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Coleção de Artigos "Nova Educação"

 

A Generosidade Compensa?

© Rubens Queiroz de Almeida

Muitos anos atrás, minha esposa fabricava perfumes artesanalmente. Para descobrir todos os segredos foram necessárias muitas conversas, visitas a diversas pessoas, muitas leituras. Um processo muito desgastante, pois as informações só eram conseguidas a muito custo, e às vezes obtinhamos até informações erradas.

Entretanto, em uma de nossas visitas a Belo Horizonte, descobrimos uma pequena loja onde o dono nos fornecia todas as informações que buscavamos e até mesmo conhecimentos que nem sabíamos existir. Convidou-nos a visitar sua fábrica, onde nos mostrou os produtos que fabricava e como os fabricava. Não havia pergunta que deixasse sem resposta e muitas vezes nos oferecia informação espontaneamente. Esta atitude em muito nos surpreendeu, pois em nossa peregrinação em busca de informação, as pessoas não eram lá muito cooperativas.

Em determinado momento não resistimos mais e confessamos nossa surpresa com tamanha boa vontade em compartilhar tanto conhecimento. A resposta foi não menos surpreendente. O dono da loja nos disse que só começou a vencer na vida a partir do momento em que começou a compartilhar com os demais tudo o que sabia.

Alguns anos depois, descobri na Internet algo não menos surpreendente. Sempre gostei muito de livros de ficção científica e acabei indo parar no site da Editora Baen, muito conhecida pelos fãs do genero. A Editora Baen | disponibiliza gratuitamente para download em seu site diversos livros de autores famosos. Qual a razão para se dar gratuitamente, através da Internet, trabalhos que são o produto principal de uma empresa? Lucro, é claro. Esta explicação encontra-se no próprio website. Um livro de ficção científica, ao ser publicado, vende por volta de 5.000 exemplares no primeiro mês e mantém uma boa média durante o primeiro ano, vendendo no total algo em torno de cinquenta mil exemplares. As vendas são declinantes e por volta do segundo ou terceiro ano vende-se algo em torno de 5, 10 exemplares por mês. O primeiro autor da editora Baen que ousou aderir ao esquema de publicação de sua obra na Internet, para download sem custo, viu as vendas de seus livros crescerem. Não apenas as vendas do livro publicado na Internet mas do conjunto da sua obra. O livro publicado na Internet conta com a poderosa propaganda boca a boca (ou mouse a mouse). Se o material for de qualidade, a boa notícia espalha-se com uma velocidade inacreditável, trazendo um maior reconhecimento para o autor e sua obra e, consequentemente, vendas maiores.

Mas não é só isto. Também no site da editora Baen encontramos relatos de diversas pessoas que só a partir da publicação dos livros em formato digital conseguiu ter acesso a este material. Deficientes visuais e pessoas com diversos outros tipos de problemas físicos escreveram relatando suas experiências. A obra em formato digital permite que a tamanho da letra seja redimensionado para uma visualização mais adequada, sintetizadores de voz podem ser usados. Um leitor relatou que, devido a problemas ósseos, não conseguia virar as páginas de livros comuns. Este tipo de uso não havia sido antecipado pelos patrocinadores do projeto na Editora Baen. Por esta razão as obras são publicadas em diversos formatos, como RTF, texto puro, html e diversos outros, para que o maior número possível de pessoas possa ser contemplado.

Mas provavelmente o exemplo mais eloquente de que a generosidade compensa é o fenômeno do software livre, cuja face mais visível é o sistema operacional Linux. Criado em 1991 por Linus Torvalds, o Linux é hoje, 13 anos depois, um sistema adotado e patrocinado por gigantes da informática como IBM, Dell, HP e muitos outros fabricantes.

A grosso modo, o mundo da informática é hoje dividido entre duas facções. Uma delas defende o lucro acima de tudo e de todos, com o objetivo de impor seus padrões e criar uma dependência asfixiante, e o mundo do software livre.

Os dois movimentos são extremamente complexos e suas motivações possuem inúmeras facetas. Seria um ingenuidade minha ter a pretensão de querer explicar algo tão amplo em um pequeno artigo como este. Entretanto, gostaria de tentar apresentar alguns fatos e aguçar a curiosidade do leitor.

