Os Antigos Egípcios
Albert Einstein acreditava que uma de suas mais valiosas características era a capacidade de se surpreender. Compartilho da sua opinião. Cada vez coisas mais simples e cotidianas me despertam a curiosidade e, quando observo mais atentamente... surpresa!
Quando observo o nascer do Sol, sempre me surpreendo com duas coisas: o evento majestoso e mágico, como acredito ser, e uma lembrança (o fato de nos lembrarmos de algo me surpreende também!) não menos mágica, de um povo do passado de adoradores do Sol – os Egípcios. A cultura egípcia possuía uma linguagem e uma escrita um tanto diferente das nossas. A eles é atribuída uma grande quantidade de heranças preciosas que nos são úteis.
Entre seus símbolos, o que me vem mais freqüentemente à mente, ao presenciar o Sol nascente, é a chamada Cruz de Ansata (aquela cruz que possui um círculo no lugar da haste vertical superior). Uma das origens concebidas para essa representação é o desenho da sombra, projetada no chão, de cada representante daquele povo de adoradores do Sol, ao contemplar-Lhe a chegada a cada amanhecer, de pé com os braços abertos.
Acho muito impressionante como, em minha mente, esses eventos estão associados: ao tornar-me consciente de um deles, o outro se apresenta espontaneamente...

Nosso conhecimento teórico de alguns eventos, ocasionalmente, nos turva a percepção de sua real natureza, complexidade e beleza. Outra realidade cotidiana que me convida regularmente à contemplação e reflexão, apesar de ter praticado algumas diferentes técnicas de hiperventilação e meditação, é a nossa respiração – quão mágica ela é! Reflita. Quero propor uma experiência que considero muito valiosa para que você compreenda de uma forma mais visceral as próximas considerações. Sugiro que somente inicie o próximo exercício se tiver tempo e disponibilidade de espaço e tranqüilidade para concluir o restante desta parte do programa. Acredito que esta seqüência terá um sentido maior se for abordada como uma unidade.
Onde Nasce a Próxima Respiração
Inicialmente proponho que você comece a respirar um pouco mais consciente e intensamente. Durante a leitura das próximas linhas, estarei explicando a experiência. Aproveite esse tempo para ir se preparando para o exercício. Conforme a duração de sua leitura, talvez dez, vinte ou mesmo trinta respirações completas, não tente controlar nem a quantidade nem o ritmo, deixe apenas que elas se processem naturalmente um pouco mais intensas. Apenas preste mais atenção. Você não precisa relaxar, basta sentir-se confortável e afrouxar alguma roupa que esteja constrangendo inspirações e expirações espontâneas. Quando inspirar, não há necessidade de se esforçar ou ‘lotar’ o peito de ar; da mesma forma, ao expirar é só permitir, naturalmente, que o ar escape pelo nariz enquanto o corpo estiver procurando uma condição de conforto e descanso. Continue respirando mais conscientemente, porém, não controladamente. Após essas respirações mais perceptivas, observe que, mais cedo ou mais tarde, uma dessas inspirações é naturalmente mais intensa ainda, como se ‘pedisse’ uma quantidade maior de ar e, em seguida, acontece quase espontaneamente um ‘suspiro’, uma expiração mais marcada. Não controle, apenas observe.
Neste momento, ao concluir a expiração, existe um lapso de tempo, uns poucos segundos, durante os quais a respiração fica, naturalmente, suspensa. Alguns instantes que parecem ser de descanso daquelas respirações anteriores mais intensas. Após isso, também espontaneamente, inicia-se outra inspiração. A pergunta que desejo que responda é:
Depois de algumas respirações um pouco mais conscientes, sucede um “suspiro”. Após esse suspiro, um pequeno intervalo de tempo de “descanso” da respiração. Fique muito atento a esse pequeno período para perceber: “Onde nasce a próxima respiração?” Onde... Em que local do corpo você sente ou percebe os primeiros movimentos ou sensações que sinalizam o início de uma nova inspiração? Às vezes, é apenas uma vaga impressão, outras vezes uma região do corpo para onde se desloca a nossa atenção consciente...
