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Perguntas poderosas

© Walther Hermann

Sinopse

Um breve mosaico de questões que possam contribuir para flexibilizar nossa forma de pensar sobre assuntos antigos. Muitas vezes as respostas que desejamos estão debaixo de nossos narizes e não somos capazes de enxerga-las devido a espessa lente de nossos preconceitos ou condicionamentos culturais.

Contexto

Todos admitimos que é importante mudar para vivermos melhor num mundo em mudanças aceleradas, mas como mudar? Poucas são os métodos e respostas convincentes para que conquistemos tal flexibilidade. Entretanto, um dos mais antigos e, eu diria, já automáticos na mente humana, é a habilidade de formular perguntas.

Entretanto algumas formas de perguntar podem obter respostas um tanto vagas e outras maneiras serão talvez respondidas com outras perguntas; um hábito interessante pode ser colocar em dúvida algumas de nossas certezas que não nos garantem bons sentimentos.

Artigo

Como estudante e estudioso de processos de aprendizagem, uma das afirmações que mais ouço é que as pessoas, quanto mais velhas, menos aprendem. Contrariamente, minhas experiências pessoais indicam que a cada dia que passa aprendo melhor e mais rápido. Essa contradição poderia preencher páginas e páginas de tratados. Estou convicto de que, quanto mais velho, mais e melhor aprenderei... Seria essa uma realidade compartilhada por uma parcela de todos os seres humanos? Não somente. Essa é uma possibilidade para todos os seres humanos. Ou, ainda, talvez seja apenas uma mentira muito útil!

Aprendemos, em nossa educação, que mentir é errado. Porém tivemos, em geral, muitos exemplos práticos contrários de algumas pessoas que nos educaram. Caso típico: o pai diz ao filho que mentir é errado. Toca o telefone, o garoto atende e é orientado para afirmar que o pai não está em casa (aí começam as confusões construídas por aquele célebre dito popular: "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço").

Apesar dessas contradições, plantadas nas nossas memórias, podemos aprender a lidar com elas de forma mais construtiva e útil para nós mesmos, mesmo nos percebendo como um depósito de contradições. Aqui apresento um primeiro artifício: aquilo que chamo de perguntas poderosas. Essa qualidade de questões tem por objetivo abrir janelas de percepção que por alguma razão, não importa qual, ou em algum lugar, não importa onde, foram fechadas.

Durante um seminário, propus aos participantes que expressassem algumas idéias e percepções depois de se imaginarem como um cinzeiro. Isso mesmo, se você fosse um cinzeiro... Um dia, uma participante, espantada ao final da brincadeira, comentou que sua linguagem, durante a realização do exercício, tornara-se inusitadamente clara, objetiva e direta – nunca isso tinha acontecido! Por que o espanto? Ela era jornalista! Imaginem, propus a ela que, nas próximas ocasiões de sua vida, quando fosse útil ou necessário um discurso mais objetivo, ela se imaginasse novamente um cinzeiro! Esse recurso estava dentro dela mesma, porém, talvez não estivesse disponível para seu uso por causa, talvez, de limites aprendidos e da identidade que ela havia construído para si própria.

Essa vivência encerra um conhecimento muito importante e profundo. Quanto mais velhos, acredito, mais rápido e mais fácil aprendemos. O problema é que, de acordo com nossas referências, a maior parte do que aprendemos são limites. Dizem que, até os sete anos de idade, uma criança escuta cem mil vezes a palavra "não". São aproximadamente nove "nãos" para cada "sim". Tenho uma amiga que diz que é ótima para resolver problemas (talvez seu grande auto-reconhecimento, auto-estima e identidade estejam relacionados a essa habilidade), e que acredita, além disso, que as pessoas somente dão valor às coisas difíceis de serem conquistadas. Adivinhe que tipo de vida ela tem construído para si própria? Adivinhe agora quantos problemas ela tem para serem resolvidos...

Utilizar todas aquelas contradições que aprendemos, mesmo sem querer, depende, muitas vezes, apenas de algumas reorganizações. Quer dizer, utilizá-las a nosso favor.

Utilizar em nosso próprio benefício. Dentro do pensamento sistêmico, existe um modelo a respeito de como está estruturada a experiência humana, desde a mais subjetiva até os resultados explícitos no mundo real, hierarquicamente: identidade, crenças e valores, capacidades, programações e comportamentos.

Como qualquer modelo científico, se alguém me perguntar se isso é verdade, eu nego! Sim, essa é uma das características dos modelos científicos: são verdadeiros?

NÃO. Porém, tudo se passa como se assim fosse! Dizia um mestre acadêmico: "Esses modelos estão certos? NÃO. Mas são aproximações muito úteis!" É evidente que a discriminação entre o certo e o errado depende muito do contexto. Provavelmente você já concluiu isso ao observar o mundo ao seu redor e o comportamento das pessoas, caso contrário, lá vai... Matar é certo ou errado? Quantas e quantas vezes e quão duramente fomos condicionados a dizer que é errado? Ligue a televisão e você verá quantos personagens são mortos ou assassinados por hora! Mesmo as próprias instituições religiosas, que portam um grande estandarte contra a pena de morte, pergunte-lhes quantos foram os mortos nas Cruzadas ou na "Santa" Inquisição. Assassinatos em nome da religião! Observem quantos e quantos seres humanos são sacrificados diariamente em guerras santas!

