidade de existir possui em si mesma informação, assim como já foi mostrada a sua relação com a matéria pela Teoria da Relatividade. Enquanto informação, está intimamente ligada com a necessidade de ser apreendida pela consciência humana, ou seja, aquilo que apreende em algum momento deve absorver a informação, isto é, aprender!

Artigo

Se estivermos dispostos a fazer justiça à afirmação de sermos seres em permanente evolução, devemos estar conscientes de que talvez o conceito mais significativo que sintetize a universalidade da experiência humana seja sintetizado pela palavra aprendizagem. Certamente esse conceito inclui uma grande variedade de experiências (tanto no âmbito individual quanto coletivo) de nossa existência.

Evidentemente, desde o nível celular até a mais alta abstração ou conclusão teórica, em permanente processo de sofisticação, em alguma dimensão está presente o conceito de aprendizagem. Se refletirmos um pouco sobre as conseqüências de assumirmos a aprendizagem como um valor essencial para a evolução e a sobrevivência no próximo século, chegaremos a algumas idéias implicadas nessa escolha, atributos da própria aprendizagem em sua concepção mais ampla, tais como: disponibilidade, sentido, procedimentos, discernimento e a própria fé.

Naturalmente, neste caso, não se trata da fé religiosa, e sim daquela atitude dos empreendedores de acreditar visceralmente na validade de suas intuições, muitas vezes contrariando os prognósticos técnicos de viabilidade ou mesmo o bom senso. O que seria de Bill Gates sem a sua fé num futuro promissor ao colocar em prática suas idéias – de um "garoto", ainda fantasiosas na época de seu início – para criar uma das empresas mais valiosas do século XX?

Para tantas e tão profundas transformações, cada vez mais freqüentes, disponibilidade para aceitar ou analisar a novidade significa desprendimento para com o antigo, flexibilidade para se ajustar e, principalmente no caso daqueles que anseiam pelo sucesso, coragem para experimentar, tentar, errar e mudar. Condições que vão bastante além da simples adaptabilidade.

Os procedimentos incluem as técnicas (as "receitas de bolo") para encurtarmos a abordagem empírica aproveitando as experiências, sucessos e fracassos daqueles que vieram antes de nós. Discernimento é aquela dimensão da aprendizagem, seja individual ou em grupo, que nos convida a exercitarmos e desenvolvermos permanentemente a nossa percepção e a nossa sensibilidade. Evidentemente, a vivência com disponibilidade é um terreno bastante fértil para o germinar do discernimento.

O sentido, entretanto, embora no âmbito individual seja simples compreendê-lo, numa dimensão coletiva talvez ainda não tenha suficiente consistência para ser compreendido completamente. Apenas podemos intuí-lo, embora muito tenha sido dito sobre isso. Essencialmente, o grau de desenvolvimento de nossa autoconsciência talvez ainda não permita chegarmos a uma conclusão definitiva sobre o sentido mais profundo da natureza empreendedora humana – embora sejamos movidos naturalmente por essa força invisível.

Sobre esses assuntos, podem ser elaborados inúmeros tratados. Neste momento, no entanto, interessa para nós refletir sobre uma curiosa característica de nossa existência.

Em minhas palestras, existe quase unanimidade entre os participantes em afirmar e aceitar que criatividade, concentração, motivação, boa comunicação, boa memória etc. serão habilidades ou características essenciais para a conquista do sucesso pessoal e profissional nos próximos anos. Embora essas competências não integrem os currículos tradicionais dos cursos profissionalizantes (seja de segundo ou terceiro grau), em geral, todos nós desejamos desenvolvê-las como qualidades diferenciais para o futuro.

Neste momento, o mais importante para nossas ponderações é lembrar que a excelência humana é atributo da existência de cada um de nós. Possivelmente agora você acredite que eu exagerei. Portanto, aqui estão as evidências: todos nós, invariavelmente, temos uma excelente memória, somos extremamente criativos, possuímos a concentração de um mestre (a melhor definição de boa concentração que conheço é ser ela o estado de atenção de uma criança brincando), uma ótima comunicação etc., em pelo menos um ambiente de nossas vidas.