Perceba também quão impressionante é o brotar de uma nova inspiração e, como após ela se completar naturalmente, uma nova expiração se inicia! Continuamente, às vezes, compassadamente, outras... Parece até que Algo respira por nós ou, talvez, através de nós!
Observe que, nem tanto pela ventilação pulmonar, talvez mais pela atenção orientada para essa percepção, parece que essa descoberta, por si só, já nos proporciona um curioso estado de ânimo! Ou até de motivação.
Você pode estar exausto(a), completamente “acabado(a)”, talvez há duas, três ou quatro noites sem dormir, vivendo sob tremenda tensão e estresse, mais cedo ou mais tarde irá dormir. Por bem ou por mal, quem sabe até tendo sua consciência ou atenção seqüestradas, possivelmente na forma de um colapso ou desmaio, seus sentidos serão apagados. Talvez durma algumas horas, talvez oito, dez, quinze, vinte, ou mesmo trinta horas seguidas. Mais cedo ou mais tarde, invariavelmente, qualquer pessoa que possua um mínimo de condições de saúde, toma uma inspiração diferente, desperta e, para continuar deitada ou sentada, terá que fazer esforço. Uma pressão interior nos impulsiona para a ação e o movimento. E se assim não for, essa pressão interior nos colocará em uma extrema atividade de pensamento. Permanecendo com o corpo em repouso, a mente, então, “dispara”!
Que força é essa que não nos permite descansar indefinidamente? Que nos impele ao movimento, à ação, à interação? O que é isso que se expressa através de nós? Que vive através de nós? E o simples fato de Lhe observarmos a presença ou a “face”, ocasionalmente manifesta alguma nova percepção, sensação ou sentimento – quem sabe até uma nova conclusão... De uma forma mágica e impressionante, cada um de nós, seres humanos, possui, consciente ou inconscientemente, um jeito de perceber, entender ou experimentar essa dimensão de nossa natureza e expressividade. Sim, Algo se expressa através de nós!
Alguns chamam de Força Vital, outros chamam de Força Criativa ou criatividade, talvez motivação, êxtase, impulso, energia, vitalidade etc. Invariavelmente, faz parte da natureza humana experienciar, mais ou menos conscientemente, tal condição ou categoria de ... Talvez alguns de nós atribuamos a Isso uma classe de coisas que inclua aquilo de bom e de melhor existente na nossa natureza humana, algo de positivo. Algo que, para inibirmos Sua expressão natural, dependerá de um esforço, em alguns casos, sobre-humano. Perceba que, neste momento, talvez alguma sensação se destaque em seu corpo e desperte sua atenção. Aceite tais evidências.
Por outro lado, contrastando com essas percepções, cada um de nós, enquanto seres humanos, também já teve a oportunidade de enfrentar ou observar as próprias limitações, dificuldades, os próprios dramas, medos ou dúvidas. Sim, disso também é feita a nossa realidade e, para cada Ente que possamos considerar como positivo, talvez consigamos achar a dimensão que não Lhe permita Sua livre expressão e que, talvez, chamemos de negativo. Quem sabe, sejam chamados de bloqueios ou mesmo de sombras. Observe também que a simples menção da existência dessas dimensões nos proporciona, muitas vezes, ainda outras sensações ou percepções em nosso próprio corpo. Mantenha-se atento a elas. Porém, tenha coragem de não julgá-las. Fazem parte de nós.
Para algumas pessoas, o grande conflito existencial é representado pelo confronto entre tantas vontades, tanta curiosidade e tanta motivação, versus tanta dúvida, medo, incerteza ou preguiça... Para outros, o grande conflito essencial se apresenta como a incompatibilidade entre seus desejos, sonhos e interesses interiores versus a hostilidade, agressividade e inércia do mundo real, exterior... Ainda outros vivenciam a tensão entre um futuro que poderia ser tão promissor e melhor versus um passado que lhe toma tanta energia, e que mantém presente a conclusão de não terem existido as oportunidades devidas para a expressão plena de seu próprio potencial... Cada um de nós sabe muito bem, seja consciente, seja inconscientemente, quais são seus dramas mais íntimos... Mantenha ambas as percepções simultaneamente em sua consciência, coexistindo, coabitando.
