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Coleção de Artigos "Nova Educação"

 

Sintonia

Por Walther Hermann

Sinopse

Um apanhado de fatos e sugestões sobre um dos possíveis caminhos para se estabelecer uma relação intrapessoal mais íntima. Não obstante, uma "ferramenta" que pode ainda nos auxiliar a melhorar nossa comunicação interpessoal tanto consciente quanto inconsciente.

Contexto

Embora a Ciência esteja visceralmente comprometida com a busca de conhecimento e o entendimento da realidade objetiva, todos os grandes cientistas admitem que suas 'verdades' são apenas modelos de compreensão em permanente aprimoramento, pois a realidade última admite-se ser intangível! Dessa forma, aplicar o modelo de funcionamento de um rádio à natureza da mente humana pode ser um exercício de imaginação que nos permita revelar uma nova forma de agirmos e obtermos melhores resultados de nossos relacionamentos tanto interpessoal quanto intrapessoal.

Artigo

Sendo os nossos sentidos, as janelas que dispomos para observar o mundo no qual vivemos, assim como lentes coloridas de óculos que nos filtram as verdadeiras cores, temos que nos contentar com essas informações fragmentadas e incontáveis evidências e, finalmente, utilizar a razão e a intuição para deduzir e construir nossa compreensão dos fenômenos.

Assim sendo, as idéias contidas nesse artigo tem a finalidade de estimular a reflexão a respeito de um importante atributo da existência humana senão de toda a Natureza e o universo: o relacionamento. No que diz respeito à interação humana, gostaria de aproveitar algumas daquelas evidências fragmentárias para montar um pequeno modelo da comunicação que nos proporcione mais flexibilidade e autonomia para gerenciar nossos relacionamentos e nossa comunicação.

Para prosseguir nessas considerações, gostaria de justapor à nossa reflexão alguns fatos curiosos. O primeiro deles foi uma experiência realizada com os mais diversos tipos de relógios de pêndulos (tanto gravitacionais quanto elásticos) colocados em uma sala fechada. Originalmente, no início do experimento, não havia a mínima coordenação nos movimentos dos pêndulos, enquanto um ia o outro voltava e ainda outro estava parando e outro em sua velocidade máxima, e assim por diante (pêndulos defasados). Após alguns dias, ao abrirem novamente esta sala no qual foram colocados os relógios, constataram que todos os relógios tinham entrado em fase (sintonia), isto é, os seus pêndulos, todos, tinham adquirido um movimento coordenado (como se movimentassem sincronicamente, cada um no seu diferente percurso) - como se "cantassem" juntos!

Um fenômeno semelhante pode ser observado em relação à sincronização do ciclo menstrual de mulheres que convivem juntas, nos mais diversos contextos: internatos, empresas, famílias, etc.

Um outro experimento interessante, descrito no livro "Memória das Células", foi realizado com células humanas retiradas da mucosa bucal e colocadas em um aparelho sensível ao grau de excitação e atividade celular. Então, propuseram ao doador das células determinadas atividades nas quais experimentasse diferentes estados de excitação emocional ou mental e observaram que suas células, embora não estivessem mais em contato com seu corpo, alteravam o seu nível de atividade de repouso ou excitação sincronicamente com seu doador! Isso foi identificado até uma distância de noventa quilômetros entre doador e suas células ainda vivas!

Ainda no mesmo livro, foi apresentada uma pesquisa científica realizada com pacientes transplantados (receptores de órgãos: coração, pulmões, rins, etc) e revelado que uma parcela de até vinte por cento desses pacientes puderam recuperar lembranças, hábitos e mesmo gostos e desejos de seus doadores!

Embora dificilmente sejamos capazes de observar o movimento do ponteiro das horas de um relógio (quando seu movimento é contínuo e uniforme) devido à sua lentidão, sabemos que ele se movimenta, pois constatamos suas diferentes posições com o passar do tempo. Mesmo que seu movimento não seja explícito como o do ponteiro dos segundos. Nossa visão não foi treinada para perceber isso. Em suma, apesar de não o percebermos, ele acontece!

Algumas culturas indígenas garantem ser a visão humana o mais ilusório dos sentidos físicos: pois é o único sentido que nos dá a impressão que existe espaço vazio entre as coisas e as pessoas, especialmente por ser o ar que nos envolve, transparente para nossa visão, e invisíveis às ondas de calor e as infinitas diferentes freqüências eletromagnéticas que permeiam nosso ambiente, como se estivéssemos dentro de um gigantesco oceano de vibrações eletromagnéticas e gases!

