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Momentos de Transição II: Processos de Transformação Pessoal

© Walther Hermann

Sinopse

Um rápido panorama das sombras de nossa civilização observados sob um ponto de vista educacional. Serão os dramas de nossa cultura problemas ou soluções? Sendo que não temos um manual de instruções completo, as formas de ser e agir são moldadas a partir da tentativa e erro, assim como os julgamentos que atribuímos às próprias soluções geradas nesse contexto. E se estivermos errando também nos julgamentos? E se aquilo que consideramos inadequado forem exatamente as soluções que nos impulsionem para melhores formas de ser e compreender o mundo?

Contexto

Mais uma vez o mundo é o cenário da evolução de nossa cultura... A partir desse ponto de vista mais distanciado, numa perspectiva de tempo mais dilatada, talvez possamos encontrar uma compreensão mais condescendente para com os comportamentos marginais sabendo que, mesmo estes, são talvez as melhores opções daqueles que não se adaptaram ao grande vilão: a camisa de força do sistema de vida que já existia antes de nós e vai sobreviver à nossa passagem. Dessa forma, especialmente nos momentos de crise, podemos encontrar soluções menos constritivas para nós e um pouco mais de aceitação e compaixão para conviver com nossos sucessos, dramas e fracassos.

Artigo

Embora existam algumas pessoas que não conhecem os significados e sentimentos associados às palavras fracasso, frustração, insatisfação, desorientação, decepção, depressão etc., ainda assim parece fazer parte da existência humana a experiência de alcançar alguns objetivos e não alcançar outros. Caso, ainda assim, uma pessoa não possua essa vivência, no mínimo deve ter observado diferentes níveis de facilidade e dificuldade de atingir alguns sonhos ou metas.

Outra situação significativa é a constatação das diversas "mortes e renascimentos" simbólicos pelos quais passamos ao longo de nosso crescimento e processo de sociabilização. De fato, ao fazermos uma retrospectiva de nossa vida, percebemos que nossas formas de ser e expressar quando crianças, adolescentes e jovens muitas vezes já deixaram de existir ao cederem lugar a outros comportamentos, sentimentos, preocupações etc. Ocasionalmente, porém, percebemos que formas passadas coexistem com formas presentes pacificamente ou mesmo em conflito.

Comparando nossa estrutura interior, é quase unânime a evidência de que os desejos e vontades (conscientes e inconscientes) são nossa força propulsora de abordagem da realidade. Essa "pressão" interior para ser expressa no mundo através da individualidade e identidade de cada um de nós, em algumas pessoas, foi tão aprisionada que acabou por manifestar formas diferentes de canalização. Essa é uma das modernas formas de compreensão de agressividade, sintomas e de algumas doenças.

Oriundo de diferentes culturas, temos um provérbio que pode ser expresso assim: "Deus escreve certo por linhas tortas". Além disso, a realidade dos fatos acaba, quase sempre, comprovando a seguinte percepção: quantas não são as pessoas que conhecemos ou de quem ouvimos falar que, exaustas e cansadas de combater seus "dragões", aliaram-se a eles e obtiveram sucesso inimaginável? O homem que vendia "fracassos", o homem que vende "ignorância", um doente que se tornou curador, um alcoólatra que resgata outros do vício, um empresário "quebrado" que ajuda a salvar outras empresas etc.

Comparando nossa cultura com o desenvolvimento do ser humano, talvez possamos afirmar que ela ainda é bastante jovem. Senão imatura. Considere os principais problemas que vivemos atualmente e perceberá que nossa educação não nos proporcionou a habilidade, o discernimento, a sensibilidade e a flexibilidade necessárias para conviver de uma forma menos tensa com este mundo que, há séculos, permanece em constante transformação. No passado, entretanto, a velocidade das mudanças parecia ser bem menor. A grande crise não são as transformações do ambiente – este sempre se alterou –, mas a inadaptabilidade de nossas formas de perceber e entender o mundo (os nossos paradigmas). Além do mais, muitas das mudanças que estamos presenciando foram previstas, e quantos se prepararam antecipadamente?