Observe agora como se intensificam suas experiências e percepções interiores. Convido você, agora, a deixar de lado a leitura do texto, temporariamente, caso já não tenha ocorrido espontaneamente, para que, por alguns instantes, você possa se absorver nessa “viagem” interior. Mantenha a coragem de não julgar os caminhos por onde sua mente inconsciente irá conduzi-lo. Apenas permita-se deixar seguir através desse contato mais íntimo com suas sensações e sentimentos. Absorva-se nas percepções corporais independentemente de sua possível turbulência. Verdades por vezes muito simples, mas que somente cada um de nós é capaz de saber. Essa é uma experiência de meditação muito interessante, uma das mais poderosas que conheço em autoconhecimento natural e saudável! Lembre-se de apenas observar o que é natural e espontâneo, no fluxo dos movimentos corporais espontâneos, sensações, sentimentos, pensamentos, memórias, idéias, decisões e conclusões que vão se desfilando, de uma forma muito segura e inconscientemente ordenada, em sua mente. Às vezes, você pode perceber uma certa aceleração respiratória ou cardíaca – é natural. Caso não se apresentem algumas percepções diferentes ou sensações, apenas continue a leitura normal do texto.
Perdido no ABC
Certa vez, retornando do litoral em um sábado, pela hora do almoço, durante um feriado prolongado, graças à Operação Descida (da serra), subi a Via Anchieta. Tenho hábitos alternativos e, geralmente, estou no contrafluxo dos congestionamentos – minha profissão permite uma certa flexibilidade de horários. Comumente, viajo antes ou depois do grande público e sempre aproveito as baixas temporadas – tudo mais vazio e mais barato. Naquela ocasião, não vinha diretamente para minha residência, tinha como destino um sítio em Arujá, na Via Dutra. Em ocasiões anteriores, com tempo limitado, viera até o centro de São Paulo para depois encaminhar-me para a estrada, utilizando-me da Marginal Tietê. Naquela oportunidade, entretanto, tinha tempo de sobra e uma curiosidade de experimentar uma nova possibilidade: a de cortar caminho por dentro do ABC Paulista em direção à Via Dutra. Dei atenção à primeira placa e, no local indicado, abandonei a Via Anchieta em direção à Zona Leste. Naquela época, São Paulo era uma das cidades mais bem sinalizadas do país, quiçá da América do Sul; infelizmente, o mesmo não acontecia nos municípios do ABC. Após a terceira placa, dei-me por perdido em São Bernardo do Campo, acredito. Havia, de fato, muitas placas, porém com nomes de bairros e avenidas locais, dos quais eu nunca ouvira falar.
Eu possuo um senso de orientação espacial muito bom, especialmente durante o dia. Confiando no meu faro, não quis parar para perguntar ou consultar o guia (continuei em frente) imaginava que, cedo ou tarde, encontraria algo conhecido ou uma indicação familiar. Passaram-se ruas e avenidas, praças, indústrias e mais indústrias... Num dado momento, percorria uma avenida na qual nunca estivera (não que eu me lembrasse). Era uma avenida de duas pistas com três faixas em cada uma delas. Eu estava na faixa central. Pratico um estilo de direção chamado de “defensiva”. Tenho um tio, muito querido, que divide as pessoas que dirigem veículos em duas categorias principais. A primeira, ele chama de pilotos: aqueles cujo passageiro, em nenhum momento, se esquece de que está dentro de um carro – permanece sempre tenso, agarrando-se como pode para manter-se equilibrado no banco do carro. O segundo grupo, ele chama de motoristas – aqueles cujo acompanhante, em nenhum momento, se lembra de estar dentro de um carro... As acelerações e frenagens são suaves, as curvas bem dosadas etc. Faço parte desta segunda categoria.
Pois bem, seguia tranqüilamente pela faixa central, passeando (a avenida tinha pouco movimento), quando resolvi andar mais rápido. Quem dirige carros há algum tempo sabe que esse tipo de avaliação não é racional, não olhamos o velocímetro. Quando muito, sentimos a vibração do carro, o vento entrando pela janela, a velocidade dos outros carros e aceleramos ou não...
