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Entrando em forma sem dieta: Caminhando em direção aos objetivos por estradas curvas

© Walther Hermann

Sinopse

Uma reflexão sobre regimes e a conquista da boa forma física baseada no desenvolvimento da própria percepção. Isso visa proporcionar autonomia no processo de emagrecimento ou ganho de peso, apropriada a pessoas que não estejam satisfeitas com seus hábitos de alimentação ou com fórmulas miraculosas. Esse texto oferece algumas dicas simples, porém poderosas, que já atestaram resultados efetivos no resgate de boas condições de saúde a partir do desenvolvimento da percepção - um tipo de regime mais barato e proveitoso à longo prazo.

Contexto

Quando as pessoas procuram uma solução para a obesidade ou para ganhar peso, em geral, depois de alguns fracassos, têm a sua auto-estima diminuída e se tornam presa fácil de qualquer conselho, tais como: simpatias, regimes milagrosos, medicamentos moderadores ou estimuladores de apetite e o próprio esforço e sofrimento de controlar o apetite ou comer sem vontade. Porém nunca se dão conta que a insatisfação com a própria forma física pode ser apenas um sinal inconsciente que sirva de convite ao autoconhecimento.

Artigo

Este artigo seria mais um entre tantos outros se não tivesse sido escrito por um educador. Pelo menos quero crer que não há a mínima intenção de lição de moral nestas linhas, mesmo porque, enquanto hipnólogo, muito me interessam os resultados obtidos sem esforço que proporcionem maior prazer e bem estar. Eu sou um arquiteto do aprendizado (se é que essa profissão existe!) e o que relatarei aqui são alguns resultados de percepções e observações de um estudioso do fenômeno de aprender. Eu mesmo não vivi a experiência de ser obeso ou de querer ou me esforçar para perder peso. Porém, aprendi muitas coisas que acredito serem úteis para aquelas pessoas que estão insatisfeitas com o próprio peso (acima ou abaixo). Com os meus olhos de pesquisador, o ato de entrar em forma pode ser abordado a partir de dois pontos de vista complementares: 1) Direto: se alguém, em qualquer momento, conseguiu atingir o objetivo de entrar em forma alterando o próprio peso e forma física, então pergunto, como fez isso? Evidentemente, muitas pessoas conseguiram por caminhos os mais diversos; 2) Transcendente: independentemente de ter o resultado alcançado, o que será que pode-se aprender de útil nesse caminho a respeito de mudanças, transformações, planejamento, concretização de sonhos etc. Com olhos de educador, qualquer empreendimento humano acaba por exercitar nossa vontade, nossa paciência e várias outras habilidades empreendedoras. Ao conceber esses pensamentos, duas idéias me ocorreram: 1) Como estruturar essas informações de modo a serem de utilidade para os leitores sem que fosse oferecida uma longa lista de procedimentos; 2) Como construir, através da linguagem escrita, a motivação necessária para serem estabelecidas novas metas e tomadas algumas decisões. Assim, daqui para frente, você poderá ler estas linhas de, pelo menos, duas formas diferentes: como leitor normal ou como observador de suas reações, sensações e sentimentos ao acompanhar o texto. Tenho um amigo que era um fumante inveterado e que abandonou o hábito de fumar quando percebeu que estava dependente desse ato. Num feriado em que acabaram todos os cigarros, o seu desespero foi o sinal de alerta: sentiu-se visceralmente desafiado a superar o impulso. Isso foi suficiente para que decidisse nunca mais passar por situação semelhante. Essa história apenas indica um fenômeno bastante freqüente na existência humana que é representado por aquilo que chamo de motivação profunda, convicção e tomada de decisão: "Chega!". De fato, provavelmente alguns anos tenham se passado e muitos conflitos tenham sido vivenciados antes desse desfecho. Entretanto, o que me interessa é como ele mobilizou essa potência e certeza interiores nesse momento oportuno. Cada um de nós teria pelo menos um episódio para contar, da própria experiência de entrar em contato com essa dimensão de nosso poder. Para as minhas pesquisas sobre hipnose e aprendizagens inconscientes, esse tipo de evento possui uma estrutura bastante importante que poderia ser apresentada na seguinte questão: "Qual é a diferença entre aqueles objetivos que nós planejamos e realizamos e aqueles outros objetivos que nós planejamos, muitas vezes até nos