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De ciúme, amor e nobreza

© Guiomar Olympia Simões dos Santos

Estive refletindo sobre o que parece ser o tema favorito e mais constante das divagacões humanas - o amor - e, em conseqüência dessa reflexão, passei a pensar também no ciúme. Faz parte dos mitos ligados ao amor que o ciúme é uma parte inevitável desse sentimento - e até uma prova de sua existência. "Ciúme - filho do amor" e "Ciúme - prova de amor" são máximas bastante repetidas e decantadas. De minha parte, espírito de porco profissional e adepta da filosofia SPC (Só prá contrariar, corrente filosófica informal que reúne os dissidentes que se afastam dos conceitos mais difundidos e que preferem remar contra a maré), tenho a tendência à achar que esse negócio tá mais pra inseguranca, possessividade ou falta de auto estima.

Numa ocasião, conversando com minha amiga Belinha, ouvi dela a opinião de que ciúmes em demasia seriam capazes de despertar, num parceiro até então fiel, algum interesse pela traicão. Ou seja, o cara é avoado, distraído, puro, sem malícia ou abestado, e nem pensou na possibilidade de olhar maliciosamente ou com interesse para outro/outra que não seja o seu parceiro oficial e habitual - de tanto ouvir falar no assunto, todavia, pode acabar tendo a atencão despertada para isso - e passar a olhar a vida com outros olhos (olhos esses que poderiam comecar a enxergar novas possibilidades, antes insuspeitadas, de parceiros ou parceiras em potencial... olha o perigo...). Achei, de minha parte, o ponto de vista beliano bastante interessante e também viável e provável, o que me levou a lembrar que:

  1. A Bíblia traz conselho sobre o assunto - gravada no Eclesiástico, ficou a advertência, de Jesus, filho de Sirach: "não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti."(Eclesiástico, IX,1).

  2. Nelson Rodrigues compartilhava dessa opinião; desenvolveu-a em uma peca intitulada "PERDOA-ME POR ME TRAÍRES", na qual acontece isso mesmo: sufocada pelos ciúmes do marido, a ex esposa-fiel acaba buscando consolo em outros bracos, virando infiel - bem feito prá ele. A obra teatral foi adaptada para o cinema com o mesmo título. Para esse filme, Chico Buarque de Holanda compôs uma cancão, que considero belíssima, denominada "Mil Perdões":

    Te perdôo
    Por fazeres mil perguntas
    Que me vidas que andam juntas
    Ninguém faz
    Te Perdôo
    Por pedires perdão
    Por me amares demais
    Te perdôo
    Te perdôo por ligares
    Prá todos os lugares de onde eu vim
    Te perdôo
    Por ergueres a mão
    Por bateres em mim
    Te perdôo
    Quando anseio pelo instante de sair
    E rodar, exuberante
    E me perder de ti
    Te perdôo
    Por quereres me ver
    Aprendendo a mentir
    Te perdôo
    Por contares minhas horas
    Nas minhas demoras por aí
    Te perdôo
    Te perdôo porque choras
    Quando eu choro de rir
    Te perdôo por te trair

Todo esse embrólio plantou em minha cabeca a semente da dúvida e fez brotar ali duas perguntas: 1- O ciúme é filho do amor? 2 - Ciúme em excesso pode fazer efeito inverso, ou seja, os zelos do parceiro ciumento podem contribuir para que a inocente cara-metade desperte para as possíveis delícias da traicão?

Com a pulga do questionamento alojada atrás da orelha, mas ciente de minhas limitacões individuais e não me considerando apta a encontrar sózinha a resposta (Quem sou eu para saber a verdade? Aliás, o que é a verdade? ), achei por bem buscar subsídios na voz do povo, e, para esse fim, recorri aos amigos.

Ninguém negou a hipótese de ciúme demasiado acabar estimulando a infidelidade, pois, como foi lembrado, a desconfiança infundada do parceiro geraria, na inocente cara-metade, um stress permanente. E mais: um sentimento de estar sendo injustiçado. O aparecimento de um novo possível parceiro - talvez mais compreensivo e confiante - representaria uma compensacão, consciente ou não.

A paternidade do ciúme, entretanto, não alcançou o mesmo consenso. Sob o argumento de que só se sente ciúme daquilo que atinge, em nossa vida emocional, um status de importância, e raciocinando que o amor é um dos sentimentos capazes de conferir a algo ou alguém essa relevância, muitos concluem que o malfadado sentimento é, sim, filho do amor. Corrente oposta, entretanto, enxergando o amor como uma força positiva e o ciúme como uma energia negativa, revoltam-se ante a idéia de geracão tão espúria. "Como uma coisa que é capaz de minar bons sentimentos, acabar com vidas, destruir auto estima e etc, pode ser filho de um sentimento tão nobre como o amor?" foi uma das questões levantadas.

Misturei as respostas obtidas com minha experiência pessoal, mais uma porcão de observacão e uma pitada de reflexão, chacoalhando tudo no liquidificador mental. Obtive um suco espesso, de sabor híbrido, misto de conclusões e novas dúvidas.

