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Paradoxos do poder: Durante a Jornada de Construção do Bem-Estar

© Walther Hermann

Sinopse

A busca pelo desenvolvimento, aprendizado, a habilidade de agir sobre a natureza ou circunstâncias, conhecer, tomar consciência, etc, podem ser considerados como um anseio pela obtenção de poder: ter a possibilidade de... Quer seja essa pressão uma causa ou uma conseqüência de estarmos vivos no presente, não devemos menosprezar essa tendência da natureza humana e, se soubermos lidar bem com essa força da psique humana, teremos mais simplicidade e honestidade para lidarmos com nossos desejos e impulsos inconscientes.

Contexto

O desconhecimento do futuro pode ser uma faca de dois gumes? Se causa angústia, medo ou ansiedade por um lado (experiência consciente), também pode ser uma dádiva dos deuses do ponto de vista inconsciente! Basta lembrar que muitas das nossas melhores qualidades foram forjadas em algumas de nossas mais desgastantes ou tensas experiências de vida! Sendo assim, um pouco de confiança na Providência, de aceitação e de resignação frente ao futuro desconhecido pode ser um tempero agradável para conduzirmos nossas vidas. Mesmo porque, há algumas evidências científicas de que nossa mente interior tem tal conhecimento do passado, presente e futuro de nossas existências!

Artigo

Como palestrante e educador, tenho o hábito de, na medida do possível, adequar meus seminários e cursos às necessidades dos participantes. Assim, geralmente, no início desses eventos faço um levantamento das expectativas dos participantes. Cada turma, muitas vezes, tem uma característica própria, porém, é quase invariável figurar entre os anseios das pessoas a busca e a conquista de controle e poder. Algumas vezes o controle se configura como autocontrole, mas sempre está presente. Consensualmente, vivemos em uma época em que conhecimento e informação realmente são "sinônimos" de poder.

Desde longa data também, existe um segmento de mercado totalmente apoiado no comércio das previsões, antevisões e clarivisões. Até os mais racionais, as mentes mais lógicas e os mais céticos se mostram humanos ao buscar ou aceitar ajuda ou consolo de cartomantes, astrólogos, numerólogos etc., com a constatação da frágil condição humana frente à existência de algo que chamamos de destino (quando alguém me pergunta se existe destino, usualmente dou uma resposta evasiva: "Acredito que existam destinos possíveis").

Considere os mercados editorial, jornalístico e cultural milionários que incluem as previsões de Nostradamus, textos sobre astrologia, cartomancia etc. Ou mesmo as inúmeras páginas que descrevem e classificam as tendências de personalidade das pessoas em função da fisionomia, organização motora, expressão corporal ou verbal etc.

Essencialmente, tudo que possa instrumentalizar cada indivíduo com habilidades de como lidar com os outros e a realidade.

Além dessas prospecções no futuro em busca de significado, segurança ou oportunidades, há também, graças às nossas concepções causais do nosso universo, uma grande busca pelas razões passadas: "Por que aconteceu isso?".

Assim, depois desse cenário inicial tão incógnito, no qual nos damos conta de nossa situação de expectativa em relação ao futuro, e no qual muitas vezes temos a impressão de estar confinados numa condição em que somos "ignorados" em nossos questionamentos, ou talvez surdos e cegos às possíveis respostas ou evidências, quero apresentar algumas percepções que me foram oferecidas pelo convívio com a prática do

Tai Chi Chuan e com parte da cultura oriental, talvez já tão antiga e experiente que não faça exatamente as mesmas perguntas que nós ocidentais fazemos. Dizia um grande sábio oriental, Rumi, que "o anseio interior se expressa na forma de inúmeros desejos que, pensam as pessoas, são suas necessidades verdadeiras. Porém, a experiência mostra a inconsistência destes pois, mesmo que sejam satisfeitos, o anseio não se atenua...", e novos desejos são formulados, consciente ou inconscientemente.

Embora em alguns momentos de nossas vidas nos movimentemos meio que sem rumo ou mecanicamente, ao buscar significado ou vislumbrar o futuro e tentar diminuir o impacto de suas investidas contra o presente, ou mesmo ao sentir essa "pressão interior" que nos impulsiona para existir e expressar-nos, certamente podemos concluir que essas percepções se relacionam de alguma forma com algo que podemos chamar de poder em sua acepção mais essencial e primitiva.

Mais algumas faces dessa mesma "moeda". Certa vez, um grande mestre afirmou: "Se você quiser ser mais organizado, você também deve praticar a desorganização; se quiser mais vitalidade, deve também praticar mais descanso; se quiser mais concentração, deve ainda praticar a desconcentração (ou descontração); se quiser mais controle, deve praticar o descontrole"! Essas palavras operaram em minha mente como um vírus em um computador, "rasgando" a estrutura de meus pensamentos. Eu já reconhecia a sua maestria e aprendera muitas coisas valiosas com esse professor. Meu coração disparou e lembrei-me de uma experiência que vivera e que, de alguma forma, sustentava a possível realidade daquelas palavras. Na prática do Tai Chi Chuan, existe um estágio no qual, dependendo do estilo praticado, para adquirirmos mais velocidade, rapidez e eficácia nos gestos marciais, devemos praticar cada vez mais lentamente (sem perder a fluidez). Ao constatar a veracidade dessa percepção, comecei a praticar os gestos do Tênis de uma forma mais consciente e lenta e pude observar, experimentalmente também, um incremento na velocidade e no ritmo do meu jogo!

