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Uma Noite de Chuva

© Guiomar Olympia Simões dos Santos

Belinha,

Estou traumatizada. Fiz todos os esforços possíveis para comparecer ao seu Encontro Informal. Lá com meu maninho tava até tudo bem, sem problema. Porém, sexta-feira para mim é um dia cheíssimo e essa última foi ainda mais cheia, ainda mais que eu já havia desprogramado o encontro (já sou doida; ainda tem mais um caminhão de doido prá terminar de me enlouquecer com suas indecisões & imprecisões).

De qualquer forma, labutei com minhas labutâncias em prol do encontro, ando meio triste, se estivesse em casa sozinha não iria, de jeito nenhum, inventar de sair; não estava animada; porém, sabendo, como já sei, que, muitas vezes não estando animada, ao reunir-me a amigos queridos a animação chegou e a deprê foi-se embora, estava decidida a comparecer, pois sabia que este era o remédio que o médico, os santos e os orixás, de comum acordo me receitariam.

Já de noite, quando julguei terminadas minhas enrolações diárias e que estaria a postos para a travessia rumo à sua casa, pintou mais um rolo e fui convocada para ir à Taguatinga. Como tratava-se de entregar algo, e era algo urgente, avisei que estava indo, porém apenas e tão somente para entregar a encomenda, pois de lá retornaria rumo à Octogonal e ao meu compromisso. Tá. Choveu canivetes. Os ônibus desapareceram. Cheguei em Taguatinga já quase 22 horas. Tá, pensei, entrego e volto. Tinha parado de chover.

Ao chegar na porta da casa da minha irmã, começou a chover de novo - e dessa vez não apenas canivetes, mas facas, facões e peixeiras. A rua, como de costume nesses casos, alagou. Quiseram me amarrar lá dentro, pois acharam que eu estava doida (mais) de querer sair daquele jeito. Apelei para um providencial acesso de loucura e ataquei que ia embora, de qualquer jeito, com inundação e tudo e ai de quem ousasse tentar me segurar. Se conformaram.

Fui. Atolei as canelas na rua inundada e enchi o pé (calçado com sandálias - lembre-se que minha bota furou recentemente) de lama e água suja. Nada de ônibus. Depois de muito custo apareceu. Ia para a rodoviária do plano, porém com baldeação pelo SIA, SOF, PARKSHOPPING, RAIO QUE O PARTA e O INFERNO DE DANTE. Tá. Um dia chega.

No SOF, tudo cheio de água também. Montueiras de carros (sexta-feira tem pagode na Telebrasília), tudo atolado e engarrafado. 5 para as 11 ainda estávamos lá. Algumas passageiras, interessadas em chegar na tal telebrasília antes das 11 (até essa hora, pelo que pude entender, mulher entra de graça), tiveram chiliques dentro ônibus, acabando por decidir saltar e ir a pé, com temporal e tudo. O motorista do ônibus professava a opinião, aprendida não sei em que auto-escola e infelizmente compartilhada por outros motoristas presentes no local, que buzina derrete engarrafamento - e tacou a mão na mesma, aumentando minha dor de cabeça (não almocei, por falta de tempo; havia comido um modesto sanduba de queijo, por volta de 17 horas, e nada mais nem menos, nem antes nem depois).

Antes que meus tímpanos estourassem, contudo, conseguimos sair daquela merda. Aportamos na Rodoviária as 11:29. Um frio do cacete. Meu corpo implorava banho e cama. Meu cérebro, porém, teimosíssimo, empacou - vou prá casa da Bel. Lá, esquecerei frio, fome, dor de cabeça, tristeza, etc. Já vim até aqui. Agora, vamos. Consultei o horário do próximo ônibus para Cruzeiro e adjacências (octogonal incluída) - 23:45. Pensei: tudo bem. Esse trem não acaba cedo mesmo; ainda mais que o Primeiro Varão deve ter acabado de chegar, se é que já chegou. Vão gozar da minha cara, mas me receberão assim mesmo de braços abertos.