Qual não foi o meu susto e a minha surpresa de, querendo andar mais rapidamente, ter pisado no freio! Pisei levemente, como pisaria no acelerador, mas foi no freio! Meu coração disparou... Fiquei muito assustado, aquilo nunca havia acontecido antes. Instantaneamente olhei pelos espelhos, querendo antecipar algum problema, mas não havia ninguém imediatamente atrás. Foi algo tão inusitado que nem meu próprio corpo sabia desse fato e, embora estivesse com cinto de segurança, naquela pequena freada todo o meu corpo e cabeça inclinaram-se para a frente.
Uma curiosidade interessante é observar que motoristas, ou mesmo pilotos, em seus assentos, sempre estão mais equilibrados e altivos enquanto dirigem. De fato, nossa mente inconsciente, quando acostumada com o carro que dirigimos, sabe compensar os movimentos do veículo com tensionamentos diferenciais de músculos antagônicos àqueles que promoveriam os movimentos de recuo ou avanço da cabeça e tronco durante as manobras. Se você já dirige veículos há algum tempo, talvez tenha observado que a nossa organização motora inconsciente promove uma tensão diferenciada nos músculos do abdômen e região interna dos braços quando aceleramos o veículo; e dos músculos das costas e região externa dos braços, quando freamos. São contrações suaves que nos permitem agarrar-nos ou apoiar-nos ao volante e banco para a preservação do nosso equilíbrio. Os passageiros, em geral, não sabem avaliar as manobras, por isso têm menos estabilidade em seus assentos. Por isso também afirmei que, apesar de ter pisado no freio, em vez do acelerador, meu sistema de equilíbrio automático não estava ativado, coordenadamente, com essa ação.
Completamente assustado, desengatei a marcha e permiti que o carro apenas continuasse com a velocidade que estabilizara e, enquanto dirigia com apenas a percepção periférica, minha consciência e atenção voltaram-se quase que inteiramente para dentro de mim mesmo. Já tinha experimentado o sonho vívido em outras ocasiões e, naquele lapso, pensei até estar sonhando e belisquei-me; estava acordado, pelo menos aparentemente! Ao voltar-me para o ambiente interior, estava “checando os sistemas” e avaliando o que poderia estar acontecendo. Pensava: “E se isso acontecesse em avenidas ou ruas movimentadas?” E se isso acontecesse ao contrário: querendo frear o carro, ao me aproximar de um semáforo ou cruzamento, pisasse no acelerador? Desastre certo! Enquanto isso, o carro prosseguia.
Nesta avenida, aproximadamente duzentos metros à frente, havia uma curva, que eu nunca percorrera. Na curva, havia uma sinalização de trânsito de estreitamento da pista, especificamente a faixa da direita estava em obras. Enfim, se nessa curva eu estivesse meio metro à frente, não teria tido tempo de evitar a batida num carro que, com a obstrução da pista, avançara pela direita, antecipando-se, e cortara-me a frente! Não corria, mas seria um acidente em uma avenida, numa curva, após uma grande reta.
Voltei-me novamente para dentro de mim e agradeci. Muito emocionado com o ocorrido, dei um grande “muito obrigado” para minha mente inconsciente, “meu tigre e todo mundo lá dentro”. Nem com um computador teria sido capaz de calcular e antecipar aquele fato. Nem sequer havia percebido, conscientemente, o carro à minha direita! Voltei-me mais uma vez para dentro de mim e propus um novo acordo para meu próprio “coração”: “Todas as vezes em que, dali em diante, para meu bem estar, integridade e segurança, for necessário retirar o meu controle consciente dos fatos, circunstâncias ou percepções, ou mesmo um seqüestro da minha consciência, então minha mente inconsciente terá total liberdade e autonomia para exercer suas deliberações!”.
