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Coleção de Artigos "Nova Educação"

 

Disciplina

Por Walther Hermann

Sinopse

Uma rápida reflexão que pretende oferecer uma nova compreensão sobre a disciplina e apresentar comportamentos alternativos que lhe substituam ou atenuem as culpas e tensões associadas à constatação de sua falta.

Contexto

Vivemos em uma época na qual as maiores riquezas estão jogadas no meio da rua, disponíveis para quem quiser ou souber encontrá-las: o conhecimento. Nunca o conhecimento esteve tão acessível e ao mesmo tempo tão escondido entre o "lixo" da poluição de informações descartáveis. Pense comigo, as maiores fortunas da atualidade foram construídas sobre o conhecimento: Microsoft, Coca-Cola, etc, são exemplos de conhecimentos valiosíssimos que, porém, poderiam ter sido descobertas de qualquer um!

Bem, também testemunhamos uma grande e generalizada confusão na qual o sentimento de escassez o receio da falta, a violência, entre outros, representam alguns dos fantasmas que nos assombram todos os dias, possuindo trânsito livre em nossas vidas, residências e ambientes de trabalho, graças aos meios de comunicação. Essas condições da vida moderna talvez nos afastem insistentemente de nossos próprios caminhos ao nos proporem destinos coletivos, roupas unissex, soluções padronizadas e massificadas, entre outras características da sociedade de consumo.

Graças a isso, comumente adotamos opiniões e assumimos pontos de vista que não correspondem à nossa percepção, compreensão ou sentimento, mas que refletem nosso condicionamento de buscarmos aceitação e reconhecimento. Esforçarmo-nos por saciar nossa "sede" nos desertos das cidades de concreto. Nesse contexto é que afirmo que acredito existir uma grande confusão em relação a algumas de nossas melhores qualidades! No nosso caso presente, estou falando especialmente da compreensão da disciplina! Existe um certo consenso em admitirmos que a disciplina não pertence às características do povo brasileiro. Aceitamos que o brasileiro é criativo, flexível, afetivo, malandro... Mas costumamos aceitar que não temos disciplina, somos dispersos ou não sabemos o que queremos (vivemos sem planejamento). Talvez seja este o destino deste povo, cuja vocação psicológica, emocional e espiritual ainda não tenha sido verdadeiramente identificada! Entretanto, talvez essas avaliações sobre a disciplina não sejam compatíveis com a realidade, vou propor algumas evidências de exemplos comuns.

Artigo

Uma primeira história, que já citei algumas vezes, pela simplicidade e elegância em ilustrar como o prazer e o amor podem transmutar o sentido da disciplina, servirá para nos oferecer uma nova luz à compreensão dos nossos hábitos, validando talvez, aquilo de que reclamamos. Era o caso de uma mulher, crítica literária de profissão, que em uma reportagem de jornal, afirmava que sua vida tinha começado aos 40 anos de idade! Após uma grande reflexão sobre sua vida, profissão de ler e comentar livros, chegou à simples conclusão que não tinha lido metade dos livros de sua biblioteca naquela ocasião de seu quadragésimo aniversário! No entanto, chegou à conclusão que já tinha vivido aquilo que imaginava ser a metade de sua vida, estimada durar oitenta anos. Isso a forçou tomar uma importante decisão, pois não lhe seria possível ler todos os livros que faltavam no tempo que imaginava ser o restante de sua vida.

Nesse momento estabeleceu um critério para selecionar suas leituras dali em diante: leria apenas o que lhe desse prazer! Se começasse a ler um livro enfadonho ou desagradável, o abandonaria, pois certamente havia muitos outros à sua espera! Assim, concluía sua entrevista, é que começou a viver verdadeiramente, obtendo ainda mais prazer de sua profissão, quando completara 40 anos!

Prosseguindo um pouco mais sobre as decisões, tenho um amigo que parou de fumar num certo feriado em que, tendo acabado todos os seus cigarros, saiu para comprar e não encontrou o comércio aberto! Com o seu desespero crescente, graças à abstinência, voltou para a casa a busca de 'bitucas' de cigarro nos cinzeiros, foi quando pela primeira vez constatou que fora escravizado pelo tabagismo. Essa conclusão visceral foi o suficiente para decidir que nada poderia ter tal controle sobre si mesmo. Na semana seguinte, parou de fumar definitivamente!

Por último, um exemplo bastante próximo: minha esposa! Embora possua uma versatilidade invejável, seja extremamente bem dotada e sábia, costuma dizer que a disciplina só entrou em sua vida graças à mim! Que nunca tivera disciplina e que sua preguiça representa verdadeiramente um grande desafio. E todo aquele "lero-lero" que ouvimos normalmente das pessoas que dizem ser dispersivas ou indisciplinadas!

De fato, eu sou bastante disciplinado, além de auto-didata, as várias competências que possuo foram construídas com muita dedicação, esforço e disciplina. Entretanto, essas qualidades somente se manifestam com aquilo que busco para minha satisfação pessoal! Curiosamente, tudo o que busquei e aprendi por prazer transformou-se em alternativa profissional; assim tornei-me instrutor de tênis, instrutor de Tai Chi, consultor em psicologia do esporte e aprendizagem, comerciante de artigos esportivos, hipnólogo, palestrante, escritor, editor de livros, consultor editorial e terapeuta. Apesar de tudo isso, nunca consegui fazer o que ela fez e faz! Ela afirma que não tem disciplina... No entanto, possui uma carreira extremamente planejada, escova os dentes três vezes por dia, três refeições por dia e, principalmente, reza todos os dias logo que acorda e antes de dormir! TODOS OS DIAS há mais de trinta anos! Isso sim é uma disciplina invejável!