É verdade... Aqui e agora, enquanto você está lendo esse artigo, estão todos os programas de rádio e televisão disponíveis em sua cidade, como fantasmas, compartilhando da sua presença, ao mesmo tempo e no mesmo espaço físico!!!! Com um aparelho adequado você poderá encontrar vários desses fantasmas: um rádio ou uma televisão. Todos eles coexistindo conosco, debaixo de nossos narizes e... Completamente invisíveis aos nossos olhos, inaudíveis, impalpáveis! Quem sabe tanto quanto a água deva ser invisível para os peixes.

Retornando ao universo da experiência humana perceptível, você já observou que algumas pessoas, certas vezes, estando numa discussão acalorada, estão defendendo pontos de vista semelhantes embora estejam discordando? Outras vezes, pessoas totalmente sintonizadas ou envolvidas no entusiasmo de uma conversa, em plena concordância entre si e interagindo com grande respeito e cordialidade, estão falando sobre assuntos completamente conflitantes ou diferentes?

Pois bem, aqui é que o imperceptível ou invisível entra: o que será que acontece além das palavras que condiciona ou interfere tanto em alguns comportamentos humanos? Como uma resposta parcial, isso acontece também porque nós mesmos somos constituídos de "camadas" ou "estações" que, nem sempre, estão em plena e constante harmonia - os chamados conflitos interiores.

Dessa forma, simplificadamente, ao nos comunicarmos, parte de nós (consciente) pode estar em sintonia enquanto outra parte (inconsciente) não, ou vice-versa. Bem, a ciência do "rapport" (habilidade de se sintonizar com outras pessoas) ensina que existem técnicas para conseguirmos essa harmonia ou conexão com outras pessoas: isso nos propicia uma comunicação mais integral (consciente e inconsciente) e muito maior possibilidade de entendimento, tolerância, aceitação e respeito, até mesmo por pontos de vista bastante diferentes ou conflitantes, sem desentendimentos.

Essas técnicas são bastante úteis para aprendermos a nos flexibilizar e nos sintonizar com as outras pessoas. Os procedimentos mais simples e menos precisos sugerem que devemos buscar nos "espelhar" (imitar) os gestos e movimentos de nossos interlocutores. Um pouco mais adiante, treinamos respirar no mesmo ritmo e falar na mesma velocidade de nossos interlocutores, até que sejamos capazes de nos adaptar a diferentes ritmos sem tensão.

Um exemplo simples dessa flexibilidade é observar como uma pessoa do campo em estadia numa grande cidade acha tudo muito rápido e a vida muito frenética. Por sua vez, um habitante das grandes cidades reclama que no campo tudo é muito lento e devagar, pois a intensidade de estimulação é significativamente menor.

Pois bem, para a prática da sintonia ser eficaz e suas ferramentas naturais, devemos primeiramente aprender a alterar nossos próprios ritmos interiores até adquirir a necessária flexibilidade para estabilizarmos (sintonizarmos) aquele ritmo que seja interessante em cada momento: caso contrário experimentaremos aquele conhecido desconforto de nos sentirmos um "peixe fora d'água" em determinados ambientes ou relacionamentos.

Essa habilidade é semelhante àquela de um músico que, além de saber tocar o seu instrumento, deve saber também tocar em conjunto (coordenado e sincronizado) com outros músicos para fazer uma banda ou uma orquestra. Entretanto, aprender a flexibilizar nossos próprios ritmos pode não ser uma tarefa rápida, especialmente quando estamos muito condicionados a viver em determinados universos de freqüências. Especialmente porque nossa mente inconsciente tende a nos manter, como uma memória, naqueles ambientes que mais permanecemos e, algumas vezes, nos mantendo confinados ou aprisionados em determinados estados mentais (ritmos de pensamento, freqüências cerebrais, etc) e emocionais, caso pudéssemos compreender os diversos tipos de pensamentos e sentimentos como sendo programas de rádio coexistentes no tempo e no mesmo espaço, embora em estações (freqüências) diferentes.

