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Saber aprender: Uma visão panorâmica

© Walther Hermann

Sinopse

Algumas reflexões sobre as necessidades de um modelo educacional mais adequado à velocidade de transformações do mundo atual, no qual o que aprendemos hoje provavelmente será descartado amanhã. Esse desprendimento para com o conhecimento nos deixará muito mais livres para aprendermos e desaprendermos o que é significativo.

Contexto

Se aquilo que somos não é necessariamente aquilo que aprendemos, então essa instabilidade do conhecimento será muito proveitosa para que o ser humano possa encontrar a si mesmo. Tal experiência pode ser bastante evidente quando viajamos a outros países ou moramos no exterior; observamos que várias formas de ser não são inerentes ao ser humano, mas sim à sua cultura. Cada uma dessas diferenças nos aponta para condicionamentos aos quais estamos sujeitos e que, muitas vezes, nos ofuscam a percepção de quem somos.

Artigo

Saber aprender parece ser uma das mais interessantes habilidades que alguns jovens de hoje possuem. Conseguem distinguir informações importantes e significativas daquelas que são mero ruído. De um modo geral, prestam atenção, apreendem e finalmente entendem nossa realidade com muito menos esforço e bastante mais comodidade.

Para aqueles que ainda se desesperam com a quantidade de conhecimento que se multiplica dia a dia, e tentam acumular conhecimento como recurso para enfrentar as novas cabeças, resta decodificar a estrutura deste novo paradigma do conhecimento, ou seja, aprender a aprender. Além disso, existe uma crença popular de que os seres humanos perdem capacidade de aprendizado com o passar dos anos. "Os seres humanos aprendem cada vez mais fácil e rápido, exceto quando, com a mesma facilidade, aprenderam demasiados limites e barreiras!".

Em nosso mundo, a quantidade de informações disponível e oferecida aos nossos sentidos diariamente torna-se, em muitas ocasiões, intoxicante e, até, limitante.

As habilidades de fazerem-se distinções, de escolher e de decidir o que pode ser útil em cada situação – "separar o joio do trigo" – talvez venham a ser das mais significativas neste século.

Aprender a aprender, portanto, diz respeito a cada um de nós sermos capazes de identificar de que forma funcionamos melhor. Também diz respeito a desenvolvermos o potencial disponível ao lado de nossa mente consciente como um processo de integração e ativação de percepções e sensibilidades superiores que possam contribuir nesse processo de escolha e discernimento.

Expressar e manifestar mais integralmente o poder criativo que reside em nosso interior faz parte, provavelmente, dos anseios mais profundos da essência de cada um.

Perceba, um ser humano com boa saúde não dorme indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, abre os olhos e toma uma nova e mais intensa respiração, como se isso transcendesse sua própria vontade.

Essas proposições relacionam-se com a atitude de responsabilizar-se pela escolha do melhor destino, trilhar os melhores caminhos e apreender de maneira mais profunda as experiências da vida. Mesmo que de forma não consciente, isto é, em última instância, como cada um de nós escolhe o que perceber ou prestar atenção? Afinal de contas, quer nosso coração escolha ou não as experiências a serem vividas (dizem que 99% da existência humana não é consciente), o próprio mundo se encarrega de nos indicar a realidade, como se fosse um oráculo.

Aprender a aprender também inclui a abertura de janelas de percepção para outras dimensões da existência; seja desenvolvendo apenas a acuidade sensorial, a sensibilidade e a percepção, ou mesmo ativando a curiosidade, a excitação e a motivação para abordar as velhas experiências de uma forma inteiramente nova e surpreendente.

Até o ponto de descobrir-se o inusitado, mesmo num universo que acreditamos conhecido. Desses pontos partiam as propostas de revoluções científicas. Já parou para pensar como sua respiração acontece espontânea e naturalmente? Fantástico, não?

De um modo geral, a habilidade de gerar aprendizagens eficazes de outras pessoas ("ensinar") também depende do hábito de aprender de uma forma organizada. Pensemos um pouco como nós mesmos aprendemos. Geralmente, ao entrarmos em contato com algo novo, utilizamos duas estratégias básicas: comparamos com aquilo que já conhecemos (abordagem estrutural) e encaixamos o conteúdo em algum arquivo (entenda-se memória) correspondente, e/ou tentamos simplificar o novo conteúdo (abordagem redutora) até que ele caiba em alguma comparação ou arquivo. Esses processos referem-se à captura conceitual de algum conhecimento do mundo externo real. Esse método também possui uma contradição intrínseca: se a novidade não corresponder a nenhum padrão conhecido após a manipulação estruturalista e reducionista, geralmente será desprezada ou distorcida.

Assim, do ponto de vista do educador, esse aprendizado mais cognitivo poderá ser gerado deliberadamente com mais facilidade se resgatarmos no aprendiz suas referências e conhecimentos anteriores, para que possamos apresentar-lhe o novo de maneira que se adapte naturalmente a seu modelo ou concepção do mundo (realidade).

Essa talvez seja uma das mais importantes habilidades do professor (isso também se relaciona com a metodologia chamada Construtivismo).

Não obstante, o processo comparativo ou mesmo as distorções são muito úteis na geração de idéias novas (Pensamento Lateral). A tradução de uma experiência em representações isomórficas (metáforas), de outra realidade (cenário), permite que identifiquemos detalhes de um universo que, muitas vezes, se repetem no ambiente inicial, porém, até então não percebidos ou identificados. Esse é um dos princípios das moralidades contidas nos contos e nas histórias infantis. Esse também é o princípio que dá vida aos modelos científicos: todas aquelas representações matemáticas dos cientistas nada mais são do que metáforas da realidade, e não a realidade em si.