Se você não se considera criativo, acredita ser disperso ou não ter boa memória, ainda assim essas afirmações valem para você. Pense bem, existe pelo menos um ambiente em sua vida onde você é extremamente criativo. Eu não sei onde é exatamente, mas sei que é! Talvez seja no trabalho, talvez na forma de jogar futebol, tocar música, cozinhar, arrumar a casa, pescar, fazer trabalhos manuais, contar piadas ou histórias, brincar, dançar ou se divertir. Boa memória? Talvez para se lembrar de rostos, de filmes, de coisas importantes ou de problemas...

Todos nós conhecemos as condições de excelência em pelo menos uma dimensão de nossa existência. Essa informação pode ser muito valiosa se você souber utilizá-la.

Pense bem, cada colaborador seu é também excelente, desde que ele esteja atuando exatamente onde consiga mobilizar suas melhores habilidades e estados de excelência correspondentes. Se, eventualmente, suas melhores competências não estão sendo aproveitadas pela empresa, saiba que a sua pressão criativa interior pode ter encontrado uma outra forma de expressão.

Agora fica mais aparente a importância de todo e qualquer executivo desenvolver melhores "ferramentas e instrumentos" para mobilizar e estimular mais profundamente seus colaboradores a mostrar aquilo que possuem de melhor. Pense: para quantos programas de treinamento sobre liderança, planejamento, qualidade etc. foram enviados alguns de seus colegas ou colaboradores; e pondere: quanto foi aplicado na prática?

Lembre agora que este ou aquele profissional já faz isso muito bem feito em pelo menos um ambiente de sua própria vida (se não for no seu trabalho, pelo menos será ao projetar sua carreira ou vida pessoal). Pergunte-se, então, o que está faltando para que eles coloquem isso na prática profissional ou organizacional. Qual é o clima ou atmosfera propícios para que cada um seja, no mínimo, excelente? Nessa ocasião, você descobrirá por que o conhecimento, as idéias e as pessoas são o maior patrimônio e capital de nossa era.

Certo dia, contatei um profissional que conheci num congresso (aquele meu amigo italiano) para apresentá-lo a uma conhecida, profissional de recursos humanos, pois sabia que ela buscava no mercado alguém que pudesse reconstruir conceitualmente sua empresa e elaborar um sentido mais profundo e duradouro além da missão convencional.

Depois de uma reunião muito agradável, almoçamos juntos. No dia seguinte, liguei para saber quais tinham sido suas impressões. Surpreendentemente, respondeu-me: "Ah vocês... Vocês que vêm aqui com esses olhos brilhando... Não têm a mínima condição de desenvolver o seu trabalho numa empresa como a nossa!". Pensei e disse: "Como serão então as empresas do próximo século? Aquelas cujos profissionais manterão os olhos opacos, apenas fazendo o que lhes é solicitado?!".

Finalmente, lembre-se dos maiores fenômenos de recuperação após sérias perdas e fracassos, como a Alemanha e o Japão do pós-guerra, e pergunte-se: o que os mobilizava? Qual era o sentido do que fizeram para se recuperar, se desenvolver e crescer?

Conclusão

As generalizações apresentadas nesse artigo são muito fáceis de serem objetos de reflexão ou de análise porém, as experiências de vida que dão sustentação a tais idéias podem se espalhar por muitos anos de vida. Isso quer dizer que enquanto forem apenas palavras e idéias serão de pouca utilidade... Mas quando fizerem parte da consciência coletiva, ou cultura se preferir, então uma nova era terá início: baseada em valores mais humanos para serem passadas para novas gerações – quem sabe então poderemos afirmar que cumprimos a tarefa destinada a nós.

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