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Artigos IDPH

 

PNL, criatividade e espírito empreendedor

© Walther Hermann

Sinopse

Escrito em 1996, esse artigo é um breve relato de algumas descobertas contemporâneas ao aprendizado da Programação Neurolingüística e a habilidade de expressar idéias através da linguagem escrita, isto é, escrever. Fala sobre o amadurecimento do pequeno empreendedor e suas necessidades de compartilhar suas dúvidas, experiências, sucessos e insucessos.

Contexto

Para quase todos os problemas que enfrentamos em nossas vidas, nos é dada a escolha de atribuirmos a responsabilidade a nós mesmos ou aos outros. Se escolhermos a primeira alternativa, assumindo as conseqüências de nossos atos, adquirimos o poder de agir sobre o mundo... Mas se escolhermos acreditar que somos vítimas das circunstâncias, só nos resta viver as turbulências de um barco sem rumo.

Artigo

Recentemente, li em uma revista uma história simples e interessante: "Um porco pode despertar idéias completamente diferentes conforme o observador. Se for um lobo, talvez comece a salivar; se for um fazendeiro, talvez associe à idéia de valor; se for uma criança, talvez lembre os três porquinhos; se for um veterinário, talvez pense na saúde do animal".

Enquanto consultor em educação e tecnologias de aprendizagem contemporâneas, falar sobre o assunto do empreendedorismo me estimula a considerar idéias relacionadas ao desenvolvimento do espírito empreendedor: a iniciativa, a motivação e a coragem. As capacidades e habilidades técnicas também são muito significativas, porém, lembro-me de uma pesquisa apresentada pela MSI (empresa contratada pela ONU para elaborar programas de desenvolvimento e formação empreendedora e criadora do programa

Empretec): um empreendedor obtém sucesso, na média, no seu terceiro empreendimento. Até lá, seja por inexperiência, seja por qualquer outra razão imaginável, suas iniciativas servem principalmente como forja e têmpera para adquirir as qualidades necessárias para enfrentar a realidade e obter sucesso.

Um dos principais focos de meu interesse é contribuir para que as pessoas manifestem algo que gosto de chamar CREATIVIDADE. Existem muitas práticas e técnicas de desenvolvimento da habilidade de gerar idéias, "pensar" diferente (processo muitas vezes denominado desenvolvimento da criatividade). Entretanto, o que mais me interessa é a creatividade: é quando a criatividade (idéias) vem contaminada com uma grande motivação para a realização. Após viver essa experiência algumas vezes, hoje compreendo a diferença existente entre criatividade e creatividade.

Participo ativamente de uma associação de empreendedores, a Associação dos

Empreendedores de São Paulo, e tenho como interesse, principalmente, a formação de novos empreendedores. Como educadores, iniciamos um projeto que tem por objetivo elaborar um novo currículo educativo, que estimule a manifestação daquelas potencialidades humanas que concorrem para o desenvolvimento da livre iniciativa.

Nosso sonho é que haja no Brasil pelo menos uma empresa para cada dez trabalhadores (esse número vem dos Estados Unidos: um país de índole empreendedora com vocação tecnológica). Naturalmente, em nosso atual estágio de desenvolvimento, nossa vocação ainda não é tecnológica, porém, essa meta de desenvolvimento talvez gere riqueza suficiente para nossa transição futura.

Ao participar da formatação desse novo currículo, esbarramos numa questão muito séria a respeito da mudança cultural de nosso país. Nós, micro, pequeno e médio empresários, queríamos criar algo para formar nossos jovens! Eles, porém, não acreditam em muitas de nossas premissas. A diferença de cultura é evidente (talvez isso seja o germe da formação da Geração X – fenômeno cultural americano em que jovens de extremo talento e familiaridade com a alta tecnologia escolhem sub-profissões para sobreviver e manter seus hobbies, tais como desvendar senhas secretas de infovias, criar softwares ou vírus de computadores etc.). Enquanto nós vivemos o paradigma do ter de fazer coisas, eles vivem o paradigma do gostar de fazer coisas. Muito simples, faça uma brincadeira: lembre-se das coisas que você tem de fazer. Lembre-se delas como se as estivesse fazendo na sua imaginação. Enquanto isso, perceba como você se sente, quais são suas sensações. Agora, experimente perceber como se sente ao pensar e lembrar as coisas de que você gosta de fazer. Diferente, não? Pois é, as motivações e interesses desses jovens pouco têm a ver com os nossos, pretensos competentes educadores.

Nossos paradigmas acabam por nos limitar e afastar de nossos resultados. Eles vivem uma época onde o PRESENTE é conseqüência do FUTURO, e não do passado, como nós aprendemos. Lembre-se de grandes fenômenos de crescimento e CREAÇÃO e, provavelmente, você identificará que os pressupostos deste ou daquele empreendedor eram diferentes dos usuais e aprendidos nas escolas. No mínimo, nossa cultura empresarial foi, durante muito tempo, orientada para a solução de problemas, e não para a identificação de possibilidades.