Também pensei que, em muito poucas ocasiões temos a oportunidade de identificar verdadeiras relações causais. Em geral, as teias causais em nossas vidas são tão complexas e distantes no tempo e no espaço, que, raramente, ao afirmarmos que algo aconteceu por causa daquilo, ou fiz isso porque..., poucas vezes estamos sendo justos na avaliação dos fatos. Normalmente, são apenas justificativas que a conduta social aceita como plausíveis. Naquele episódio, entretanto, a proximidade no tempo e no espaço eram gritantes. Talvez, se o acidente evitado estivesse à frente um ou dois quilômetros, eu não tivesse lembrado ou relacionado as evidências. Voltei-me uma vez mais, então, para dentro de mim e agradeci por mais essa introvisão e aprendizagem.
Mais Evidências da “Outra Lógica”
Certa vez, chegando em casa às 11h30min, depois de uma manhã de treinamentos e aulas dadas na academia, tinha uma agenda lotada de pequenos compromissos: bancos, xerox, correio etc. Na época morava perto da Avenida Paulista, normalmente realizava essas tarefas sozinho e caminhando. Possuía um escritório em casa, além da academia. Era uma segunda-feira e, como tal, depois de um seminário de final de semana, ficavam inúmeras coisas para serem resolvidas no dia seguinte. Cheguei, troquei a fantasia e, rapidamente, saí. Era um dia no qual, provavelmente, nem teria tempo para almoçar antes das quatro horas da tarde... Acontece.
Saí, ainda meio atrapalhado. Entretanto, durante a descida do elevador do oitavo andar, onde morava, tive tempo para avaliar o que tinha em mãos. Descobri que faltava o documento mais importante que deveria levar. Cheguei ao térreo e voltei. Entrei novamente em casa, peguei o que necessitava, voltei ao elevador e chamei... Esperei... Esperei... Bati à porta... Nada... Aqueles poucos minutos pareciam horas... Escutei outras batidas à porta em outros andares... Enfim, chegou. Desci. Era um prédio de dois blocos com portaria dia-e-noite, e quando cheguei lá o porteiro não estava presente. Esperei alguns instantes, coloquei a mão pela grade para tocar a campainha do prédio, pois não possuía a chave do portão. E nada... A essa altura, eu, que contava os minutos no relógio, já estava contando os segundos. Finalmente, o porteiro apareceu ainda ajustando a fivela do cinto de sua calça. Pensei: “Estava fazendo algo de muito importante, porém, é o meu tempo que está se escoando...”.
Consegui chegar à rua. Caminhei com passos largos em direção ao meu objetivo. Chegando à primeira esquina, o semáforo se fechava para os pedestres. É uma região de intenso movimento de carros em horário comercial e, para gerenciar o fluxo de veículos da Avenida Paulista e imediações, a sincronização de semáforos tem intervalos de tempo extremamente dilatados – dependendo do horário, a demora é de um minuto ou mais! Só podia olhar o relógio e continuar a constatar o desperdício de tempo. Enfim, consegui atravessar aquela rua. Num ritmo ainda mais acelerado, caminhei a quadra seguinte até que, chegando à outra esquina, mais uma vez o semáforo se fechava para mim! Irritado e contrariado, lembrei-me das Leis de Murphy (naquele dia não valiam apenas as leis, era uma constituição completa!). Mais alguns momentos preciosos perdidos.
Consegui atravessar a rua. Na época, naquela esquina havia um prédio, no qual estava sediada uma empresa estatal. Caminhando mais vinte metros, exatamente à minha frente, pelo portão da empresa, saiu um grupo de umas quinze pessoas. Era um dia de sol, no inverno, hora do almoço... Na rua passavam muitos carros e, agora, à minha frente, várias pessoas estavam fazendo o merecido “turismo” na hora do almoço. Foi o limite da minha paciência e tolerância... Percebi que não conseguiria ultrapassá-los, então voltei àquele percurso de uns trinta metros, após acompanhar-lhes por alguns instantes, esperando uma oportunidade para passar. Decidi voltar e ir pela outra rua. Cada um de nós sabe quanto esforço é necessário para ser mais rápido que o grande público.
