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Inteligência Intrapessoal: As Diferenças que Podem Fazer Grandes Diferenças

© Walther Hermann

Sinopse

Uma breve visão panorâmica sobre a realidade que vivemos, fatos do cotidiano, que nos impulsionam a buscar soluções não convencionais em universos cada vez mais abstratos e menos materiais. Graças as necessidades impostas pela lei da oferta e da procura, graças aos fracassos de velhos métodos, graças a uma sede insaciável pelo encontro de paz e serenidade que, primeiramente pode nos afastar, mas que certamente nos aproxima de nós mesmos ao longo de nossas vidas!

Contexto

Esse texto simples tem por objetivo despertar o interesse do leitor pelo conhecimento de si mesmo, se não pelos ganhos interiores, que seja empreendido pelos possíveis resultados objetivos decorrentes do autoconhecimento tais como maior equilíbrio de emoções, gerenciamento das tensões e, até mesmo, cura de alguns males e doenças de nossa civilização.

Artigo

Ter um alto QI (coeficiente de inteligência) já garantiu bons empregos. Possuir formação superior, também. Ser graduado em cursos no exterior, ter pós-graduações, falar outros idiomas, ter alto grau de inteligência emocional, etc, todos esses já foram, cada um por sua vez, importantes diferenciais para a conquista do sucesso num mercado profissional cada vez mais seletivo e competitivo. Nada disso é novidade. Entretanto poucas dessas qualidades garantem definitivamente aos seus possuidores um estado de satisfação interior e aceitação que evite as crises na existência humana.

Vivemos uma época de grandes e rápidas transformações e muito do que aprendemos com nossos pais e mestres está sendo "colocado em cheque" pela realidade e revelando sua inconsistência. As gerações anteriores criaram padrões de comportamento e decisão baseados na filosofia do compromisso com as necessidades de sobrevivência. Graças ao mundo que eles construíram, nós estamos podendo construir um mundo baseado na filosofia do prazer e bem estar.

Além de necessitarmos cada vez mais flexibilidade, agilidade e criatividade para construir o mundo do futuro, em geral, aquilo que muitos de nós mais buscamos é uma "bola de cristal" confiável para sondar o futuro ou o segredo daqueles campeões que encontraram o sucesso. Basta observar o grande desempenho de vendas de biografias de gente famosa, livros de auto-desenvolvimento ou auto-ajuda, e tantos profetas do futuro tais como futurólogos (cientistas especialistas em prever o futuro), videntes, cartomantes, etc.

A insegurança em todos os níveis de existência, especialmente daqueles que vivem em grandes cidades, ainda acentua o desejo de buscar soluções definitivas em consultórios terapêuticos, mentores, etc. Dado que essa é uma tendência coletiva, creio que nos revela uma verdadeira necessidade de nossa própria cultura, e não somente dos indivíduos isoladamente (isso se considerarmos a nós mesmos como pequenas células de um organismo vivo maior chamado comunidade, povo ou nação).

Se você levar em conta tais idéias, e ainda considerar as mais recentes pesquisas sobre saúde dentro da medicina psicossomática (que tem comprovado que a maioria das doenças e males tem origem psicológica ou emocional) eu pergunto: não seriam problemas culturais, falhas em nossa educação enquanto seres humanos, o que mais conduzem as pessoas ao médico e ao psicólogo?

Por exemplo, a má alimentação que pode produzir tantos problemas gástricos ou o próprio diabetes, não seria falta de conhecimento? Imediatismo e ansiedade, não seria também falta de conhecimento? Você já conheceu algum "caipira" (pessoas que tiram seu sustento da terra) ansioso? Depressão ou pânico, que tanto assolam tantos habitantes das grandes cidades, não estariam relacionados com alguns contextos e ambientes de vida?

Ainda seguindo esse raciocínio e falando um pouco mais sobre nossos condicionamentos e nossa cultura, quero agora explicar o que me levou a me especializar em aprendizado e desaprendizado (descondicionamento).

Quando eu comecei a praticar o tênis como esporte, ainda adolescente, era uma época na qual predominava a filosofia do "Tênis Força", quando na época se despontava como grande campeão o primeiro superatleta desse esporte (1977 aproximadamente).

Tendo iniciado nessa época, acreditei que isso era o certo e praticava tênis com paixão e obsessão! Treinava várias horas diariamente e desejava ser um campeão. Também corria (Cooper), fazia ginástica, alongamento, musculação e natação, tudo para melhorar minha performance e resistência para o tênis de competição.

