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Coleção de Artigos "Nova Educação"

 

Criatividade na PNL

© Walther Hermann Kerth

Sinopse

Este artigo é um texto experimental sobre o tema da Criatividade no contexto de praticantes de Programação Neurolinguística.

Falar sobre a Criatividade é um desafio incomum, porém o contexto da PNL facilita um pouco a tarefa.

Para o iniciante, o reconhecimento da PNL está na competência do uso das técnicas, mas a PNL vai muito além disso, conforme apresentado no texto a seguir...

Contexto

Em novembro de 2010 fui contatado para dar uma entrevista escrita para uma revista de PNL.

A entrevista enviada por e-mail é constituída de apenas duas perguntas. Entretanto elas são tão abrangentes que poderiam dar origem a um livro!

O tema central é sobre a criatividade dentro da PNL. Quando se menciona o tema da criatividade dentro da PNL a resposta simples e imediata é Estratégia Disney. Mas seria somente isso? O artigo seguinte é uma resposta a isso.

A PNL é uma abordagem muito interessante sobre a expressão humana nos campos da comunicação, aprendizagem e comportamento. Simplificadamente, a PNL oferece algumas dádivas valiosas para os leigos: 1) a validação da experiência individual que remove uma carga de culpa considerável das pessoas; 2) a possibilidade dos seus praticantes se apropriarem de seus traços, comportamentos e atitudes e 3) recursos para as pessoas assumirem responsabilidade por suas vidas ao sentirem-se mais fortes para tomarem decisões, fazerem escolhas e lidarem com as consequências.

Entrevista

1) Primeiramente, como a criatividade pode ajudar no desenvolvimento, tanto pessoal como profissional de uma pessoa?

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A sua pergunta é muito complexa e não é possível respondê-la sem antes eu revelar em que eu acredito!

Por partir de pressupostos meus, estarei me distanciando da PNL! Mas esse é o risco de estar vivo... Não é possível explicar algo sem mostrarmos nossas convicções.

Vivemos num mundo criado de alguma forma ao longo de eras, no qual tudo parece ser relativo e muito instável. Instável no sentido de que tudo muda, nada permanece constante. Assim parece ser o comportamento da natureza, conforme os filósofos chineses antigos acreditavam: está tudo em movimento.

Exemplos simples disso incluem a vida, nada neste mundo material vive indefinidamente: nem os seres vivos nem as coisas são duráveis. Tudo possui uma duração finita.

Se você é um ser vivo, a sua sobrevivência depende de um processo permanente de alimentação, transformação, regeneração e recriação, do nascimento até a morte; os seres vivos estão em permanente recriação da vida celular, dos órgãos, das ações e atitudes.

Se você possui um objeto, ele também tem um tempo de vida, maior ou menor. Você pode estender esse tempo de vida se fizer a manutenção, ou seja, recriá-lo periodicamente - um jardim funciona assim.

Um carro também, bem como uma casa ou um equipamento eletrônico. Cientificamente isso é explicado pela instabilidade das unidades fundamentais da matéria: elas estão em movimento permanente e são um tanto instáveis, especialmente quando bombardeadas pelos raios cósmicos de todas as frequências, podem sofrer mutações, degradações e transformações.

Então agora posso responder a sua pergunta com outra pergunta: Como é possível viver num mundo instável, em permanente movimento e mudança, sem acompanharmos essa tendência? Vou assumir agora que a vida só é possível se ela for capaz de se adaptar, para isso é fundamental sermos criativos, pois nossa capacidade de prever as mudanças e se antecipar a elas, você deve concordar comigo, é bastante limitada! Nem o clima ou o tempo nós somos ainda capazes de prever com precisão.

Se você agora considerar sua pergunta, na qual você pressupõe que seja possível o desenvolvimento pessoal e profissional, mais uma vez estamos tratando do assunto instabilidade! Isto é, você está numa condição e deseja mover-se para outra, quer seja de mais liberdade, poder, autonomia, segurança, etc, ou seja lá o que você esteja buscando através do que chama de desenvolvimento, para mover-se de uma condição à outra você fará uso da instabilidade, condição da mobilidade.