Restava então comprovar, na prática, se as afirmações daquele mestre poderiam ser reais ainda em outros ambientes. Invariavelmente precisas! Essa, comprovei, é realmente uma das dimensões de nossa existência: a contradição, ou paradoxo.

Ainda sem questionar onde estão os limites de nossa realidade, ficou evidente que os fatores e parcelas que concorrem para a realização e materialização de nossos sonhos, anseios e planos são muito mais numerosos que aqueles que usualmente consideramos racionalmente. Observe que existem incontáveis títulos de livros que pretendem nos oferecer as fórmulas do sucesso: quais são as ações, o encadeamento de pensamentos etc. Porém, não funcionam com todo mundo.

Quero apresentar dois exemplos que, nem que por livre associação, nos mostram essa outra dimensão das estradas curvas pelas quais nossa mente inconsciente nos conduz à conquista de algum poder. Em ambos os casos, os protagonistas vivem nos

Estados Unidos e, por muito tempo, tiveram dúvidas a respeito de seus sucessos e competências.

Do primeiro dos exemplos tomei conhecimento, "acidentalmente", no embalo da leitura de uma reportagem de capa sobre a empresa Eu S.A., de Tom Peters, em uma das edições da revista Exame de 1997. De fato, a matéria seguinte foi bastante sensibilizante para mim. Um profissional que atestava, convictamente, que "vendia ignorância". Depois de uma longa carreira de pequeno ou médio empreendedor de pouco sucesso, concluiu que seu maior patrimônio era a dificuldade que tinha de compreender alguns manuais, guias e informativos. Na prática, é claro, sua dificuldade de compreensão o motivava a reorganizar aquelas informações de uma maneira mais compreensível para si. E, finalmente, para os outros. Nesse empreendimento presente, profissionalmente, se auto-qualificava de arquiteto de informações. Extremamente preciso, exceto pelo fato de essa profissão não existir, pelo menos até então.

Após ler esse texto, tive o sentimento de um grande alívio: identifiquei uma profissão para mim. Arquiteto de aprendizagens. Ou talvez consultor em racionalização de processos de aprendizagem. Ou... De qualquer forma, o mais significativo não é que o mundo esteja mudando (ele sempre mudou!), e sim que as mudanças do mundo estão começando a mudar nossas crenças a respeito dele. As transformações estão nos fazendo mudar nosso modelo e concepção do mundo. Neste momento, pérolas como esses dois exemplos nos atenuam as tensões e estresse decorrentes de nosso esforço de desapego de nossos velhos paradigmas.

No início do ano de 1998, retornei à escola na qual concluí o segundo grau e, feliz ao encontrar um antigo professor, soube de sua angústia profissional em participar do time de educadores empenhado em construir currículos e aconselhar alunos de nível médio em suas escolhas de carreiras. Confidenciou-me: "As antigas profissões estão desaparecendo e nós não sabemos para onde estamos indo!". Pense no risco a que está exposto um professor atual de, ao escrever algo na lousa, ter sua atenção chamada por um aluno que afirma que sua informação é obsoleta ou antiga, de acordo com suas "viagens" e pesquisas na Internet ou em seus materiais multimídia. Muitas vezes, o próprio professor não teve tempo de se atualizar ou de prospectar o novo.

O segundo exemplo me foi contado por um amigo ao ouvir-me contar o primeiro. Era sobre um empreendedor fracassado. Nenhuma novidade... Existe uma estatística que diz que, na média, um empreendedor fracassa três vezes antes de atingir sucesso. Mas esse indivíduo tinha sido malsucedido em, talvez, dez ou vinte empreendimentos! Até que, um dia, já exausto, avaliou tudo o que fizera até então e se formulou a seguinte pergunta: "Afinal de contas, o que eu sei fazer?". Ou talvez: "Afinal de contas, o que eu aprendi?".

Bem, não estou certo exatamente. Não importa de fato a pergunta, mas sim a atitude, reconhecer para onde sua vida o havia conduzido: "Eureka!". Chegou à conclusão de que o que sabia ou aprendera, finalmente, era ter desenvolvido a habilidade de se motivar e, enquanto profissional, se levantar novamente. Ficou milionário ao construir seminários e palestras sobre motivação e flexibilidade para empreendedores.

Quer possamos dar o nome de transcendência ou de significado para alguns conjuntos de experiências em nossas vidas, se em alguns momentos parecemos estar navegando sem rumo ou sem saber mesmo como, é possível, a partir de uma perspectiva mais ampla, numa dimensão de tempo maior, identificarmos algumas qualidades ou habilidades que possam ter extremo valor neste novo modelo de mundo que vem sendo construído – mesmo que ninguém ainda tenha se dado conta.