Entretanto, logo nos primeiros torneios que disputei (ainda como principiante) meu desempenho não passava de vinte por cento daquele que obtinha em jogos sem compromisso! Em competição, perdia de jogadores muito piores que eu, dos quais ganharia sem esforço algum caso não estivesse competindo. Então compreendi aquele curioso provérbio chinês: "Se você se conhece e conhece o seu adversário, em cem batalhas vencerá todas. Se você se conhece e não conhece o seu adversário, vencerá apenas a metade. Mas se você não se conhece, perderá todas". Essa era a evidência, eu perdia todas! Logo conclui que não me conhecia, mesmo porque nem sabia gerenciar ou controlar as tensões e descontrole da coordenação motora em competição!

Foi especialmente nessa época em que mais desejava me desenvolver que constatei a necessidade de buscar outro tipo de treinamento. E acreditei que esse novo conhecimento poderia fazer a diferença, dado que meus parceiros e adversários em competições também treinavam tanto quanto eu! Comecei a olhar a excelência com outros olhos... Pude então notar que entre os dez melhores atletas do mundo, em qualquer modalidade esportiva, as qualidades técnicas, condição física, habilidade, talento e intensidade de treinamento, são muito semelhantes.

Qual seria então a diferença que garantia a um ou dois deles serem os primeiros por longos períodos, serem os campeões? Qual seria a diferença entre o campeão e o segundo colocado, ou entre os dez primeiros e os outros cem? Quais seriam as qualidades que permitiriam a expressão da excelência nas piores condições de estresse e tensão?

Pense bem, quantas vezes você foi submetido a uma grande carga de estresse ou responsabilidade e, na "hora H", não conseguiu ser aquilo que tinha treinado tanto para ser ou desempenhar? Seja numa entrevista, num debate, numa prova, num conflito (no qual pode ter até perdido a razão mesmo estando certo), numa situação de risco ou mesmo numa ocasião em que a estabilidade do ambiente dependia de uma intervenção sua e não conseguiu corresponder à necessidade, dado que talvez estivesse fora de seu "centro", fora de si mesmo? Quantas vezes as circunstâncias fugiram de seu controle e você perdeu oportunidades por causa disso?

Já aconteceu de estar devidamente preparado para uma prova e, seja por falta de atenção ou de lucidez, acabou errando justamente as questões que mais sabia? Ou talvez tenha sido uma vítima dos chamados "brancos"! Esses tipos de experiências nos remetem novamente para aquele algo mais que pode fazer a grande diferença: o autoconhecimento!

De fato, quando nascemos, não recebemos um manual de instruções que nos ensine como operar melhor nossa "máquina de viver"! Sendo que nossos pais também não receberam tal manual nem para si mesmos, nem para serem pais e educadores, mesmo que sejam muito bem intencionados, os resultados de suas ações e comportamentos podem ser bastante imprevisíveis e acompanham o processo empírico, ou seja, aprendem na tentativa e erro! Isto é, na prática, mesmas doutrinas, ações e intervenções na educação de filhos diferentes podem gerar resultados muito diversos.

Reflita agora sobre essas questões levando também em conta a seguinte pesquisa que foi empreendida durante 25 anos por uma universidade americana (apresentada no livro "Ponto de Ruptura e Transformação" de autoria de George Land e Beth Jarman da

Editora Cultrix). Eles construíram oito testes de criatividade que foram aplicados em um universo de 1.600 indivíduos de diferentes faixas etárias. Entre crianças com idades no intervalo de três a cinco anos, eles constataram que 98% delas tinham grau de genialidade criativa. Na faixa de oito a dez anos, identificaram 32% de gênios. Entre treze e quinze anos, havia 10% de gênios. Pasme, aos vinte e cinco anos de idade, restavam apenas 2%!!!!!!!!!!!!!

Creio que algumas culturas tenham investido mais tempo em desenvolver conhecimentos mais duradouros... Pense bem, no ocidente, grande parte dos esforços da ciência se concentram em construir conhecimentos que sobrevivem apenas meses, anos ou décadas no máximo, depois se tornam completamente obsoletos. No entanto, algumas culturas tradicionais pesquisam conhecimentos sobre a natureza humana, suas necessidades mais íntimas, suas emoções e sobre saúde, que sobrevivem a milênios!

Porém, se você perguntar qual tipo de conhecimento é melhor, não tenho uma resposta conclusiva, creio que ambos têm o seu valor. Sendo assim, tão importante quanto o conhecimento de curto prazo, é também o conhecimento de longo prazo, você não acha? Então porque as pessoas investem tanto tempo no curto prazo e deixam de lado o de longo prazo?

Por exemplo, qualidades tais como: criatividade, automotivação, autoestima, concentração, boa memória, boa comunicação, perseverança, planejamento, discernimento, sensibilidade, habilidade de gerenciar conflitos, etc, não são enfatizadas nas escolas, admitindo-se deverem vir do lar e sendo preteridas pela ênfase em conhecimentos que muito poucos são capazes de memorizar e levar como algo de valor para suas próprias vidas pessoais na maturidade. Parece que há algo errado, você não acha? Pense nas melhores qualidades que você desenvolveu e que hoje realmente fazem a diferença em sua vida, foi na escola que você aprendeu?