esforçamos, e nunca atingimos?". Se eu tivesse coragem, eu responderia que o sucesso de um empreendimento (no sentido amplo) depende da "conspiração" de nossa mente inconsciente. Mas, de fato, não tenho essa coragem. Cinco dimensões importantes sustentam qualquer processo de aprendizagem e suas sínteses: significado profundo e motivação; crenças de possibilidades e metas mensuráveis; ações, técnica e procedimentos; percepção, discernimento e sensibilidade; "conspiração inconsciente" e eventual reconstrução da identidade (auto-imagem) - esta última diretamente relacionada às anteriores. Abordando, agora, o aspecto prático dessas questões, provavelmente acabaremos por considerar várias crenças, mitos e sabedoria popular. Tenho alguns amigos que me surpreendem com o pouco que comem e, no entanto, são obesos. Separemos então aquilo que poderíamos chamar de obesidade daquilo chamado retenção de líquidos. Independentemente de acreditarmos inicialmente em causas genéticas, talvez seja útil considerarmos a hipótese de, ao longo da vida, de alguma forma, sermos capazes de alterar o destino genético. Então esta conversa passará a ter o tom de uma fantasia, talvez. Porém muito útil do ponto de vista prático. E, acreditem em mim, algumas pessoas que acreditavam que seus problemas eram genéticos, em toda a história da humanidade, ainda assim, foram capazes de construir resultados bastante interessantes para elas mesmas. Daqui em diante, mantenha os olhos e os ouvidos bem abertos para evidências que você traga em sua memória ou experiências que corroborem algumas percepções que irei apresentar. A primeira delas é bastante simples. Porém, impossível de ignorar: quando você está ingerindo algum alimento ou bebida, já deve ter notado que, num determinado momento, há uma mudança no paladar e, por mais agradáveis e saborosos que fossem no início, subitamente o gosto muda! Leve isso em conta na próxima vez como um sinal de que a quantidade ingerida chegou ao seu limite. São pequenas percepções como essa, na própria linguagem dos sentidos e sensações, que temos à nossa disposição para tomarmos decisões a respeito da forma de nos alimentarmos. Com uma pitada de irreverência, um de meus grandes mestres atesta convictamente que a Natureza é muito sábia. Também afirma que o nariz humano está localizado acima da boca para poder cheirar (farejar) o alimento que entrará no corpo. Caso contrário, o nariz teria sítio na base da coluna vertebral, para cheirar os alimentos que saem do corpo! Irônico, não? De fato, se observarmos com detalhe, lembraremos que o homem é o único animal que não cheira o que come (apesar de estar preparado para isso) – consideram falta de educação: já fui ameaçado de ser privado de uma refeição, por uma cozinheira, se continuasse a cheirar a sua comida! Na prática, ao sentirmos o aroma do alimento, informamos ao nosso sistema nervoso autônomo que tipo de suco gástrico deverá ser produzido para digerir aquele alimento. Além disso, recebemos imediatamente na forma de sensações se devemos ou não comer aquele alimento naquele momento. Eu, por exemplo, adoro doces (tenho até o apelido de "Formigão"), porém, existem ocasiões nas quais não suporto ingerir doces! Como instrutor de Tai Chi Chuan, pude observar que a aparência física, tônus muscular, coordenação motora, propriocepção (percepção do próprio corpo, sensações, consciência corporal, percepções de movimentos e posições, distâncias e tamanhos) e sensibilidade estão intimamente relacionados àquilo que podemos chamar de auto- imagem. Essa auto-imagem é construída inconscientemente a partir de nossas experiências, aprendizagens e percepções no ambiente e está completamente associada a quem nós pensamos e acreditamos ser: nossa própria identidade. Esse assunto é bastante técnico e poderá ser aprofundado lendo-se a primeira parte do livro "Consciência pelo Movimento", de Moshe Feldenkrais, Summus Editorial. Já aqui, nesta dimensão, muitas aprendizagens podem ser desencadeadas e muitos maus hábitos podem ser enfraquecidos – durante o processo de desenvolvimento de novos e diferentes padrões motores e de movimentação corporal, como no caso de uma prática esportiva ou até mesmo de mastigar! Faça uma experiência de educação da percepção: um dia em que lhe sobre tempo para tomar banho, confortavelmente, lave algo em seu corpo que você nunca lavou antes, e deixe de lavar algo que você sempre lavou. Também, enxugue algo