Neste ponto, gostaria de redefinir o bipolo CERTO x ERRADO como algo que depende da utilidade e do momento histórico, cultural e social. Gosto muito de filosofia, religião, ética e estética. Mas estamos agora falando de "uma ética outra", somente para efeito de exercício. Pense em quão relativas são essas questões. Gostaria também de ressignificar o que é verdade e mentira como algo que depende da utilidade e importância que passamos a lhes conferir: quantas verdades não são extremamente limitantes?

Quero oferecer dois exemplos da área de saúde. Você já ouviu falar ou viveu algum milagre? Pergunto: quantos e quantos seres humanos ficaram confinados definitivamente em cadeiras de rodas ou camas por acreditar que tecidos nervosos não se regeneravam (verdade da época). Recentemente, vi um documentário abordando a cura de vários casos de úlcera com o uso de coquetéis que incluíam antibióticos! Sim, descobriram existir uma bactéria causadora de gastrites e úlceras que vivia em ambientes tão ácidos como os nossos estômagos.

Considerando, então, que aquilo que é acreditado como verdade pode ser uma mentira num momento posterior, por que não escolhermos, nós, as nossas próprias mentiras? Quero agora apresentar uma nova classe de estruturas: as Mentiras Muito Úteis! Muito prazer... Bem-vindas. Henry Ford afirmava que se você pensasse poder realizar algo ou se você pensasse não poder, em ambos os casos você estaria certo!

Você provavelmente criaria a realidade e suas percepções de acordo com suas próprias crenças.

Curiosamente, para cada crença de limite que você possua em sua consciência, pode existir uma contrária (de possibilidade) em sua não consciência! AAAHHHH! Como eu posso usar isso a meu favor?

Aprender e adquirir novos conhecimentos são processos, de fato, cada vez mais rápidos, desde que você não aprenda limites e barreiras (infelizmente, esses também são muito fáceis de aprender). O primeiro passo para usar isso a nosso favor é começar a escolher aquilo que queremos aprender. Sejam verdades ou mentiras úteis, devem, muitas vezes, indicar possibilidades. Toda vez que ocorrerem pensamentos do tipo: "Isso não é possível...", "Ah, isso eu não posso...", formule a seguinte pergunta para você mesmo: "E se fosse possível?", "E se eu pudesse?", "Como seria se...?".

Se agora eu perguntasse a você a respeito daquele cinzeiro: "O que é isso?" (!!!!).

Tome um cinzeiro à mão e, por mais incrível que possa parecer, responda. Ainda com o objeto à mão, farei agora outra pergunta: "O que pode ser isso?"; ou "O que poderia ser isso?". Perceba o que ocorre dentro de você. Perceba a janela que se abre em sua consciência quando você persegue possibilidades! Espero que você também tenha se surpreendido.

Muitas e muitas respostas estão dentro de nós mesmos. É provável que você já tenha percebido isso, depois de todas aquelas vezes que você deu uma resposta e em seguida caiu em si se perguntando: "Como eu sabia disso?", "Nem imagino de onde eu retirei essa resposta!" etc. Existem inúmeras respostas, percepções, estratégias, recursos e habilidades nem imaginadas que habitam dentro de nós, somente à espera de serem recrutadas. Existe um exemplo simples: enquanto você lê estas linhas, seu sistemas, pode estar lhe oferecendo uma série de outras informações que assaltam seus pensamentos. Ou talvez seja simplesmente a sensação de conforto ou desconforto de sua postura corporal. De fato, você pode ignorá-la ou aceitá-la como uma mensagem. E tomar uma decisão que leve essas percepções e conhecimentos em consideração ou não, adequando sua postura. Independentemente de suas ações incorporarem essas percepções ou não, elas certamente estão à sua disposição, oferecidas pelo seu próprio ser. Talvez seja tão fácil e rápido aprender, por já conhecermos aquilo que nos dispomos ou não a aprender. Finalmente, qualquer um pode aprender menos e mais devagar se quiser. O importante é saber que isso é somente uma opção, seja uma verdade ou uma mentira útil.

Conclusão

Muitas vezes uma pergunta pode valer mais do que uma resposta… Na história da ciência essa é certamente uma afirmação de valor, pois as áreas científicas de maior desenvolvimento são aquelas para cujas perguntas ainda não existiam respostas satisfatórias. Assim sendo, esse artigo tinha como finalidade despertar-nos para a importância das dúvidas e das perguntas que possam abrir possibilidades de respostas além dos condicionamentos culturais que nos ensinaram que só existe uma resposta certa para cada pergunta.

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