Reconheço que, freqüentemente, existe uma relacão intrínseca entre o amor e o ciúme. Amando, sentimos, naturalmente, necessidade de reciprocidade. A constatacão (ou, às vêzes, a simples idéia) de que o amado possa interessar-se por outra pessoa abala a seguranca de que essa reciprocidade vá permanecer --se o outro realmente conquistá-lo não irá deixar de nos amar? - estabelecendo o temor, e conseqüentemente, o ciúme. Entretanto, constato que mesmo na ausência do amor o ciúme pode se estabelecer, ligado ao medo de ser enganado. Nesse caso, não importa se amamos ou não, se somos amados ou não. O relevante é a quebra de um compromisso implícito de exclusividade, que se supunha vinculado à existência do relacionamento (independente, repito, de haver ou não amor ou mesmo alguma forma de afeto), reforçado pela preocupação com a opinião pública, pois o papel de traído não é desejável ou invejável em nossa cultura.

Por tudo isso, não reconheço o amor como genitor do ciúme, uma vez que sua existência não é pré-requisito essencial para que este sentimento se estabeleca. A única condicão sine-qua-non para o surgimento do ciúme é o medo - que pode ser da perda, da rejeicão, da traicão, da execracão pública, do desamor, etc - donde sigo afirmando que o pai do ciúme é a inseguranca (aliás, nesse caso, mãe).

A afirmacão de que o amor é um sentimento nobre, todavia, voltou a suscitar-me dúvidas. A pretensão de que o amor é um sentimento puro e elevado, de natureza distinta dos demais, capaz de suplantar dores e remover mágoas preexistentes encontra forte apoio em nossa cultura. Na literatura de todas as partes fervilham histórias do Amor Que Tudo Vence, Que Tudo Pode, Que Tudo Atinge, sempre movido pelos ideais mais sinceros e sem mácula.

Envergando esse traje (ou será armadura?) de nobreza, seria incompatível com emocões e atitudes mesquinhas (ciúme, inclusive), que do coracão seriam expulsas com a entrada do Sentimento Maior. Por outro lado, nos casos em que tais pequenezas fossem muito arraigadas, o Amor teria a entrada impedida, pois não seria possível que A Nobreza e A Pequenez coabitassem. "Se foi mesquinho, é porque não ama", já ouvi muita vezes. Ou "se amasse não teria feito isso ou aquilo". Mas... teria o amor realmente essa natureza? Teria realmente todas essas virtudes?

Tenho a tendência a crer, pelo que tenho podido ver e ouvir (também cheirar, e nem sempre é perfume) que o amor é um sentimento dentro de um rol de sentimentos; coexiste com os demais; não os elimina ou inviabiliza. Tampouco é inviabilizado por eles. Os que amam também são fracos, por vezes (e por vezes também são fortes). Também são mesquinhos, tanto quanto são altruístas. Covarde, na mesma medida que podem ser heróicos. Também nem sempre vencem. Nem sempre alcancam. Nem sempre podem. Ou será que os que olhei não amavam, realmente?

Voltei aos meus amigos. Dessa vez, as manifestacões, antes profusas, rarearam. Estranhamente, meus chegados tão dispostos a discutir o ciúme, não demonstraram o mesmo interesse em debater a suposta nobreza do amor. Apenas duas pessoas opinaram efetivamente - ambas mulheres e ambas à favor. O que me intrigou ainda mais. "Quem cala, consente", diz antigo ditado popular. Nunca fui capaz de concordar. Prá mim, quem cala, se omite. E quem se omite, tenta se proteger. Tão arraigado é o conceito de nobreza do amor em nosso contexto cultural ocidental que atingiu o status de dogma - e é preciso muita coragem para se posicionar contra ele. Suspeito que o silêncio de meus companheiros revela a dificuldade de contrariar o conceito vigente num assunto tão delicado. Quem teria coragem de ir contra uma imagem tão endeusada? Quem se atreveria a apartar o Amor de seus supostos predicados inigualáveis? Quem ousaria despir seu manto de invencibilidade? Não seria o mesmo que se revelar insensível ou pouco romântico? Pior: seria o mesmo que se revelar incapaz de amar! Melhor o silêncio.

Também me pareceu sintomático que as opiniões pró-Amor Nobre tenham vindo de mulheres. De uma parte, revela a dificuldade maior dos homens de externar opiniões sobre assuntos emocionais, especialmente os assim chamados "românticos"- falar sobre o ciúme, tudo bem, já sobre o Amor é mais complicado. Se favoráveis a nobreza do Amor, correm o risco de serem criticados pelos companheiros de sexo como excessivamente românticos ou sonhadores - talvez até efeminados; se contrários, arriscam-se à serem condenados a execracão por parte do grupo feminino. Sentados em cima do muro, ao menos ficam protegidos. Em contrapartida, também temos um sintoma de que as mulheres, se realmente tem mais facilidade e até mais gosto em falar de tais temas, que costumam ser seus favoritos, também temos a demonstracão de que, talvez, as mulheres tenham mais tendência a fantasiar e a idealizar o amor, fruto de uma educacão secular voltada para essas fantasias.