Portanto a resposta à sua pergunta está embutida na própria pergunta: o processo de desenvolvimento é, por si só, um processo de recriação. Aquilo que normalmente chamamos de criatividade está frequentemente associado à geração de idéias, ou se preferir, de objetivos - todo objetivo começa na mente, provavelmente numa fantasia de uma realidade possível ou numa memória distorcida da realidade!

Enfim, dentro desse contexto agora posso ser ainda mais conciso: a criatividade pode contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional na medida em que produza idéias motivantes e atraentes a respeito de tudo o que podemos vir a ser, mesmo além do que formos capazes de pensar ou planejar. Parafraseando Richard Bandler, eu repetiria: "Por que ser quem somos se podemos ser muito melhores?"

Costumo ainda acreditar que a realidade é sempre bem mais criativa que o pensamento!

Lembre do atentado das torres gêmeas nos EUA, ninguém tinha vislumbrado isso num filme até então. Com todos os filmes sobre catástrofes e tragédias do cinema comercial americano, nenhum tinha proposto tal fantasia: a derrubada das torres. Bem, a tragédia aconteceu além das fantasias propostas nos filmes. Agora os americanos recriam algo ainda mais soberbo em homenagem às vítimas, construindo um complexo de prédios ainda mais luxuoso e com tecnologia mais moderna.

Conheço um americano que, convicto de que há uma grande Inteligência operando por detrás dos fatos humanos, quando recebeu a notícia do atentado de 11 de setembro de 2001, a primeira coisa que fez foi perguntar-se (talvez para não se desesperar como tantos outros milhões): quais são as bênçãos trazidas por essa tragédia? E em duas horas ele encontrou tantos benefícios quanto os malefícios do evento – isso ajudou-o a apaziguar sua a alma. Nada muito diferente do método proposto por Sócrates em suas explorações da realidade e da interpretação desta.

Assim ele pode permanecer centrado e manter sua fé no fato de que nada na realidade é completamente mau ou bom. Olhando a história em perspectiva, certamente você chegará a tal conclusão: toda realidade tem muitos lados.

O mais importante desse último exemplo é que encontrar vantagens numa tragédia é um exercício de criatividade aplicada, tanto quanto buscar desvantagens em algo que pareça exclusivamente bom – ou será apenas um processo de expansão de consciência no qual reconhecemos aspectos da realidade ocultos à primeira vista? Todo esse processo criativo, dessa forma, pode servir ao desenvolvimento pessoal, trazendo mais serenidade e paz para quem as busca como alguns dos importantes objetivos do desenvolvimento pessoal.

2) Quais são as principais técnicas de PNL ligadas à criatividade?

A partir da reflexão feita para a resposta anterior, eu não me sentiria constrangido de afirmar que TODAS as técnicas de PNL estão ligadas ao despertar ou à ativação do processo criativo.

Vou descrever algumas delas apenas para estimular o leitor a pensar sobre isso, porém a resposta à sua pergunta daria um livro inteiro!

Comecemos do começo: OS PRESSUPOSTOS!

O capítulo inicial da PNL, o reconhecimento das pressuposições, propõe que não vivemos na realidade, mas numa representação mental dela. Ou seja, primeiro criamos uma fantasia da realidade (isso já é a nossa criatividade em ação!), com alguns fragmentos de nossas percepções limitadas (por vários tipos de filtros) da realidade: isso é denominado de MODELO de MUNDO.

O modelo de mundo é um subproduto de nossa criatividade no qual operamos os processos de aprendizagem conhecidos como ELIMINAÇÃO, DISTORÇÃO e GENERALIZAÇÃO.

Se pudéssemos colocar isso numa linha de tempo, ainda antes de cristalizarmos nossas crenças sobre a realidade, ela já estaria desatualizada! Pois a realidade muda, e o MAPA, bem mais lento, dependerá de novas percepções para se atualizar. Uma das mais importantes crenças de transformação da PNL está na idéia de que não mudamos a realidade, mas podemos ampliar esse MODELO da REALIDADE ou MAPA do MUNDO.

Bem, um MAPA de MUNDO é elaborado a partir de uma determinada POSIÇÃO PERCEPTUAL! Isto é, não é suficientemente abrangente para abarcar a realidade toda em constante mutação. Assim, as posições perceptuais são outro importante instrumento de sondagem dos labirintos de nossa mente em busca de outras representações da realidade que, frequentemente, nos gratifica com eventos que nos trazem muitas novas idéias e representações da realidade.

