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Coleção de Artigos "Nova Educação"

 

Certo e Errado

Por Rubens Queiroz de Almeida

Durante o meu aprendizado da língua inglesa, eu passei por quatro fases distintas. Na primeira, eu falava errado sem saber que estava errando. Na segunda, eu falava errado, porém, logo após dizer uma frase, sabia onde havia errado. Na terceira fase, comecei a falar de forma correta, mas às vezes não possuía o vocabulário adequado para exprimir minhas idéias e acabava recorrendo a palavras e expressões, que embora não totalmente apropriadas, serviam para transmitir a minha idéia geral. Na quarta e última etapa, finalmente conseguia me expressar de forma correta com as palavras apropriadas.

O ideal é chegar na quarta fase. Mas como chegar na quarta fase? Passando pelas outras três, não tem outro jeito. O que podemos fazer é apressar a passagem pelas três primeiras fases, através de uma maior dedicação aos estudos.

Mais tarde, como professor de inglês, não conseguia entender a obsessão que a maioria dos professores tinham pela exatidão. Corrigiam seus alunos imediatamente, tão logo cometiam um erro. Insistiam com a pronúncia correta à exaustão, repetindo dezenas de vezes a mesma palavra e insistindo com seus pobres alunos até que conseguissem uma pronúncia aceitável.

Esta estratégia, longe de produzir o resultado esperado, de maior fluência e competência no idioma inglês, muitas vezes afastava os alunos da escola. Desistiam do curso muitas vezes, aprendendo que eram incompetentes e incapazes de aprender. Se matricularam na escola para aprender inglês e aprendiam que eram incapazes.

Das quatro fases que citei acima, pelas quais passei em meu aprendizado, os erros foram uma constante em três delas. Mesmo na quarta fase os erros continuam presentes, pois ninguém, nem mesmo os falantes nativos, podem dizer que sabem tudo sobre seus idiomas maternos.

Nas minhas aulas eu adotava uma postura diferente. Se alguém cometia um erro, eu não dava atenção explícita ao fato. Registrava o erro mentalmente, e alguns minutos mais tarde, repetia a mesma frase de forma correta, fazendo a correção de forma subliminar. Não me dirigia ao aluno que cometeu o erro. Tentava situar a frase da maneira mais isenta possível.

Alguns alunos inclusive me censuravam por esta postura, pois queriam ser corrigidos imediatamente. Mal sabiam eles que a correção frequente e a obsessão pela exatidão muitas vezes nos impede de ir à frente. Acaba com a nossa espontaneidade. A maior parte de nosso aprendizado se dá quando estamos felizes, abertos, e a espontaneidade e a descontração são essenciais para que aprendamos melhor. É difícil imaginar qualquer tipo de aprendizado quando somos constantemente lembrados que estamos fazendo algo errado.

Não existe nada errado em estar errado. Errar faz parte do aprendizado.

O outro problema é a pressa. Quando estudamos em um curso tradicional, temos um programa a ser seguido. Os professores recebem instruções detalhadas sobre quanto tempo gastar em cada atividade e tudo o que devem ensinar no semestre. Quem faz estes planos não sabe (ou finge não saber) que em cada sala de aula os professores são diferentes, os alunos são diferentes e a interação entre alunos e professores também são diferentes. Pelo que sei, ninguém ainda provou a relação entre aprendizado e seguir um programa a todo custo.

E o golpe de misericórdia: as provas.

O que exatamente é medido pelas provas? Sinceramente não sei. É possível quantificar o conhecimento através de números? Também não sei. Eu me lembro que fiquei em um exame final por ter tirado a nota 6.99 quando a média para aprovação era 7. Ainda hoje me pergunto, como meu professor conseguiu mensurar um centésimo de conhecimento? Incrível não? Certamente deve ser uma tecnologia alienígena.

A avaliação de qualquer tipo é extremamente nociva. No ensino de adultos em particular, onde cada um tem sua vida em família, seu trabalho e diversas outras preocupações, as provas são um tremendo incômodo. Um adulto, ao entrar em uma escola, quer dominar uma habilidade e pronto. Não quer um diploma a mais. Mesmo porque, para o mercado de trabalho, o que conta é a competência para se desenvolver determinadas tarefas. Ainda existe a cultura do diploma, infelizmente, mas a competência tem sido muito mais valorizada.

Em todos os cursos de inglês que ministrei, sempre exigi que não houvesse avaliação. Afinal de contas, todos somos diferentes. Alguns aprendiam muito rapidamente, por se dedicarem mais ou por terem uma base maior. Outras aprendiam mais devagar, porque assim o queriam. De qualquer forma, não existe nada errado com uma ou outra atitude. Todas são corretas. O que é diferente são os objetivos. Se desejo apenas ler em inglês, para que aprender a falar fluentemente?

Quando procurava emprego como professor de inglês, sempre levava comigo os meus diplomas. Para minha frustração, nunca nenhum dos meus entrevistadores me deixava sequer mostra-los. Conversavam comigo em inglês, me pediam para escrever algumas coisas e pronto. Com o tempo vi que meus diplomas de proficiencia em inglês não valiam nada. Acho que nem sei onde eles estão hoje.

E o tempo. Onde achar tempo?

Quantos projetos deixamos para trás por não conseguirmos, devido à falta de tempo ou outros fatores, concluir rapidamente. Esquecemos que fazendo uso apenas daqueles poucos minutos que temos livres entre uma atividade e outra podemos aprender uma grande quantidade de coisas. Cada intervalo comercial na televisão dura algo entre três e quatro minutos. A sua novela favorita pode lhe dar por volta de quinze minutos. Quinze minutos todos os dias, dedicados ao aprendizado de alguma coisa, no final do ano faz uma grande diferença.

No livro que escrevi chamado "As Palavras Mais Comuns da Língua Inglesa", eu abordo o aprendizado do inglês para leitura. O estudo baseia-se na lista das palavras mais frequentes da língua inglesa. Estudando estas palavras e praticando a leitura, em muito pouco tempo, mesmo dedicando apenas cinco minutos diários ao estudo, o aluno conseguirá obter uma compreensão básica de textos técnicos.

O aprendizado é, paradoxalmente, ao mesmo tempo algo extremamente complexo e simples. Complexo porque ninguém ainda descobriu exatamente a forma como aprendemos e como o nosso cérebro funciona. Simples porque, se deixarmos o aprendizado fluir, como algo normal e espontâneo, sem ansiedades e tensões, conseguimos atingir o nosso potencial pleno. O aprendizado não é algo que requer esforço. Todos nós estamos constatemente em um processo de aprendizado. Ao contrário do que se pensa, o aprendizado, quando ocorre, se dá de forma totalmente transparente e leve.

O nosso cérebro possui uma enorme capacidade de aprender, coisas boas e ruins. Você já tentou deliberadamente se esquecer de algum fato desagradável em sua vida? Certamente é muito difícil. Da mesma forma, se você aprender, sozinho ou com alguém, que é incompetente e estúpido, carregará esta limitação por toda a vida.

Então, ao invés de aprender que é estúpido, burro, incompetente, porque não usa sua capacidade de aprendizado para exatamente o contrário? Aprenda que é inteligente, capaz, que gosta de viver, que gosta do mundo e das pessoas. Não é difícil. Procure viver com pessoas positivas e inteligentes, que lhe ajudem a reforçar o seu potencial. Leia ótimos livros. Você vai ver que realmente dá certo e a sua vida vai adquirir uma nova dimensão.

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