Por séculos a mulher foi formada para depositar no amor - e no conseqüente casamento e na maternidade - suas expectativas de felicidade, relegando os outros aspectos a segundo plano, ao contrário do homem que sempre foi levado a colocar seu ideal de vida em si mesmo, o amor como complemento ou parte dele. Para a mulher ele é colocado como o alvo principal. Assim sendo, não poderia ser menos que perfeito. Criamos assim um Amor Ideal e Nobre, acima de todos e capaz de tudo - só o máximo nos satisfaria. Se alguém tenta desfazer esse ideal de perfeicão é condenada a fogueira da execracão pública, como herege, acusada de não acreditar no amor. Julgamos que, acrescentando ao mor essas supremas qualidades o estaríamos fazendo mais perfeito.

E daí vem a minha relutância em aceitar a nobreza do amor: podemos estar fazendo-o mais perfeito, mas não mais real. Sobre a mentira, li certa vez: "Acrescente alguma coisa a verdade e, na realidade, estará subtraindo algo dela". Da mesma forma, penso, ao acrescentar-mos ao amor uma roupagem de perfeicão, forca e nobreza, estamos subtraindo algo dele - a humanidade. E mais, a viabilidade. Jamais conheci um partidário da nobreza do amor que fosse capaz de me apontar um caso fora da ficcão em que o amor tenha efetivamente demonstrado essa habilidade. Os exemplos da nobreza do amor estão todos na literatura, no cinema, nas artes. Todos queriam, obviamente, que o amor fosse assim. Mas será que é mesmo? Ao vestirmos o amor com essa roupa não o estamos condenando a inexistência?

Excetuados os casos patológicos, e, claro, havendo a esperada reciprocidade, o amor é um sentimento rico e prazeroso. Vivenciando uma sensacão emocional agradável naturalmente nos sentimos compensados e menos propensos a concentrar forcas em mágoas e outros sentimentos não tão agradáveis. A vivência do relacionamento amoroso, por sua vez, permite um crescimento pessoal talvez não encontrado em nenhum outro tipo de relacionamento. Elevar tudo isso a condicão de suplantar tudo, entretanto, é um evidente exagero. Amar não nos torna deuses. Nem super-homens. As mágoas e outros sentimentos negativos não são suplantadas pelo amor, embora possamos encontrar no amor forcas para trabalhar pela sua suplantacão, o que é enormemente diferente, já que implica em um árduo trabalho que ainda deverá ser realizado. O que não significa que o amor não existe.

O amor humano, o amor de fora dos livros e das telas, contem imperfeicões; não suplanta todos os demais sentimentos não tão belos quanto ele que habitarem previamente o peito onde adentrará. Não é infinito; não é perfeito; não é nem ao menos nobre. Será por isso menos amor? Será menos real? Creio que não. Pelo contrário. Adélia Prado escreveu um poema sobre o Amor Feinho, um amor "duro de forte", que não necessita ser idealizado para existir. "Amor feinho não tem ilusão O que ele tem é esperanca: Eu quero amor feinho"

Mestre Cazuza dizia que quem não sabe amar "fica esperando alguém que caiba no seu sonho". Idealizamos o amor como perfeito, infinito e nobre. Quando, na prática, ele não se revela nem uma dessas coisas, costumamos nos recusar a aceitar que nossa idealizacão possa estar errada. Preferimos, então, crer que nos enganamos na avaliacão, que aquele não era ainda o Amor que chegava.

Pessoas que se portem dessa forma nunca amam, porque nunca se entregam totalmente ao sentimento, esperando que ele venha nobre, pronto e acabado, que o Próximo Amor seja O Verdadeiro. De minha parte, advogo que Amor Verdadeiro é o que a gente tem todo dia. É o tal Amor Feinho da Adélia. Um amor que "cuida do essencial. O que brilha nos olhos", um amor que "é o que é: /eu sou homem você é mulher" - e assim, plebeiamente, se faz presente e real. Pretender que O Amor tudo pode me parece a mesma coisa que pretender que ele é para sempre - algo utópico. Mais: pretender que só é amor o que tudo pode, é o mesmo que pretender que só é amor o que dura infinitamente - e é, talvez, pretender que o amor não existe.

Minha implicância com a nobreza do amor está em que, para mim, esse papo é idêntico aquele outro de "colocar a mulher num altar". Em cima de um pedestal, seja santo ou nobremente mundano, tudo fica muito distante e inatingível. Romântica incorrigível e inveterada, recuso-me a distanciar dessa forma o amor e faco questão de tê-lo sempre bem pertinho, ainda que envolto em andrajos ao invés de trajes de nobreza. Perdoem-me os partidários da nobreza do amor, mas eu prefiro o meu amor plebeu, eu prefiro o meu amor feinho.

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