A partir de medições realizadas com aparelhos sensíveis as ondas cerebrais, os eletroencefalógrafos, admite-se que as freqüências usuais da consciência estejam entre 12 e 26 ciclos por segundo. Não obstante, se você consultar um eletroencefalograma verá que existem diferentes curvas descrevendo ritmos simultâneos de diferentes partes de nosso crânio. Bem, se estivermos com o aparato visual ativado e sendo estimulado, em geral as freqüências mais intensas estão no intervalo de 20 a 26 cps (ciclos por segundo). Se estivermos atentos a ouvir algum discurso, escutando música ou percebendo sons, as freqüências predominantes estão entre 15 e 20 cps. Se estivermos atentos às nossas sensações, provavelmente estaremos no intervalo de 12 a 16 cps. As freqüências típicas de um relaxamento, devaneando, cochilando ou pré-adormecidos, as famosas ondas cerebrais alfa, estaremos entre 8 e 12 cps. Depois disso vem o sono leve, 4 a 8 cps, e, finalmente, o sono profundo, de 0,5 a 4 cps.

Assim sendo, uma forma de desenvolvermos nossa flexibilidade para sintonizar diferentes ritmos é cultivar esse hábito dentro de nosso próprio corpo, por exemplo, observe o grau de facilidade e o tempo necessário para pensar em algo, uma maçã vermelha... Rápido, não é? Agora tente sentir a sua cabeça até perceber se sente calor ou frio, a pulsação ou a sensação de peso... Leva mais tempo não é? Principalmente se não estiver desconfortável com uma bela dor de cabeça! Experimente sentir agora a textura da meia que esteja usando ou a temperatura de seus pés... Isso mesmo, cultivar sensações corporais diminui a freqüência de nossa mente. Assistir filmes, treinar a visão de um modo geral, aumenta.

Essa maior flexibilidade de alterar nossas freqüências mentais não seve apenas para nos sintonizarmos com nossas dimensões interiores, sensações, percepções corporais, ela é particularmente útil para empreendermos o autoconhecimento ou cultivarmos a inteligência intrapessoal. Ela servirá também para nos sintonizarmos com as pessoas e o mundo exterior. De um modo geral, poderemos então praticar a habilidade de flexibilizar nossos ritmos, no universo objetivo exterior, ao treinarmos nossos diferentes sentidos e a comunicação interpessoal ou, no universo subjetivo interior, ao sintonizarmos a nós mesmos em diferentes locais ou dimensões (simplificadamente é também isso o que pretendem aqueles inúmeros exercícios de relaxamento que começam com a conscientização dos pés em direção à cabeça ou vice-versa). Em qualquer dos casos, estaremos cultivando o potencial de flexibilidade automaticamente para desenvolve-lo no outro.

Para nossas reflexões, escolhi então o caminho interior... Pois talvez possamos aprender algo mais com a experiência além da flexibilidade! Partindo então do cultivo das sensações de diferentes partes de nosso próprio corpo, ou seja, aprendendo a sintonizar ritmos internos, com o passar do tempo, nos permitirá conhecer melhor as nossas próprias sensações, sinais corporais e sentimentos. Quando por fim, dispensando um pouco de nosso tempo com esse relacionamento interior, estivermos mais sensíveis às nossas necessidades e percepções, começaremos a reconhecer quem nós somos, independente daquilo que aprendemos em nossa cultura e educação.

Esse reencontro consigo mesmo, pode então nos revelar novas dimensões de identidade (diferentes formas de ser e de sentir), que muitas pessoas procuram fora de si mesmas durante vidas inteiras e nunca encontram, enquanto buscam sentido para a própria vida - todas essas respostas estão lá, disponíveis, dentro de cada um de nós; sendo que a sintonia com os sentimentos e sensações é um caminho bastante seguro e natural de autoconhecimento. Esse é também um caminho especialmente indicado para aquelas pessoas que buscam viver melhor, mas, insistentemente se deparam com pensamentos ou sentimentos negativos.

Para algumas dessas pessoas, não há pensamento positivo que resolva! Quanto mais se esforçam para pensar positivo, mais crescem em tamanho e quantidade os seus maus pensamentos e sentimentos. Não há nada de errado com essas pessoas... Exceto que os pensamentos e sentimentos negativos aos quais ficam aprisionadas (confinamento em uma determinada "estação" ou 'freqüência'), possuem uma função de alarme, isto é, em geral porque ignoraram a si mesmas, insistentemente, por longos períodos! Simplificadamente, o pensamento positivo é progressivamente menos eficaz com aquelas pessoas (que mais imaginam precisar dele!) que menos se respeitam e mais ignoram os próprios sentimentos e inclinações!