Chegando à Paulista, após subir a outra rua, pensei que recuperaria uma boa parte do tempo perdido se fosse de Metrô. Era apenas o percurso entre duas estações vizinhas, imaginei que seria bom. Cheguei às catracas e descobri que não tinha mais bilhetes em minha carteira. Para comprar um, enfrentei fila. Finalmente consegui entrar. Quem conhece a Estação Consolação do Metrô de São Paulo sabe que é uma estação muito profunda. Entrei na escada rolante, percebi que o trem estava lá embaixo, chegando. Quando atingi a base da escada rolante, as portas daquele carro estavam se fechando. Já estava então suficientemente bravo e irritado com tantos contratempos, sentia-me tão impotente que ao invés de chorar, ria sozinho. Tenso e incomodado ainda, alcancei o banco.
Estava preenchendo um formulário de depósitos quando passou por mim um amigo que eu já não via há mais de um ano... Uma pessoa muito importante para mim. Ele fora o meu primeiro cliente institucional, numa época em que construíra meu negócio de lazer, ainda um pouco inseguro enquanto empreendedor. Tinha criado uma nova metodologia do aprendizado do tênis e meus próprios colegas profissionais e instrutores condenavam minha abordagem. Naquela época estava “nadando contra a correnteza”. Ele, um profissional de altíssimo gabarito, tornara-se meu cliente e trouxera consigo parte dos funcionários de sua empresa. Apoiara abertamente meus métodos e resultados. Tornei-me amigo pessoal dele. Ele não pudera comparecer ao lançamento do meu primeiro livro, enviara-me um telegrama cumprimentando-me e desculpando-se e, desde então, nem havíamos nos encontrado. Ocasionalmente conversávamos por telefone. Finalmente, marcamos uma reunião para tratar de negócios... Fiquei muito feliz de encontrá-lo.
Terminei meus afazeres. Já estava na rua quando lembrei que não pegara o extrato e voltei. Enquanto operava a máquina de auto-atendimento, passou por mim uma amiga que já não via há uns oito anos. Ela fora minha colega no colegial, colega no Instituto de Física e minha aluna de Tai Chi Chuan. Cada um de nós mudou de endereço e perdêramos contato. Fiquei ainda mais feliz de encontrá-la. Um novo insight brotou, pensei: “ ‘Puxa vida’, se eu soubesse que iria encontrar essas duas pessoas tão caras, nesse momento, aqui no banco, eu teria me sentado na calçada da rua para esperar o tempo passar!!!” Também pensei que, se eu pudesse antever aqueles encontros, não teria desperdiçado “uma gota” sequer de bem estar e bom humor. Quão tolo eu tivera sido, abrindo mão dos bons sentimentos durante aquele percurso para o banco, empenhado em superar vários obstáculos. Não fossem aquelas dificuldades todas, não teria encontrado aquelas duas pessoas tão importantes para mim.
Poucas vezes, em nossas vidas, conseguimos observar a sucessão de eventos e fatos através de uma perspectiva mais ampla de tempo e espaço. Nessa dimensão de observação, em geral, as razões e sentidos que atribuímos aos eventos isoladamente são comumente transformados.
Algumas Conclusões
Reflita por alguns instantes: durante a leitura deste livro, talvez você tenha tido algumas novas idéias, realizado algumas descobertas, quem sabe até tomado algumas decisões. Ocasionalmente, algumas dessas histórias tenham tornado sua conduta um pouco mais tolerante ou macia consigo mesmo(a). Talvez até ampliado sua aceitação e compreensão. Caminhando por todas estas páginas, possivelmente no início estivesse em busca de uma solução milagrosa para algumas questões de aprendizagem de idiomas ou tenha definido alguns objetivos e metas que incluíssem algumas mudanças de percepções e de crenças. Pense bem, recupere as anotações sobre objetivos ou lembre-se das propostas iniciais e compare seus sentimentos atuais e clareza de objetivos para observar se houve alguma alteração espontânea.
