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De Semântica e de Dor

© Guiomar Olympia Simões dos Santos

No início desse ano, fui hospitalizada para tratamento de um tumor que, sabe-se lá porque, resolveu aparecer-me. Durante a internação, levei um pequeno susto quando alguém observou, de passagem numa conversa, que eu estaria passando por um "período de sofrimento". Até aquele instante - e, afinal, em nenhum momento depois - não havia pensado em mim como uma pessoa que estaria "sofrendo". Na verdade, não me sentia, como de fato não me sinto, apta a ser enquadrada na categoria dos "sofredores". Tenho câncer. Isso é um fato. A maioria dos aspectos relacionados com essa realidade não é fácil de se lidar. Sem dúvida, não é agradável. Houve um período em que senti intensas dores. Os transtornos práticos são vários. Nada disso, entretanto, receberia, por mim, a denominação "sofrimento". É certo que, no decorrer do tratamento, que promete ser longuíssimo, ainda vá me deparar com obstáculo de transposição mais árdua. Então, pode ser que me sinta "sofrendo". Mas por ora, não.

Foi assim que vi que tudo depende da carga semântica que por nós é emprestada às palavras. Para mim, por exemplo, o verbo "sofrer" é muito, muito forte. Algo que vem eivado de uma profunda significância. "Sofrimento", na minha opinião (confessamente leiga e não - abalizada, mas sempre uma opinião e, para mim a principal, já que é a minha) é uma coisa enorme. A dor, seja física ou moral, para merecer ser assim classificada, tem que ser vultosa, violenta, profunda, até solene. Senão, não merece o adjetivo. "Sofrimento", na minha gramática pessoal, em meu dicionários particular, é superlativo.

E é por isso, acho, que me pego surpresa, de vez em quando - ou sempre? - ao ver as pessoas relatarem situações que considero quase corriqueiras, pura rotina, e acrescentarem "estou sofrendo muito"; "é um sofrimento". E penso: das duas, uma - ou essas pessoas não dão ao vocábulo "sofrimento" tanto importância quanto eu, considerando-o aplicável à qualquer transtorno ou inconveniência pela qual possam passar, ou então, realmente "sofrem", ou seja, sentem dor - profunda, intensa, solene - por qualquer coisa. Prevalecendo essa segunda hipótese, sinceramente me pergunto como será para elas quando surgirem em seus caminhos dores maiores, o real sofrimento. Sofrerão, talvez, em quadriplicata? Ou aprenderão a distinguir entre o que merece e o que não merece ser sofrido? Sim, pois acredito que é uma questão de escolha, de escala de valores, de gradação. É o que emprestamos de importância a um evento que nos faz sofrer - ou não, ou mais ou menos - por ele. Nós é que o revestimos (ou não) com uma capa de profundidade, de significado extremo.

Quando estabelecemos que alguns acontecimentos, afinal, não tem tanta relevância assim para nossa felicidade ou bem-estar, deixamos de sofrer pela sua frustração ou insucesso ou o que seja. O pneu furado, enfim, é menos relevante que o derrame. Se investirmos muita energia em sofrer pelo pneu furado, a meu ver, corremos o risco de não ter forças para agüentar quando realmente precisarmos sofrer pelo derrame.

Assim sendo, o sofrer intensamente por qualquer coisa, indistinta e indiscriminadamente, estaria, penso eu, ligado ao processo de maturidade. Seria, então, a vivência que nos ensinaria a estabelecer entre as dores o tal nível gradação do qual já falei. É, de fato, a vida que nos fornece o diapasão para afinar os sentimentos; o filtro que coará as emoções, distinguindo as pequenas das grandes.

Deixada de canto ficou, todavia, a primeira hipótese - a de que a questão seja puramente semântica. A dor sentida não seria, sabidamente, de profunda intensidade, mas a chamamos - talvez por hábito, talvez por comodidade - de "sofrimento". Porque essa palavra não denomina, para nós, apenas dores intensas, mas aplica-se igualmente á qualquer tipo de dor. O que vem nos trazer que as palavras de nada valem sem o conteúdo. E que somos nós que determinamos esse conteúdo. As palavras são vestes para nossos pensamentos. Sem que lhe confiramos significado, elas são apenas sinais gráficos. Continuamos, pois, no terreno das opções - podemos conferir, ou não, forte significado à palavra "sofrimento".

Resta-me, então concluir que, de qualquer forma, temos a faca e o queijo na mão e a escolha nos pertence. Sofrer ou não sofrer - semanticamente ou na realidade - será sempre uma escolha nossa.

De minha parte, prefiro continuar não sofrendo.

Quem quiser que se habilite. Eu - consciente, filosófica, semanticamente e na real - tô fora.

Continuo preferindo manter o "sofrimento" guardado em minha classe especial de palavras de pouco uso (ou, quem sabe, nenhum), para, se é que virá , alguma ocasião especial. Aos sofredores de plantão, paralelamente ao meu conselho para que mudem de time, deixo meus votos de que, em caso contrario, façam bom proveito de sua opção.

Guiomar Olympia Simões dos Santos, Junho/2000

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