;
Acesso direto ao conteúdo

 

A Perfeita Utopia

© Laila Vanetti

Data de Publicação: 28 de Janeiro de 2013

Quando esclareço que engolir uma gramática não fará de ninguém um exímio redator, as fisionomias dos participantes se transformam.

Numa de minhas pesquisas para compor um novo artigo, uma matéria do caderno Vestibular, veiculado na edição de 23 de dezembro de 2004 no jornal O Estado de São Paulo, me chamou particularmente a atenção. Está lá, na página H7, a seguinte chamada: "Nem os autores acertam questões sobre suas obras". O texto se refere às dificuldades enfrentadas pelos escritores Paulo Lins, autor do romance Cidade de Deus, e Mário Prata, ao resolverem questões de vestibular relacionadas às suas próprias obras. Nem preciso dizer que o desempenho dos autores não foi considerado bom. E aqui se coloca uma pergunta que não quer calar: Por que os escritores não conseguem se dar bem em questões que dizem respeito a seus escritos?

A resposta, por mais inverossímil que possa parecer, não está nos escritores em si, mas no antiquado método de avaliação dos vestibulares. Tais exames, notadamente os que oferecem questões de múltipla escolha, não refletem a maneira mais adequada de avaliar os conhecimentos do aluno no que cerne à literatura, além de reduzir a leitura a uma atividade meramente "decorativa". Explico: em vez de os vestibulandos descobrirem o prazer proporcionado por uma obra literária, ficam presos ao vestibular, à decoreba e a perguntas absurdas sobre o conteúdo apreendido. Mário Prata, na matéria do Estadão, salienta que "o Brasil tem poucos leitores e que, para mudar esse quadro, é fundamental incentivar as pessoas a ler desde a adolescência. Segundo ele, o método adotado pelos vestibulares faz justamente o contrário: só afasta o jovem da literatura". (2004: 07). Diante disso, não é lá muito difícil entender o motivo pelo qual os alunos optam pela leitura de resumos. Ora, se aquilo que ele precisa saber para o vestibular está lá, para que ler o livro inteiro?

A raiz do problema está no fato de se educar tendo como objetivo apenas o vestibular. Se lembrarmos a noção de "obra aberta", do italiano Umberto Eco, o problema se torna mais cabeludo ainda. "(...) toda a obra de arte, mesmo que seja forma acabada e "close", na sua perfeição de organismo exatamente calibrado, é "ouverte" (aberta) pelo menos no que ela pode ser interpretada de diferentes maneiras sem que a sua irredutível singularidade seja alterada. Fruir duma obra de arte passa por dar-lhe uma interpretação, uma execução a fazê-la reviver numa perspectiva original" (Obra Aberta - 1962: 17).

Muito bem: se uma obra é aberta, se há inúmeras possibilidades de interpretação, quais as razões de os exames vestibulares do tipo "múltipla escolha" elegerem uma única possibilidade como sendo a correta? Não seria mais fácil "Deixar o jovem manifestar a sua opinião, fazer a garota escrever no lugar de ficar ticando opções fáticas"? (Mário Prata em sua Carta Aberta ao excelentíssimo Ministro de Estado da Educação Dr. Paulo Renato de Souza. Disponível em http://www.faced.ufba.br/destaques/carta_ao_ministro_2.htm). Pelos rumos da educação brasileira parece que não.

Pois o mesmo raciocino de Prata se aplica ao ensino de Língua Portuguesa em geral. Ao se sentar numa carteira pela primeira vez, o aluno se vê diante de uma infinidade de nomenclaturas que não fazem o menor sentido. Na hora da prova, o professor não quer saber se os estudantes são capazes de se comunicarem com eficiência, muito pelo contrário. O que realmente conta é a capacidade de identificar orações subordinadas, adjuntos adverbiais, complementos nominais e por aí vai. Acontece que o sujeito passa anos na escola estudando isso e quando precisa escrever um texto vem aquele branco, aquele pânico, aquele sentimento de "zero à esquerda" por não conseguir traçar duas ou três linhas minimamente decentes.

Em nossos cursos, no momento em que entro em questões como pontuação e concordância, apresento a estrutura S.V.O (Sujeito, Verbo, Objeto) do Português. Analiso uma frase e digo que, com exceção das estruturas essenciais mencionadas, o resto "não é nada". O auditório delira. E por quê? Porque todos ali têm dificuldades em escrever, apesar de seus 13 ou 15 anos nos bancos da escola. Porque foram por muito tempo torturados pela análise sintática e sentem que acabaram dando com os burros n'água. Quando esclareço que engolir uma gramática não fará de ninguém um exímio redator, as fisionomias dos participantes se transformam. No fim, a maioria relata que não imaginava como se aperfeiçoar em Português poderia ser divertido e, sobretudo, descomplicado.

Os resultados não poderiam ser melhores. Paira no ar um sentimento geral que, dali para frente, basta treinar um olhar "diferente" sobre os textos, ler de maneira crítica e exercitar sua nova técnica de como redigir com objetividade e clareza. Ninguém será cobrado por não saber o que é um aposto, um objeto direto, um verbo intransitivo ou um período composto. Não que esses tópicos não tenham sua importância. É crucial, porém, no mundo corporativo atual, ter uma significativa proficiência comunicativa. Quanto mais, melhor. Conquistar essa proficiência é uma batalha que se trava no dia-a-dia e só sairá inteiro dela quem melhor dominar as estratégias adequadas. E entre essas estratégias, seguramente, não está o ensino de gramática. Aqueles que acham que a melhora de seus conhecimentos no idioma pátrio está diretamente ligado ao estudo exaustivo da gramática normativa comete um crasso equívoco, assim como os exames vestibulares, cujo conteúdo literário é cobrado em questões de múltipla escolha: o de apostar numa língua única, perfeita e praticamente inacessível. Taí o que eu chamo de Perfeita Utopia.

comentários

 

[ Retornar ao Índice ]