Um dia, em uma palestra, durante os instantes reservados às perguntas, recebi a seguinte: "Eu tenho um filho de nove anos que destrói todos os seus brinquedos. Tenho dito a ele, repetidamente, que não comprarei mais brinquedos se ele não aprender a cuidar bem dos que possui. Mas você sabe como a gente é, eu não resisto, compro outro e a história se repete... O que você tem a dizer sobre isso?". Respondi a ela que teria, de fato, três respostas para aquela pergunta: "A primeira, talvez a mais importante, é que você não deve acreditar em nada do que eu disser, pois não tenho filhos; a segunda é que eu também fui uma criança que quebrava muitos brinquedos. Mas eu não os jogava no chão para saber se resistiriam ou quebrariam. Eu observava, comparava, desmontava etc. Acredito que a criança que quebra brinquedos é, em geral, aquela que busca entender a estrutura de funcionamento do mundo material, e que quebrar brinquedos seja apenas uma fase de comportamento não intencional (fase de exploração) existente dentro de um processo maior que podemos chamar de compreensão do funcionamento do universo físico – suas possibilidades, suas limitações. Enfim, avancei desenvolvendo uma boa habilidade de consertar brinquedos. Concluo, ao observar outras crianças que quebram brinquedos, que são as mesmas que, num futuro, consertarão e até construirão.

Então você poderia entender o seu dinheiro como sendo investido em proporcionar um campo de exploração para seu filho aprimorar a habilidade manual e desenvolver a capacidade motora e de observação". "A terceira resposta talvez te incomode um pouco, porém pode ser a mais significativa para você: de todas as ocasiões em que você repetiu aquele tipo de repreensão, dias, situações, lugares e brinquedos diferentes, a única coisa que se manteve constante foi a sua incongruência! Pense bem, o que você está realmente ensinando, inconscientemente, a seu filho é que os adultos não fazem o que dizem, e que não dizem o que fazem. Você, nas entrelinhas do seu comportamento, está ensinando essa criança a te manipular! Então, sugiro que, de agora em diante, nunca mais diga que 'não vai mais dar brinquedos' ou nunca mais dê enquanto permanecer afirmando essa frase!".

Essas e outras incoerências de nosso universo cultural atual são apreendidas inconscientemente, quotidianamente. Observe um pai que diz a uma criança que é errado mentir. Que até a castiga quando ocorre esse fato. Toca o telefone, alguém procura aquele homem e ele orienta a criança a dizer que não está em casa. Como vocês imaginam que isso é capturado pela jovem compreensão da criança? Pense nos índios americanos que não tomavam uma decisão sequer sem projetar no futuro as conseqüências até a sétima geração seguinte. Talvez possamos, agora, chegar à conclusão de que nossas formas de lidar com o mundo ainda sejam pouco adequadas para construí-lo melhor.

Enfim, não recebemos um manual de instruções detalhado e fidedigno a respeito de como nos comportar enquanto indivíduos ou enquanto povos (cultura). Nesse processo de tentativa e erro, lentamente, vamos aprendendo a agir de forma mais efetiva e racional – mas como identificar os limites? Explorando, experimentando, testando, errando, consertando e, finalmente, aprendendo.

Com tantas mudanças a serem feitas em nossa compreensão e ação na realidade, posso quase garantir que as respostas não estão prontas. Cabe a nós encontrá-las. Cabe também a nós não tentar perpetuá-las, pois algumas serão inadequadas para o futuro. As evidências gritam aos olhos, através de tantas novas "doenças": agorafobia (Síndrome de

Pânico), crise da meia-idade, Síndrome do Ninho Vazio, inadaptabilidade da terceira idade, marginalização, desemprego, falências, dependência química, fracassos, dependência psico-emocional, trabalho obsessivo, separações, alergias e males crônicos, obesidade, estresse, câncer, suicídios, doenças terminais etc. Campos nos quais nossa medicina apenas engatinha ou, ainda, nem sequer abriu os olhos... Toda essa confusão ainda não apresentou a sua ordem subjacente. Quem sabe as soluções sejam mais simples e gerais do que ainda possamos imaginar? Sabemos, hoje, que já existem muitos pesquisadores explorando esses horizontes.