Esperei o malfadado do ônibus. Foi devagarinho, pois estava chovendo. Cheguei na Octogonal. Estou absolutamente certa que adentrei o bloco B, onde já fui várias vezes. O porteiro me abordou querendo saber aonde eu ia aquela hora (mais de meia noite). Informe: 211. Questionou o horário, se eu não iria acordar todo mundo uma hora daquelas. Argumentei, ainda que meio sem forças, que 1-vocês dormem tarde; 2-tinham visitas noctívagas; 3-até pouco tempo antes eu estaria sendo esperada (a essa altura, de certo, não contavam mais com nenhum aparecimento, a não ser que fosse de algum morcego ou coruja). Não me enxotou; mas ficou me butucando. Constrangidíssima, apertei o interfone. 1 vez, nada. 2 vezes nada. Porteiro me olhando cada vez mais torto; fragilisadíssima (frio, fome, cansaço, molhada, dor de cabeça, e todo um rosário de desgraças que Deus me livre), já estava me acabando de vergonha dele quando prometi "vou tentar só mais uma vez, tá?" e tentei... Nada.

Bel, quase morri de tristeza, mas fui embora. Se eu estivesse de celular, tinha ligado prá você, mas o malfadado foi roubado há alguns meses (meu irmão me deu um velho motorola dele, com a caixa rachada, para que eu mandasse consertar e habilitar, pois sairia mais barato que comprar outro aparelho, mas nem prá isso a minha pobreza deu ainda) - tenho certeza que o bloco era o certo (o B é grande o suficiente para ser enxergado mesmo por minha cegueira; além do que o bloco é estrategicamente colocado, não tem erro). Ou vocês não ouviram o interfone ou o ap não é 211 (idéia que me ocorreu naquela hora, deixando-me ainda mais envergonhada - e se eu tocasse mais uma vez e alguém acordasse NA CASA ERRADA e atendesse o interfone dos meus pesadelos?). Não consegui encontrar outra saída, pelo menos a minha vergonha do porteiro não permitiu tentar mais nada. Não me sinto tão deprê desde a minha ida adolescência, da qual não sinto nem um cadinho de saudades... Nicolato me falou hoje que ficaram lá até por volta de 2 da manhã, logo, meu raciocínio inicial estava certo e eu ainda tinha chances...

Prá mim, essa é uma história tão vergonhenta (chegar na porta e voltar, barrada no baile), que nem tive cara de contar prá ele (ia dizer o que? "eu fui e o porteiro me barrou?" - a mesma nóia que não me permitiu ter um chilique debaixo do bloco e começar a gritar "Bel, eu tou aqui embaixo" [eu tive vontade, viu?] também não me deixou contar prá ele - o mico do ano - procê eu conto)

Enfim, Belinha, não sou de acreditar nessas coisas, mas, naquela hora do porteiro (vou ter pesadelo com esse cara um bom tempo) juro que pensei "não era prá eu vir mesmo, os contratempos estavam dizendo isso..." Olha, até aquele momento, não estava pensando assim - pensava sim, que, como já me aconteceu em outras ocasiões, tudo acabaria bem e após o calvário viria a redenção de adentrar os braços da Belinha e da família HP...

Dessa vez, a redenção falhou - será que não estou orando o suficiente? Sem exagero, nem sacanagem, fiquei numa tristeza todo o sábado que você nem imagina, coisa de criança inconformada porque perdeu um passeio (tudo bem que vão ter outros, etc, dizia o hemisfério racional de meu cérebro; mas eu não estava nem um pouco interessada em ouvi-lo, se dizer que me conformei é mentira, mandei-o, portanto, à merda, e, de conformidade com o hemisfério emocional, infantil & imaturo da minha cachola, passei o resto do tempo triste - ainda não passou).

Só prá encerrar: não tenho costume de não aparecer onde jurei que ia sem avisar; nem de inventar histórias mirabolantes para justificar minhas pisadas - mas, como ontem mesmo me dizia minha irmã, parece que tem coisas que só acontecem comigo... Beijinhos ainda inconformados,

Guigui

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