Certamente você já ouviu a célebre frase: "Conhece-te a ti mesmo".

Também para aqueles que não buscam esse conhecimento, a própria vida se encarrega de ensiná-lo em toda a sua amplitude! Essa é a magia da existência, aprendemos até sem querer! Mais um exemplo que considero interessante e simples, você poderá revela-lo numa breve análise retrospectiva por sua própria história de vida, basta acompanhar o próximo raciocínio.

Um dia você foi uma criança que gostava de brincar e de se divertir. Talvez possuísse alguns brinquedos que o entretinham por horas a fio. Conforme foi crescendo, pode ter acontecido que mesmo aqueles brinquedos mais interessantes, curiosidades ou até dúvidas existenciais daquela época não absorviam mais a sua atenção como antes...

Quando adolescente, talvez gostasse de passear, ir a "shows", bares, paquerar, etc, e, ao longo do tempo, até esses hábitos, desejos e interesses podem ter mudado na juventude.

Quando adultos, seja pela necessidade de sobrevivência, desejo de constituir família, ficar rico ou adquirir poder e fama, mais uma vez nossos interesses e os novos "brinquedos" que nos divertem são outros.

Se você abstrair essa tendência natural, pode facilmente compreender que em breve, mais outra vez, novas transformações virão pela frente, a não ser que tenha ficado aprisionado a alguma identidade do passado. Metaforicamente eu poderia dizer que aquela criança que você foi, na infância, morreu! Naturalmente para dar existência ao adolescente... Que também pode ter morrido, para permitir que nascesse o adulto.

Perceba que, em nossas vidas, simbolicamente, nós morremos e renascemos várias vezes, exceto quando ficamos apegados demais a determinadas formas de ser antigas e desatualizadas. Se você já pressentiu a morte ou teve sonhos com esse conteúdo, sabe muito bem sobre o que estou falando, são prenúncios de grandes transformações inconscientes e mudanças interiores que dão existência a nossas novas identidades.

Dessa forma, talvez você agora possa concordar comigo em sentir a beleza e a profundidade das seguintes frases de um grande sábio persa do passado que se chamava Rumi: "O anseio interior se expressa na forma de inúmeros desejos que levam as pessoas a concluir que sejam suas necessidades verdadeiras. No entanto, a experiência comprova que não são necessidades tão importantes pois, mesmo que realizem tais desejos, o anseio não se atenua (e apenas se desloca para outro objeto de interesse)". Quantas vezes você não desejou algo que pouco tempo após ter obtido ou conquistado já não o satisfazia mais (quem sabe um brinquedo, uma máquina, uma roupa, um carro, etc).

Para concluir, quero falar sobre duas importantes lições que a vida me ensinou em minhas buscas por aqueles conhecimentos mais duradouros, isto é, o autoconhecimento.

Você já notou que existem situações no nosso dia-a-dia que se repetem? Mudam os nomes, as pessoas, os lugares, os dias e, como num "script" de uma peça teatral, tudo se repete? É o funcionário que sempre se desentende com o chefe (seja ele quem for), um indivíduo que nunca acerta num relacionamento afetivo ou sempre encontra pessoas com os mesmos defeitos (quem sabe pessoas ciumentas ou possessivas, etc), um professor que sempre se queixa de alunos rebeldes, etc...

Esses são alguns exemplos comuns de programas inconscientes que condicionam a realidade das pessoas, como se fosse o enredo do filme "O Feitiço do Tempo" (muito original, em minha opinião) no qual um sujeito passa a acordar todas as manhãs na mesma data!!!!!!! E o seu dia se repete indefinidamente, de modo que ele já até sabe o que vai acontecer no instante seguinte até que, cansado da mesmice, começa a assumir a responsabilidade pela mudança e passa a contribuir para tornar os dias mais agradáveis.

Pois é, descobri que a melhor "bola de cristal" que existe, o melhor e mais preciso oráculo que temos à nossa disposição é a própria realidade em que vivemos! Ali, debaixo de nossos próprios olhos, ouvidos e sensações estão todas as situações que necessitamos para promovermos o nosso crescimento interior. E caso queiramos ou não, continuam a se repetir (exatamente como quando somos reprovados na escola) até que aprendamos a agir saudável e agradavelmente, como se a nossa experiência da realidade fosse apenas um poderoso espelho das nossas entranhas emocionais, mentais e espirituais!

Conclusão

Se você concordar que a insegurança, em todas as suas dimensões, é uma de nossas mais freqüentes companheiras, então talvez conclua que o autoconhecimento possa ser o portal de libertação dos maus sentimentos decorrentes dessa companhia tão sutil e tão fantasmagórica, pois nossos medos, como verdadeiros fantasmas, insistem em estar presentes em nossos dias!

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