Juntando os dois últimos parágrafos, devemos lembrar que sempre que estabelecemos um objetivo a partir da posição perceptual da condição do problema, estamos definindo um objetivo a partir da tentativa de evitar um problema, o que dá origem a uma solução adaptativa, isto é, não generativa! Se lembrarmos que muitas dessas soluções nos levam a problemas maiores no futuro, pois os objetivos que estabelecemos são limitados pela nossa falta de visão e obscurecidos pelos nossos condicionamentos e crenças a respeito da realidade, então a melhor forma de pensarmos num novo objetivo talvez comece pelo descondicionamento! O que quero deixar claro aqui é que grande parte dos objetivos estabelecidos com o METAPROGRAMA do afastamento nos levam a processos criativos de baixa ordem (ainda condicionados pelos nossos paradigmas e modelo de mundo), nem sempre revelando-se satisfatórios no longo prazo, ou seja, pode não dar origem a soluções sistêmicas. Se, no entanto, reconhecermos os benefícios, INTENÇÕES POSITIVAS ou METAOBJETIVOS das condições problemáticas, provavelmente poderemos encontrar soluções mais ECOLÓGICAS. Com tal consciência, ficará mais fácil assumir-se uma outra posição perceptiva de maior clareza para que objetivos de ordens mais altas sejam alcançados.

Formalmente, a técnica mais conhecida para estimular o processo criativo dentro da PNL é chamada de Estratégia Disney. Mas isso é para quem está iniciando na PNL para aprender os conceitos de Estratégia, de Partes e de Solução de Problemas. Na medida em que uma pessoa cria um automatismo mental tal qual uma estratégia para o processo criativo, já está limitando sua mente dentro de uma rotina mental para poder acessar o processo criativo: já não é tão criativo, concorda?

Os condicionamentos mentais e emocionais são cristalizações da mente. Eles podem nos proporcionar aquilo que chamo de criatividade de segunda ou terceira ordem. O processo do Kaizen (melhoria contínua) é um formato da criatividade de terceira ordem: pequenas mudanças. Essa é a criatividade mais condicionada que existe, pois a mente ainda está presa ao paradigma original. O processo de comparação estrutural de distintas categorias de informação em busca de semelhanças e diferenças pode dar origem à criatividade de segunda ordem: mudanças de paradigmas ou de modelos mentais. Somente a criatividade de primeira ordem, aquela proveniente de visitas às profundezas do espírito, tal qual são capazes de fazer alguns poucos grandes místicos, poetas, filósofos ou cientistas torna possível o acesso à força criadora da realidade – disso, uma estratégia mental como a de Disney, nem chega perto!

Para acessar tal dimensão do processo criativo humano precisamos ter em mente parte dos fatos que acompanham o processo criativo de primeira ordem, para podermos decidir em qual dos níveis desejamos ficar. Milton Erickson, um dos avôs da PNL, em quem os criadores também se basearam através da MODELAGEM (outro importante recurso criativo que deu origem à PNL!) costumava dizer: "Em toda a vida deve haver um tanto de compreensão, e também um tanto de confusão!". Bem, isso distingue o nível em que o estudante de PNL está, pois se ele tenta controlar todos os sintomas através das técnicas, certamente nunca passará do nível básico, no qual se acredita que a PNL tem o poder de fazer tudo e curar tudo, assumindo que alguns sintomas sejam formas estúpidas da mente inconsciente se expressar.

Bem, o que quero lembrar aqui está condensado num comentário que ouvimos frequentemente dos grandes artistas, poetas, filósofos e cientistas, diante de suas mais valiosas criações: quase todas essas sínteses criativas foram antecedidas por um grande sofrimento ou estresse! Alguns chamam isso de angústia, depressão, insatisfação, etc. Mas quase todos eles mencionam algo que eu chamaria, já criando um modelo e congelando o processo criativo, de uma fase de desconstrução ou demolição das referências anteriores, frequentemente acompanhadas de sintomas físicos! Esse estresse vivido antes das grandes criações parece, segundo a descrição de incontáveis casos, fazer parte do processo criativo profundo. Se isso for verdade, então evitar muitos dos maus sentimentos pode abortar o processo criativo de transformação humana, para adequá-lo aos padrões do que é certo ou errado, aceitável ou não. Note que aqui já não estou mais falando apenas da produção de idéias ou objetivos, mas do processo de transformação humana num nível sistêmico, de identidade. E é no reconhecimento desse limite que reside a arte do praticante de PNL de alto nível: até onde uma intervenção ou uma técnica poderá ajudar e a partir de onde ela passará a limitar um processo criativo de uma ordem mais elevada? Já que a mente cognitiva raramente é capaz de ir além do que já conhece, mas o espírito humano e a mente inconscientes são.