Hoje tenho dois sócios que no início foram meus colaboradores em um de meus empreendimentos (uma academia de tênis). Ao conversar com eles para preparar este ensaio, pude relembrar etapas do nosso desenvolvimento enquanto empreendedores.

Eles comentaram que as mais significativas transformações interiores ao assumirem a responsabilidade de se tornar sócios foram: 1) a jornada de trabalho aumentou para 24 horas por dia (o tempo todo suas motivações e intenções voltaram-se para resultados em seu empreendimento); 2) passaram a assumir as responsabilidades pelos insucessos independentemente da conjuntura econômica (acredito que essa seja a principal "janela" na consciência que permite identificar novas possibilidades e "crear" alternativas; afinal de contas, em TODOS os setores da economia existem empresas muito bem-sucedidas – e a isso, não posso chamar de sorte); 3) suas percepções mudaram de perspectiva – como na história inicial do porco –, e eles passaram a pensar e planejar em três dimensões de tempo diferentes: curto, médio e longo prazos.

Ao assumirem a empresa, as condições de sobrevivência do pequeno negócio não eram muito animadoras (independentemente do tamanho do negócio, temos visto uma grande mortalidade empresarial). Porém, há algo mais que faz parte da atitude empreendedora: uma certa "fé no próprio taco" além da obsessão pelo resultado e o sucesso do negócio. Eu, pessoalmente, sou considerado um fanático e obsessivo pela melhora permanente (KAIZEN).

Acima de tudo, acredito que as decisões de meus sócios estejam relacionadas a entendimentos da vida, dos papéis e dos significados de ser empreendedor, que transcendem a natureza do negócio e tangenciam as bases da necessidade de crescimento humano: eles entenderam que após ter interpretado determinados papéis, existiam outras possibilidades de perceber a realidade e interagir com ela. Gosto muito de pensar assim. Nessa medida, o significado do empreendedorismo se contextualiza em um plano de identidade, e até de espiritualidade. Os compromissos assumidos com os ideais, significados, objetivos e metas alteram comportamentos, relacionamentos e a própria vida numa dimensão geral.

Há alguns anos, tinha a convicção de que a chamada crise econômica pela qual temos passado ia acabar por exaustão, por cansaço e descredibilidade – penso que o empreendedor tem um papel significativo nesse processo ao acreditar que ainda é possível, apesar de tudo e do custo elevado, manter o compromisso de gerar empregos e crescimento.

Durante os piores momentos da crise, velha conhecida de nós brasileiros, acreditei que eu estivesse na hora e no lugar errado para o meu temperamento e educação.

Surpreendi-me quando minhas idéias mudaram e descobri que muitas pessoas viviam as mesmas situações e acreditavam nas mesmas coisas a respeito do que é ser empreendedor. Mais que isso, percebi que todo esse processo foi uma grande escola e que era a preparação para os resultados que colho e colherei nos dias de hoje.

Apesar de não tê-lo conhecido pessoalmente, quero encerrar este ensaio com uma história a respeito de um dos maiores cientistas do comportamento humano, Dr. Milton

Erickson, M.D. (falecido em 1980). Além de ter passado sua jovem maturidade numa cadeira de rodas, ser portador de daltonismo e de dislexia (um conhecido distúrbio de aprendizagem), era muito grato ao seu inconsciente ("coração") por ter-lhe sonegado por muitos anos a percepção de que o dicionário era escrito e ordenado alfabeticamente. Isso inicialmente lhe custou alguns anos de pesquisa integral do dicionário para encontrar apenas uma palavra. Sua sabedoria e sua confiança em seu próprio coração fez com que agradecesse a esse aparente problema. Entretanto, ele atribuía a sua grande genialidade como terapeuta ao fato de conhecer com grande precisão o significado de cada palavra da língua inglesa. Quantas vezes, em cada um de nós, passamos a entender problemas passados como responsáveis por habilidades desenvolvidas e aprendizados indispensáveis aos nossos sucessos presentes ou futuros?

Um dia, eu mesmo fui uma "estrela do mar" salva e atirada ao mar para sobreviver ao sol após a baixa da maré. Essa metáfora finaliza um vídeo de treinamento empresarial criado por Joel Barker, e diz respeito ao fato de que, se todos fizerem a sua parte, teremos um mundo muito melhor para se viver no futuro. Hoje tenho orgulho de fazer a minha parte nessa história e de contribuir para que mais "estrelas se salvem".

Conclusão

Encontrar a tribo a qual pertencemos pode ser uma descoberta muito comovente, especialmente quando nos sentimos como um peixe fora da água. Entretanto, esse encontro com nossos semelhantes pode demorar o tempo necessário para que, através da procura, tentativas e erros, percorramos muitas experiências, encontros e desencontros com diferentes pessoas, trabalhos, etc. Infelizmente não há solução ou atalho, e se a sede for suficiente, estamos condenados a nos encontrar com os nossos idéias e semelhantes!

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