Em 1985, assisti a uma palestra apresentada por um funcionário da IBM, onde ele defendia que em cinco anos, por volta de 1990, os computadores em breve iriam dispensar os seres humanos para sua administração e seriam capazes de realizar a maioria de suas tarefas sozinhos, sem acompanhamento. É claro que isto não ocorreu. Naquela época os computadores eram usados principalmente em bancos, processamento de folhas de pagamento e alguns outros usos mais especializados. Os computadores, que em 1985 eram privilégio apenas de empresas poderosas, podem ser hoje adquiridos com grande facilidade e estão ao alcance de uma grande parcela da população. Esta universalização trouxe consigo uma aplicação mais generalizada dos computadores em praticamente todos os setores da vida moderna. Não existe hoje uma empresa que não tenha ou pense em ter um website para contato com seus clientes e fornecedores. Universidades publicam sua produção acadêmica na Internet, alunos já fazem suas matrículas de onde estiverem, consultam bibliotecas e muito mais. Consultórios médicos, lojas de material de construção, padarias, lanchonetes, enfim, praticamente em qualquer ponto do setor econômico você encontrará um computador. Enfim, um dos grandes pilares em que se sustenta a sociedade moderna é a informática (computadores e redes).

Dentro deste cenário, volto a confrontar os dois movimentos que criam a inteligência que mvimenta os computadores: o movimento do software proprietário e o movimento do software livre. O software proprietário nos entrega programas de computadores que executam determinadas tarefas, porém não nos dizem como os computadores foram instruídos a fazer isto. Em caso de problemas os únicos que podem consertar o erro são os fabricantes. Nós, usuários, não podemos consertar nada. É o mesmo que comprar um carro em que o capô venha soldado. Em caso de problemas temos que mandar o carro para que a fábrica o conserte. Inconcebível, não? Pois então, com os programas de computador que você usa ocorre exatamente o mesmo.

Com o outro movimento, do software livre, o que está em jogo é o desafio de solucionar problemas criativamente, a engenhosidade, ajudar o seu vizinho e, em última instância, o prazer puro e simples. Além do programa pronto para ser executado em seu computador, esta categoria de programas, os programas livres, são distribuídos juntamente com sua receita, o código fonte. O próprio usuário, por si só, ou orientado por outros, pode modificar o programa e redistribui-lo para quem bem entender. O mais importante é a liberdade de se usar, modificar e distribuir os programas. A liberdade que é recebida não pode ser retirada dos demais. Se eu obtenho um programa livre tenho por obrigação mantê-lo livre, não posso restringir o seu uso.

No livro Segredos e Estratégias de Sucesso da Microsoft, de autoria de David Thielen, logo no início se comenta que a empresa não tem uma definição de missão escrita, mas ao perguntarmos a qualquer um de seus funcionários qual o seu objetivo final, qualquer um deles dará a mesma resposta: conquistar o mundo.

Os tempos certamente mudaram. Para se conquistar o mundo não é mais necessária a mobilização de exércitos, massacres e destruição. Entretanto a conquista do mundo certamente envolve a dominação e a supressão de liberdades. Esta declaração de missão não escrita certamente traz uma mensagem bastante reveladora.

Estes dois movimentos representam uma situação paradoxal. De um lado uma empresa que praticamente conquistou o mundo da computação, com práticas frequentemente desleais (basta consultar na Internet o histórico dos diversos processos movidos contra ela) e do outro, milhares de pessoas espalhadas pelos cinco continentes criando soluções tecnológicas que hoje fazem frente e até mesmo ameaçam este império, muitas vezes sem ganhar nada por isto, com o simples objetivo de ajudar seu próximo ou pelo simples prazer de criar algo novo.

Diversas empresas se estruturam hoje com sucesso a partir da filosofia do software livre. Existem profissionais de grande reputação, disputados a peso de ouro por empresas de renome, e que se dedicam à criação de software livre. Muitos outros embora não remunerados por seu trabalho, dedicam-se também ao software livre pelo prazer que derivam deste trabalho.

Emfim, é perfeitamente possível garantir uma forma de vida digna preservando a integridade moral e valores elevados. Os exemplos citados neste artigo são apenas alguns entre muitos que poderiam reforçar esta mensagem.

A crença de que prosperidade e generosidade são conceitos opostos ainda é bastante comum nos tempos de hoje. Bem, talvez seja a hora de revermos nossos conceitos ...

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