Quero aqui deixar registrado um depoimento pessoal sobre a criatividade: as posturas Ericksonianas e pós-Ericksonianas de acolhimento dos maus sentimentos e da confusão sempre me levaram mais longe do que as estratégias de criatividade formais. De uma forma geral, sempre me colocaram diante de caminhos nos quais eu cresci e aprendi muito mais do que seria capaz de planejar ou sequer imaginar! Assim, conhecendo o alcance dos métodos, podemos fazer uso deles para irmos além deles. Exatamente como uma escada, quando a subimos, a deixamos para trás. Às vezes, voltamos pelo mesmo caminho e ela também nos serve no momento seguinte... Outras vezes subimos e a levamos junto para escalar o desnível seguinte. Às vezes a deixamos para trás definivamente.

Milton Erickson tinha uma grande fé na inteligência da mente inconsciente humana e deixou entre vários legados, alguns métodos de criação deliberada de confusão, entre eles o uso das ambiguidades: ambas , confusão e ambigüidades, corresponsáveis pelo HUMOR e pela estimulação do processo criativo inconsciente. Não podemos esquecer uma valiosa abordagem complementar que faz, junto com a confusão, as ambiguidades e o humor, a receita completa de estimulação do processo criativo alheio: as METÁFORAS e as ANALOGIAS. Mas ainda podemos prosseguir nessa breve investigação...

Nada do que descrevi acima pode ofuscar a importância do RAPPORT. Se você um dia testou isso, deve ter notado que espontaneamente somos muito mais criativos na presença de outras pessoas que nos dão atenção do que solitários! A mente humana parece ter uma propriedade de fecundar a mente alheia com a sua simples presença... Você pode experimentar isso na sua própria profissão: mande uma pergunta por escrito e peça para alguém responder. Depois, vá pessoalmente ao encontro desta pessoa e faça-lhe a mesma pergunta. Observe em qual das respostas são geradas mais idéias e novidades. A profissão de Peneleiro(a), de terapeuta ou de coach só existe graças a tal fenômeno: as pessoas são mais criativas na presença de outras que sabem escutá-las, por isso elas pagam as sessões de tais profissionais. Caso contrário seria muito mais barato e fácil responder às perguntas prontas que estão nos livros, isso funciona para você? Creio que não, caso contrário a profissão de entrevistador seria criativamente transformada na profissão de leitor ou de pesquisador de livros!

Note, por fim, que minha resposta por mais criativa que possa parecer, já pertence ao passado! Se eu fosse responder novamente às suas perguntas, já tendo refletido sobre tudo isso dessa forma, provavelmente chegaria a novas idéias, acessadas apenas por causa das primeiras reflexões para estas perguntas... Portanto, podemos concluir, simplificadamente, que é impossível falar sobre a verdadeira Criatividade, pois assim que falamos, já não é mais criatividade! Como aquela parábola do sujeito que desejava aprisionar o vento... Assim que conseguiu confinar o vento numa caixa, já não era mais o vento!

Provavelmente agora, parafraseando um de meus mestres, eu responderia tudo diferente!

Isso é buscar a liberdade que a criatividade pode nos proporcionar, sem nos deixarmos seduzir pelos seus resultados: nenhum é definitivo! Tudo está em mudança permanente!

Conclusão

As conclusões sobre dissertar sobre o tema criatividade são dramáticas! Qualquer coisa que pudermos falar já não é mais criativa... Seria impossível conseguir precisão em qualquer reflexão sobre um tema tão fugaz. Assim, um empreendimento como estes possui um paradoxo implícito. Creio que essa seja a razão de muitas tradições antigas nunca darem respostas, mas sempre deixarem as perguntas e as contradições como portadores de seus ensinamentos.

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