Futuramente, acredito que os médicos, dentistas e psicólogos terão muito mais o papel de educadores ao praticar a saúde preventiva, habilitando as pessoas a prevenir e apoiando grupos em suas buscas de cura de indivíduos.

Pensemos bem, os dependentes químicos são culpados ou vítimas? O consumo de substâncias entorpecentes começa no seio do lar: álcool, cigarro, calmantes, estimulantes etc. Dentro de casa, ainda, gozando de maior intimidade e fidelidade ainda, entra, através da televisão, toda uma doutrinação de como são bonitas, ricas e felizes as pessoas que bebem determinada bebida ou fumam "aquele" cigarro. Condicionamento feito, muitas vezes, numa época em que a criança ainda possui pouco discernimento para fazer as próprias escolhas.

Sob essa perspectiva, esse mundo de fantasias talvez ofereça uma solução mais simples do que encarar todas aquelas incoerências e mentiras do mundo adulto. Somos todos responsáveis. Os co-dependentes que o digam. Em última instância, pensando naquelas pessoas que são capazes de viver toda uma existência sem um mínimo impulso de buscar e se expressar, talvez os dependentes tenham até alguma "sorte": mesmo sem ter encontrado uma forma saudável ou a maneira socialmente adequada para construir um mundo melhor, acabaram por expressar aquela "pressão" interior adotando comportamentos marginais. Nesses casos, o vício pode ser encarado como um sintoma, uma busca inconsciente, pouco adaptada socialmente, de mudar as coisas – pelo menos em fantasia.

Ainda considerando todos aqueles insucessos acumulados por nossas formas de lidar com os "problemas" recentemente citados, lembrando o quanto nossas ciências se aprimoraram nos últimos anos, podemos sonhar com um futuro, não muito distante, no qual esses "males" não serão mais limites para nossos comportamentos. Lembre-se, hoje já existem soluções para lesões de nervos; há pouco mais de duas décadas, a maioria dos médicos eram categóricos em afirmar que tecido nervoso não se regenerava! Pense em quantas pessoas foram condenadas a uma existência quase vegetal por acreditar nessas afirmações!

Não obstante, sabemos que qualquer um daqueles "distúrbios" de saúde ou comportamento descritos (e ainda muitos outros) que se instalem em uma pessoa, família ou grupo acabam por cristalizar novas formas de pensar, agir, ser. Essa dinâmica pode definir novos papéis e, conseqüentemente, uma nova identidade. Alguns desses comportamentos são considerados incuráveis. Mas cada um já viveu a experiência de, ao longo da vida, permitir que algumas identidades mais jovens se dissolvessem para dar lugar a um nova forma de ser: uma nova identidade (mortes e renascimentos simbólicos).

Conclusão

A vida humana, do ponto psicológico e emocional, é uma grande sucessão de mortes e renascimentos: a cada nova fase da vida devemos encontrar uma nova forma de ser, agir e pensar. Quando as pessoas não se permitem que uma identidade desatualizada morra, começam a não se sentir aptos para atender às solicitações sociais e culturais, como, por exemplo, um aposentado que não sabe o que fazer com o seu tempo livre, ou um recém casado que não assume o papel esperado de si dentro do casal. Essas demandas da vida em sociedade podem criar grandes tensões emocionais cujo desfecho sejam sintomas ou mesmo doenças: compreender essa relação causal pode ajudar a solucionar muitos dramas de ordem pessoal emocional. Evidentemente, se nos prepararmos para as possíveis mudanças e compreendermos o destino emocional reservado para nós, humanos, certamente a vida poderá florescer de acordo com as possibilidades de brilho de cada um.

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