À Natureza, ao Universo,
à universalidade e à Grande Obra
da qual fazemos parte mesmo antes de saber.

Percebemos que existe vento ao observar os movimentos das folhas e das árvores através da janela. Concluímos que choveu durante a noite ao observarmos as plantas, os carros e as ruas molhados pela manhã.

Da mesma forma, percebo a presença de meu Mestre. Não porque o vejo ou escuto conscientemente, mas pelas evidências ao longo da minha existência. Nos momentos de dúvida ou de desamparo, Ele aparece como uma criança, dentro de mim mesmo, de repente, indicando a beleza do mundo e das coisas simples, apontando para a poesia dos sentimentos, às vezes contraditórios ou melancólicos, que se sucedem, seguidos de profunda convicção e fé no caminho natural das coisas e de uma esperança de poder presenciar e participar da construção de um mundo melhor para todos.

Esses instantes de expressividade cristalina, em algumas ocasiões, fizeram parte de um dia de trabalho transcrevendo as histórias e as vivências dos workshops. Também estiveram presentes naquelas ocasiões e oportunidades de introspecção que precedem o adormecer. Momentos que, para muitos de nós, só não nos comovem mais profundamente devido ao torpor do sono aproximando-se e pelo fato de, comumente, serem esquecidos ou ignorados por aquela identidade social e normal que incorporamos durante a atividade diária.

De fato, com grande naturalidade, podemos nos surpreender com os pensamentos, os sentimentos e as impressões que nos assaltam a vaga consciência que antecede o adormecer e que, apesar de tudo, são provenientes de nós mesmos, quem sabe... E nos indicam que somos muito mais do que aquilo que acreditamos. Observe os sonhos, os ideais e as motivações interiores que temos oportunidade de identificar até como se fôssemos, eventualmente, outra pessoa, nos momentos em que abrimos mão da ação e nos oferecemos à sabedoria do descansar. Como é doce confiarmos no fato de acordarmos após um período de repouso ao qual nos abandonamos de forma tão natural e conhecida.

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Ainda assim, para alcançar, identificar e aceitar essas diferentes formas de existir que convivem dentro de cada um de nós, passaram-se muitos anos de árduo trabalho de libertação por meio do conhecimento, do convívio e da prática de desaprender todos aqueles hábitos necessários ao processo de ambientação, sociabilização e aculturação que acabam moldando nossa percepção e nossa identidade. Há muito experimentamos diferentes dimensões de nosso ser mas, para chegarmos a aceitá-las como parte de nós, algum tempo será investido para nos libertarmos de nossa própria crença a respeito de quem somos (considere que os seres humanos ainda não se utilizam e não expressam integralmente a completa dimensão de suas potencialidades e que sua identidade e auto-imagem são estruturadas a partir de uma pequena parcela de possibilidades).