De fato, a questão que eu desejo abordar é que não precisamos disciplina para fazer aquilo que REALMENTE GOSTAMOS ou QUEREMOS! Além disso, se você ainda não se convenceu de que pode ser mais compassivo e compreensivo para consigo mesmo, pense no seguinte: talvez você esteja bem disciplinadamente praticando a indisciplina! Assim sendo, a grande novidade é que: há formas de utilizar essa sua disciplina em outros contextos de vida!

Será que é preciso disciplina para comer, beber água ou dormir? Vou propor uma pequena experiência: nos próximos dias, observe com bastante atenção o que você pensa, imagina ou sente quando está visceralmente disposto a beber água ou comer. Isto é, preste atenção às suas sensações para responder a seguinte pergunta: como você sabe que é hora de beber água, comer ou dormir? Quais são as evidências sensoriais ou subjetivas? Ou, se preferir, pode avaliar: como você sabe que é hora de fazer aquilo que gosta, quer ou deseja?

Nas minhas pesquisas sobre aprendizado, certa vez, decidi me tornar canhoto! Isso mesmo, eu era um destro convicto até então... De fato, eu fiz um grande planejamento para desenvolver essa habilidade e já faz dez anos que iniciei esse empreendimento. Eu diria que hoje sou quase um ambidestro treinado: eu escovo os dentes, jogo tênis, escrevo e seguro os talheres nas refeições com a mão esquerda, essas eram as quatro metas principais do meu plano de ação para desenvolver essa nova habilidade.

Posso garantir que a preguiça de exercitar venceu algumas batalhas dessa guerra, e teria de fato vencido a guerra, se não houvesse um sentido maior para enfrentar tal desafio. Sem contar com os resultados inesperados obtidos ao longo do caminho: pude aprender muito sobre aprendizagem e sobre transformações de identidade motora. Isso ainda me proporcionou subsídios para a construção do modelo de aprendizado que utilizo atualmente em meus trabalhos e pesquisas!

Somente hoje, depois de ter assumido tal desafio, posso compreender os benefícios das tímidas e inseguras tentativas iniciais. Evidentemente, tal decisão esteve associada a uma certa insatisfação com o que conhecia até então, por isso escolhi algo diferente. Esse é um outro importante artifício para atravessar o "rio da preguiça": a prática de apenas um pouquinho todos os dias.

Quando conheci Robert A. Wilson, um importante escritor norte-americano, ele dizia que tinha como meta escrever apenas uma página por dia! Se descansasse nos finais de semana, durante o ano teria produzido 250 páginas, ou seja, um livro ou dois por ano! E quanto tempo leva para escrever uma página?

Como estudioso do aprendizado de idiomas, sabemos que a língua falada no dia-a-dia constitui-se de um repertório de aproximadamente apenas setecentas palavras. Um bom falante de idiomas estrangeiros possui um vocabulário ativo de três ou quatro mil palavras. Pense nisso, se aprender apenas uma palavra nova por dia, somente uma, em dois anos você conhecerá um idioma novo e em oito anos pode ser um excelente falante desse idioma! (Se você estiver interessado nesse processo gradual, tranqüilo e divertido para aprender inglês, envie um e-mail para: ef2-subscribe@yahoogroups.com para receber uma história ou piada por dia para estudar inglês de uma forma prazerosa).

Creio que um pouco de exagero ou megalomania possa comprometer uma grande jornada. Há muitas pessoas que se aprisionam na atitude do "tudo ou nada", desperdiçando algumas possibilidades simples de cultivar suas "sementes" de novas habilidades ou competências.

Precisamos ainda compreender num contexto mais amplo e de maior imparcialidade, justiça e isenção, que muitos julgamentos aprendidos socialmente não contribuem muito para que desejemos nos auto-conhecer, principalmente na medida em que nos façam sentir culpados ou inadequados. Numa perspectiva evolutiva de gerações, creio que você concorde que a humanidade já caminhou muito em direção à civilidade. Avaliando o desenvolvimento das qualidades humanas que nos diferenciam do barbarismo, talvez você conclua, como eu concluí, que a sede espiritual seja normalmente proveniente de uma grande insatisfação (assim parece ser para as mentes mais iluminadas da humanidade, todos eles, antes da realização, acumulam em suas histórias alguns fracassos, sombras e superação de grandes desafios).

Essa poderia ser então uma equação aceitável: que a insatisfação seja também o germe da realização? Bom se assim for, possivelmente você concorde comigo que essa cadeia seja até mais longa, sendo que o germe da insatisfação talvez sejam os desejos insatisfeitos, o anseio, cuja semente seja a ambição, para alguns, gerada talvez, até mesmo pela cobiça ou pela inveja! É verdade, realmente acredito que muitas das nossas melhores qualidades possuam, como sementes primitivas, alguns de nossos piores defeitos ou sombras! Entretanto é importante compreender que nessa perspectiva de tempo mais ampla, levando em conta o amadurecimento e a evolução dos motivos e sentimentos numa escala racial, nossos julgamentos se afrouxam, criando espaço emocional e psicológico para a auto-aceitação e o auto-respeito. Essas sim, podem ser importantes atitudes que nos ajudem no empreendimento de uma jornada de auto-conhecimento em busca de mais disciplina, ou o que quer que você deseje!

Conclusão

Embora a disciplina possa ser uma importante qualidade para obtermos aquilo que desejamos, creio que existam outros ingredientes que possam, em "receitas" e combinações diferentes, proporcionar muitos dos resultados compatíveis com aqueles obtidos por disciplina. Além disso, muitas das pessoas que se consideram indisciplinadas, são extremamente disciplinadas em manter a sua indisciplina, o que não é apenas um jogo de palavras, já que podemos reorientar essa motivação para obtermos aquilo que nos propomos.

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