Há ainda um outro tipo de aprendizagem, mais natural, primitivo e essencial. Antes de identificar os nomes, qualquer criança pequena apreende o mundo ao seu redor e intervém nele de uma forma aparentemente caótica. Não obstante, extremamente ordenada! Esse tipo de aprendizado, baseado especialmente na percepção, parece muito mais profundo, talvez até já codificado em seus genes. O indivíduo passa, depois, aproximadamente vinte anos sendo "educado" para tentar explicar cognitivamente aquilo que já sabe ou aprendeu da experimentação logo nos primeiros anos de vida ou mesmo nas primeiras eras de vida da espécie humana (infelizmente, nessa "educação", na maioria das vezes ele deixa de utilizar a sua intuição, percepção e capacidade de experimentar, tentar e testar para habitar uma dimensão essencialmente cultural e social daquilo que é aceito). "A Ontogenia segue a Filogenia": o caminho de desenvolvimento psicológico do indivíduo repete, numa escala de tempo compatível, o caminho da evolução trilhado pela espécie humana (assim como o desenvolvimento fetal humano reproduz uma parte do processo da evolução biológica da espécie, também em escala de tempo compatível; existem etapas nas quais o feto humano pouco se diferencia, em sua forma aparente, de fetos de outras espécies de animais).

Usando-se alguns dados de pesquisas sobre como involui a criatividade nas pessoas (dos três ou quatro anos até os vinte e cinco anos, a habilidade criativa decresce do grau de genialidade para o padrão mediano cultural), também convivemos com outras forças, tais como a "inércia social". Esse é um fenômeno de grupo que tenta brecar ou desacelerar qualquer inovação ou mudança repentina de valores, crenças ou comportamentos estabelecidos (note que essa metáfora provém do campo da Física

Clássica e diz respeito à tendência dos corpos físicos resistirem a mudanças nos seus estados de movimento).

De acordo com algumas idéias correntes, que dizem provir do modelo de C. G. Jung (digo isso por ainda não ter estudado pessoalmente o trabalho desse grande cientista), o ser humano possui uma estrutura estratificada que, simplificadamente, poderia ser apresentada como mente consciente, mente inconsciente individual e mente inconsciente coletiva. Pergunto-me quão inconscientes são essas mentes. Qualquer pessoa que tenha a oportunidade de viajar a países de culturas diferentes pode perceber a diferença na "atmosfera" cultural de comportamento e valores mesmo sem pensar ou realizar uma análise: basta sentir ou entrar em contato com suas percepções subjetivas nesse local.

Mesmo não prestando atenção, também experimentará novos e diferentes pensamentos e sentimentos assaltando sua consciência.

Essas e outras percepções fazem parte de diferentes dimensões da aprendizagem, que incluem impressões subjetivas, intuições, idéias que invadem nossa consciência sem que nunca tenham sido elaboradas através do pensamento, ou mesmo respostas que oferecemos aos outros e nos surpreendemos: como sabíamos disso?

Curiosamente, como nossa cultura racionalista renegou essas dimensões do conhecimento e janelas de percepção por muito tempo, fomos ensinados a ignorá-las, ao longo de nosso processo "educativo". Não obstante, elas podem ser ativadas através de um processo que aqui chamamos de re-aprender a aprender. Repito: ativar e reaprender, pois fazem parte de nosso instrumental, assim como braços, pernas, olhos etc.

As identidades de muitos de nós foram construídas e constituídas por critérios, crenças e valores pertencentes a modelos de vida e comportamento próprios de uma fase do desenvolvimento humano, tanto quanto o barbarismo, a civilização agrícola, a civilização industrial etc. Assim como nosso momento social evolutivo já transcendeu essas etapas, cada um de nós pode reformar e acrescentar novos parâmetros e percepções à sua própria identidade. Por que sermos como nós mesmos se podemos ser melhores? Argumentaria Richard Bandler.

Tenho como cliente um empresário do ramo de educação que dirige uma escola.

Essa instituição atende um público pertencente a um nível sócio-econômico padrão A e B.

Ele compartilhou comigo a preocupação de que os professores dessa sua escola estariam cada vez mais inseguros: cada aluno assiste à televisão, está conectado à Internet e brinca em seu computador multimídia em casa. Viaja regularmente e participa de algumas discussões e decisões em seus lares.

Cada vez mais, esses professores convivem com o fantasma do não saber. Cada um desses alunos pode levantar a mão em aula e desmentir o conteúdo de seus ensinamentos como sendo desatualizados! Nós escutamos muitas "histórias da carochinha" em nossa educação e, muitas vezes, não tínhamos habilidade de argumentar e questionar. Essas novas gerações não aceitam tais fantasias. Suas percepções e seu acesso às informações disponíveis no ambiente são suas referências. Usam os mesmos instrumentos para colocar o sistema em contradição.

Entretanto, o papel do educador não está condenado à morte, e sim a ocupar uma posição muito mais nobre: ensinar a escolher, perceber e sentir; ensinar discernimento, ética e sensibilidade, de modo que as novas gerações possam lidar com a poluição de informações e com conhecimentos inconsistentes. Mas como fazer isso se não aprendemos assim? Aprendendo a aprender.

Conclusão

Nunca a capacidade de aprender e a flexibilidade de se adaptar às mudanças foram tão requisitadas como competências individuais. Em um nível mais complexo, isso também se tornou necessário para organizações e empresas, pois suas sobrevivências hoje dependem da velocidade com que se transformam. Não sabemos ainda, muito bem, no que devemos nos transformar, pois a conjuntura mundial ainda não está estável o suficiente para avaliarmos quais foram os procedimentos de sucesso, mas certamente quem não se transformar não sobrevive. Por isso é tão vital essas reflexões que dão prioridade aos métodos de aprendizagem seja no âmbito individual ou coletivo.

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