que você nunca enxugou e deixe de enxugar algo que você sempre enxugou. Apenas a título de curiosidade. A mastigação, principalmente para aqueles animais que se alimentam de vegetais e cereais ou derivados, ainda apoiando-nos na sabedoria instintiva do próprio reino animal, nos oferecerá três dimensões de descoberta: fragmentar adequadamente os alimentos, estimular a necessária salivação e, certamente, ainda muito mais importante, nos dar a oportunidade de sentir o gosto dos alimentos. Sim! Sentir o gosto! Dar tempo para cada porção de alimento chegar tranqüilamente ao esôfago e sentir prazer e saborear cada bocado. Quanto à salivação, vale lembrar que algumas substâncias, tais como amidos e alguns carboidratos, têm o início de sua digestão efetivados pela saliva. Novamente, através do paladar, estaremos confirmando e complementando a informação enviada ao nosso sistema orgânico sobre qual é a melhor composição química do suco gástrico a ser sintetizado para aquela refeição ou ingestão. Essas simples práticas servem rapidamente para eliminar muitos tipos de problemas gástricos: flatulência (os famosos gases), alguns tipos de gastrite e, algumas vezes, até mal funcionamento dos intestinos. Evidentemente, todas essas propostas não integram um plano de mudança radical de comportamento. Principalmente porque as grandes e rápidas transformações agridem o equilíbrio interior por ultrapassar a nossa flexibilidade às mudanças. Um plano de mudanças gradual se apresenta como uma alternativa bastante sábia. Como experimentação, na próxima refeição, reserve uma garfada, e apenas uma, para sentir plena e intensamente o sabor do alimento e para mastigá-lo e, até mesmo antes de engoli-lo, ter tempo para sorver o suco natural resultante da mastigação e da salivação. Gandhi dizia que devíamos mastigar os líquidos e beber os sólidos, referindo-se à salivação dos líquidos e à extrema fragmentação dos sólidos através da mastigação. Ocasionalmente, você até poderá se surpreender com quão automática tem sido realizada essa prática tão nobre e nutritiva. Observe também alguns outros automatismos: em que lado da boca você tem o hábito de mastigar mais freqüentemente; que tipo de alimentos você ingere e em que ordem etc. Então, todo esse processo de reeducação alimentar se tornará uma grande brincadeira, repleta de descobertas e surpresas – ou você acredita que existe um estado de espírito melhor que a curiosidade para aprender... Um dia, conversando com um amigo, soube que ele considerava ter um problema sério de obesidade que o incomodava sempre que se "descuidava de si mesmo". Devia manter uma preocupação constante com sua forma física, caso contrário, engordava. Quando lhe contei que sua obesidade ocasional mais parecia ser um mecanismo inconsciente de controle de estresse, percebi por sua expressão não-verbal que havia ressonância inconsciente. Ou seja, todas as vezes que começava a engordar, era por extrema atividade profissional e conseqüente descuido de seus hábitos e rituais de descanso e de auto-estima. Imediatamente, soava um "alarme" na consciência (na forma de aumento de peso). Quando seu peso e aparência atingiam um limite estabelecido como máximo ("tantos quilos", "tanta barriga"), neste momento, incomodado, automaticamente passava a se responsabilizar por mudar. Começava a se cuidar e, novamente, emagrecer. Aliás, como bom empresário, passava a vida engordando e emagrecendo, num ciclo quase infinito! Essa história ilustra o complexo jogo de forças dessas dimensões de nossa mente inconsciente que nos conduz por nossas decisões e caminhos de como nos comportar. Muitos, talvez, vistam a carapuça. A solução? Negociações, negociações e negociações em muitas conversas de travesseiro consigo mesmo, desde que vocês passem a respeitar as motivações mais profundas do seu interior e aprendam a preservar os sentidos e significados mais profundos instalados por vocês mesmos ou por seus processos de sociabilização. Como atleta, me atrevo a conjecturar que o mito do acúmulo e queima de calorias ser a causa linear da obesidade ou boa forma me parece uma conclusão muito simplista para explicar todo o complexo sistema de interação de enzimas, proteínas e outras substâncias orgânicas. Digo isso porque informações que chegam a público parecem reforçar a crença de que as causas simples da obesidade são um tipo de descompensação na balança de ingestão e consumo de alimentos