Nossa mente inconsciente é extremamente sábia e inteligente e, tal qual uma criança, flexível e adaptável: quando não consegue chamar a nossa atenção para si por bem, nem obtém o respeito e a atenção que merece, faz escândalo! Para pessoas tão educadas e adestradas assim, que aprenderam a ignorar seus próprios movimentos interiores para satisfazer o ambiente social ou as pessoas de sua convivência ignorando a si mesmas, quanto mais tentam exorcizar os maus pensamentos e sentimentos, substituindo-os por positivos, mais assombrosos e poderosos se tornam os maus! Muitas vezes, principalmente nos dias de hoje, desencadeando sintomas bastante desagradáveis, tais como a Síndrome de Pânico, ou outros ainda mais sérios... Seria também isso que acontece, num organismo maior chamado sociedade do qual somos as células e órgãos, em relação à violência?!!! Bem isso é uma outra história...

Num caso desses de emergência, quando os sintomas já estão incomodando, o primeiro passo não é o "exorcismo", isto é, tentar se livrar daquilo que é aparentemente negativo, e sim se permitir, durante algum tempo, sintonizar com precisão (sentir em profundidade) essa "estação de rádio" (esse sentimento) mesmo que seja um tanto sombria ou sinistra (tenha a coragem de não julgar aquilo que sua própria mente inconsciente insiste em mostrar!). Quanto mais atenção for dedicada a essas informações, percepções ou sentimentos, mais sabiamente é possível resgatar tal dimensão de identidade ignorada.

Por outro lado, e ao mesmo tempo, é importante sabermos que temos em nossas várias "estações" (dimensões ou camadas de nossa identidade, em geral inconscientes), outros tipos de sentimentos e pensamentos coexistentes com os negativos... Resta-nos a pergunta: em qual estação vamos "sintonizar" o nosso "rádio"? Porém, nunca se esqueça de uma atitude fundamental de respeito para com a sua própria organização de tensões interiores, você chegou até aqui graças a ela! Então, assim como um adulto interessado na educação de uma criança, atento e acessível às suas solicitações, quando se dirigir à criança pequena, tem sempre a educação e a cortesia de se abaixar para falar-lhe à mesma altura, de igual para igual.

Conclusão

Se considerarmos que alguns dos mais valiosos tesouros da civilização moderna são o dinheiro, o conhecimento e o relacionamento, imagino que você concordará comigo que é apenas esse último, os relacionamentos, aquele que vivifica os anteriores, pois dinheiro e conhecimento, isoladamente, no deserto, nada valem! Em última instância, relacionamento e habilidade de boa comunicação talvez sejam dois dos mais importantes atributos do sucesso, haja vista ser uma das qualidades mais comuns das grandes personalidades e das grandes mentes da humanidade. Admitindo-se isso, certamente uma das mais importantes competências dos grandes gênios interpessoais e intrapessoais é a habilidade de se sintonizar, aquilo que chamamos de empatia.

Reflexões

Se os alimentos que ingerimos servem para nutrir o nosso corpo físico, então conhecimento e experiências de vida são o que nutrem nossas mentes e nossas almas... Tais entes existem em abundância em nosso mundo, misturados com muito ruído e conteúdos inúteis. Saber selecionar e encontrar o conhecimento exatamente na medida de nossas necessidades dependerá de conhecermos nossos próprios limites e anseios mais profundos: essas respostas estão disponíveis somente quando cultivamos um relacionamento honesto com nossa identidade interior, sendo que a sintonia e a empatia com nossos próprios sentimentos, emoções e sensações é, certamente, um caminho bastante seguro e proveitoso.

Sugestões para leitura

As indicações com asterisco (*) são especialmente importantes se você for uma daquelas pessoas para quem o pensamento positivo não é eficaz

  • (*) Connirae Andreas - "Transformação Essencial" - Summus Editorial - (*) Jay Haley
  • "Terapia Não Convencional" - Summus Editorial - Paul Pearsall
  • "Memória das Células" - Ed. Mercuryo - Tom Chung
  • "Qualidade Começa em Mim" - Ed. Maltese
  • Walther Hermann - "Encontrando o seu Melhor Destino" - Col. Histórias que Libertam - ed. do autor
  • (*) Walther Hermann - "A Força do Dragão I - Superando o Medo" - Col. Histórias que Libertam - ed. do autor
  • Walther Hermann - "Domesticando o Dragão - Aprendizagem Acelerada de Línguas Estrangeiras" - ed. do autor
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