Dizem que se não sabemos para onde queremos ir, então, qualquer caminho serve!

Essa assertiva nos induz a uma profunda reflexão relacionada ao discernimento e ao processo de escolha (ou de tomada de decisão, se preferir). Como arquiteto do aprendizado, observo que existem pelo menos duas dimensões dessa questão: a consciente e a inconsciente. Quero falar um pouco sobre minha própria história pessoal.

Durante muito tempo em minha vida, permaneci realizando coisas e empreendimentos cuja relação, semelhança de propósito ou mesmo significado permaneciam completamente obscuros, exceto pelo fato de serem aprendizados que me atraíam: freqüentar diferentes escolas na universidade, praticar e ensinar tênis, praticar e ensinar Tai Chi Chuan, empreender uma pequena confecção, ter inclinação pelo estudo do comportamento e por tradições religiosas comparadas etc. Tudo isso, para mim, mais parecia um conjunto diverso de identidades e interesses sem nenhuma convergência.

Naquela época, realmente tinha a impressão de que minha existência era completamente compartimentada. Em tempos anteriores, tivera fantasias sobre um futuro promissor no qual conquistaria o poder de construir uma vida próspera e criativa, porém, nesses tempos, não tinha referência precisa de qual seria o tipo de profissão que expressaria esses anseios vinte ou trinta anos depois.

Durante essa longa fase em que eu já tinha algumas peças do quebra-cabeça mas não sabia qual seria a paisagem, todas aquelas fantasias e sonhos de adolescente haviam desaparecido de minha consciência e, aparentemente, todas as ações, pensamentos e decisões pareciam apenas fluir conforme a correnteza ou os ventos. Fazia muitas coisas, mas não seria capaz de identificar um rumo aparente: apenas um dia sobrevinha ao outro. Minhas metas sociais, profissionais, familiares, pessoais ou mesmo espirituais ainda não convergiam, e pairava uma profunda dúvida existencial: as realizações profissional, pessoal e espiritual apontavam para rumos completamente divergentes – escolher uma significaria afastar-me das outras.

Nestes últimos anos, nesta nova identidade profissional, tenho tido a oportunidade de conversar com muitas pessoas e observo que esse drama é vivido por muitas delas.

Como exemplo, lembro-me sempre de uma conversa com uma amiga que, sendo bancária, reclamava que não tinha tempo para fazer a atividade física necessária para manter a forma e o peso adequados. Nessa ocasião, empreendi um esforço para oferecer-lhe a percepção de que seu drama dependia bastante de sua habilidade de escolher e de sua hierarquia de significados e valores. Quantos de nós não afirmamos, regularmente, que não temos tempo para fazer aquilo que "queremos"? Então contei-lhe uma experiência que tivera quando, após trabalhar uma determinada manhã das 9h às 12h30 realizando conversas telefônicas, perguntei-me o seguinte: "Quanto tempo levaria para fazer tudo o que fiz nesta manhã se não existisse o telefone ou um meio de comunicação compatível?". Minha própria resposta intuitiva me surpreendeu: "Talvez um ou dois meses!". Percebi então o quanto nossa existência neste final de século nas metrópoles está nos conduzindo a construir em nós mesmos a habilidade de tomar decisões e sintetizar informações, conhecimentos e percepções, progressivamente, com maior velocidade.

Seja por livre iniciativa, seja por necessidade, somos pressionados pela realidade a escolher. Pense bem: se você crê ou sente a presença de algo que possamos chamar de uma divindade ou Deus, algo que contenha, pelo menos, o significado da existência ou algo maior que nos proporcione a experiência de existir – talvez o Universo ou mesmo a

Natureza –, então, talvez, em nossa fantasia, possamos dar-lhe uma identidade ou forma com quem ou com a qual, ocasionalmente, possamos conversar ou nos expressar para agradecer, pedir ou reclamar. Numa dessas "conversas", ao batermos às "portas dos céus", provavelmente você nunca ouviria a pergunta: "Por que você não viveu de uma forma mais parecida com a de fulano?"; nem mesmo: "Por que você não foi mais parecido com ciclano?". Imagino que a pergunta que você escutaria seria a seguinte: "Por que você não é mais parecido com você mesmo?"; ou "Por que você não tem trilhado mais o seu próprio caminho?". Afinal de contas, a própria diversidade foi construída por Ele/Ela!

Conclusão

A existência dos oráculos e formas adivinhatórias na cultura humana pode ter surgido porque não aprendemos a ver através dos fatos, isto é, não é comum que sejamos capazes de abstrair os sentidos das experiências de vida e localizar os padrões de repetição que nos indiquem aquilo que devamos aprender com cada situação. Já conheci astrólogos que sugeriam a seus clientes viagens em datas de aniversário para evitar tendências cósmicas desfavoráveis! Sem absolutamente querer julgar tais orientações, a busca de soluções ocultas para gerenciar a vida material certamente reflete uma grande sede de controle e poder sobre as circunstâncias, que podem ser positivas a partir de uma perspectiva consciente (personalidade) mas que pode, imagino, nos afastar de condições inconscientes de respeito e aceitação.

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