calóricos. Tenho uma amiga que só come um pouco de salada em cada refeição e não está nada satisfeita com o seu peso. Mais ainda. Durante um seminário de duas semanas do qual eu era o palestrante, uma outra amiga me contou o seguinte episódio: após três semanas de dieta e "malhação" de aproximadamente noventa minutos diários em academia de ginástica e esteira, observou que havia perdido menos de meio quilo – que foram recuperados rapidamente após essa constatação. Porém, no final de semana prolongado durante o curso, encontrara um antigo namorado e, junto com a família, passaram no litoral comendo petiscos (camarões, lulas, frituras etc.) à beira-mar e bebendo alguns litros de chope. Ao retornar, havia emagrecido dois quilos! Repito, então, qual é a diferença entre as metas bem-sucedidas e as metas não atingidas? Tendo tanto Freud quanto Jung, no início de suas carreiras, começado pelo estudo da hipnose e nos deixado de herança potentes conceituações a respeito da psique humana, observo que talvez uma das mais significativas sejam as idéias de inconsciente e inconsciente coletivo. Para este artigo, porém, quero abordar o que eu chamaria de consciente coletivo. Muito evidente para pessoas que viajam para outros países e têm oportunidade de observar as diferenças culturais, étnicas e de comportamento próprias de outros povos. Não tenho intenção de chocar os leitores, mas a questão estética, devemos lembrar, possui padrões definidos no tempo, no espaço e na cultura: o que se convencionou aceitar como beleza ocidental na Idade Média é bastante próximo dos padrões de beleza atuais no Oriente Médio – as mulheres mais "cheinhas" fazem muito mais sucesso. Como curiosidade, também ao abrir o Kama Sutra (texto sagrado da cultura sexual extremo oriental), descobriremos que o abdômen proeminente (vulgar: barriga) parece possuir um significado enobrecedor. Quando ensinava Tai Chi Chuan regularmente, costumava dizer que o abdômen "reto" muitas vezes está associado a intestino preso, em geral, e a cólicas menstruais, nas mulheres (a forma mais natural do abdômen, quando a musculatura está relaxada, é curva, porém, quando contraída, está diretamente associada à tensão anal e da musculatura abdominal – por isso a prisão de ventre). Vale lembrar, ainda, que o sentimento de culpa que acompanha algumas pessoas na hora do deleite gastronômico, com relação ao aumento de peso ou à forma física, pode ser amolecido ou reenquadrado a partir dessas ponderações. Todas essas dicas e sugestões, poderíamos dizer que integram um sistema de emagrecimento. Não posso deixar de incluir também o ganho de peso. Comumente, chamamos a isso "regime" e, como outro qualquer, também tem suas limitações. Entretanto, diferente de qualquer outro, é muito mais agradável e respeitoso com nossos impulsos mais espontâneos – regra essencial para conquistarmos a cooperação de nossas dimensões inconscientes na busca e obtenção de resultados mais dignos de bem- estar. Não obstante, se avaliarmos os ganhos secundários (princípio da alavancagem na aprendizagem inconsciente), a transcendência dos resultados, o aumento de consciência (auto-conhecimento), auto-respeito e auto-estima, possivelmente, a longo prazo, atinjamos resultados inimagináveis inicialmente e que nos surpreendam positivamente, ou mesmo que superem em muito as pequenas expectativas iniciais. Afinal de contas, estamos entrando na era de encantar o cliente. Época na qual a lei do levar vantagem parece estar sendo dissolvida na consciência coletiva do brasileiro e, finalmente, cada um de nós, enquanto profissional ou pessoa, esforça-se para superar os desejos e anseios dos clientes e para surpreendê-los com a qualidade dos resultados. Essa atitude básica é valiosíssima, acima de tudo se começarmos a usá-la com nós mesmos ao considerar cada parte de nós mesmos como clientes internos. Vá adiante e divirta-se.

Conclusão

Diferente das soluções mágicas ou promessas garantidas, aproveitar alguns sintomas ou insatisfações como força propulsora para o desenvolvimento da percepção e o despertar da vida interior pode, talvez, não garantir sempre infalivelmente uma mudança significativa no peso. Mas certamente liberta o indivíduo de suas ansiedades de corresponder a um padrão estético cultural e externo a si próprio, possibilitando a reconquista de si mesmo e o despertar de auto-estima e auto-respeito.

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