Garantidamente, o novo paradigma proposto por este programa está sustentado e construído sobre as bases da aprendizagem inconsciente. Provavelmente, a essa altura algumas crenças e proposições aqui expostas tenham motivado sua permanência e insistência neste caminho. Para que a ativação e o resgate de tantos conhecimentos já adquiridos (ou em fase de conquista) em nível inconsciente sejam bem-sucedidos, além das técnicas e procedimentos de estudo e expressão, é fundamental termos atitudes adequadas de respeito, aceitação, confiança, carinho, fraternidade, justiça e eqüidade para consigo mesmo. Isso para que aquelas portas e janelas mentais e emocionais abertas durante o treinamento permaneçam assim. Entretanto, não servem somente para desejarmos e querermos coisas de nós mesmos, mas também para, principalmente, podermos seguir melhor o nosso próprio Caminho e identificar-Lhe melhor as sinalizações de direções, desígnios e necessidades.
A aprendizagem inconsciente é um caminho de mão dupla. Sugiro que nunca utilize estas técnicas para manipular seus sentimentos mais puros. Em minha opinião, não é para isso que elas servem. Muitos praticantes de Hipnose e PNL têm falhado ou sido conduzidos a maus resultados, creio, por fazer uso destas tecnologias sem a atitude correta.
Sendo a PNL uma metodologia relacionada com a aprendizagem, observo que muitos praticantes que buscam a excelência em seus instrumentos raras vezes se dispõem a trilhar o caminho do aprendiz (ou da excelência) em outros “territórios” além do conhecimento das técnicas. Parece-me que a sede de poder e de controlar os acontecimentos da vida, muitas vezes, ofuscam a simplicidade e a poesia da existência. Não conheço nenhum oráculo melhor do que a observação da própria realidade!
Retornando uma vez mais, pense bem, tudo aquilo que até hoje em sua vida porventura você tenha chamado de bloqueios (como, por exemplo, bloqueio para falar outra língua), na pior das hipóteses, o(a) conduziu a buscar e procurar experiências, seja consciente ou inconscientemente, durante as quais você conquistou uma série de habilidades e conhecimentos desconhecidos para qualquer outra pessoa que não tivesse tais dificuldades. Se assim não fosse, você nem teria razões verdadeiras para adquiri-las nem sentido para essas buscas.
Nesses caminhos você adquiriu sua competência e individualidade únicas... Graças a esses obstáculos no caminho. C. G. Jung, psicanalista originalmente discípulo de Freud, dizia que, no caminho da elevação humana, o resgate de dimensões perdidas, esquecidas e renegadas, era uma etapa fundamental, metafórica e simplificadamente chamada de “abraçar a própria sombra”. Pense bem agora, numa perspectiva mais ampla de tempo e espaço, por quais caminhos você foi conduzido ou forçado a trilhar, graças a esses limites? Aquilo que até hoje talvez tenha considerado como bloqueios e que eu prefiro chamar de “Guardiães do Passado”, por que lugares eles forçaram você a caminhar, de modo que ao longo deste percurso tenha conquistado ou encontrado suas melhores qualidades, “ferramentas” e habilidades na vida? Perceba que, ao observar retrospectivamente através dessas “lentes”, muitos eventos e fatos ganham um novo colorido em sua memória, e talvez até algumas evidências, tais como sensações, sentimentos ou percepções, se apresentem à sua consciência, enfim, descortinando novos horizontes de existência.
Sim, a aprendizagem inconsciente (essas “portas e janelas” a serem abertas) possui segredos que nem sempre estão aparentes! Levianamente, às vezes, consideramos que sejam ingerências dessas dimensões da nossa existência, não nos proporcionar o acesso livre às suas informações e descobertas. Mas não, elas possuem “uma outra ordem”, “numa outra aula”!
Seguindo em Frente por Caminhos Tortuosos
Tive uma amiga que conheci há alguns anos num programa de treinamento, muito inteligente e muito culta. Quando a conheci, entretanto, observei que sua saúde não parecia muito boa – tinha uma rarefação nos cabelos. Participamos juntos de uma delegação comercial do Sebrae/SP, enviada para uma Rodada de Negócios do Mercosul (ainda jovem, na época) em Montevidéu, no Uruguai, com duração de três dias. Pudemos conversar mais calmamente durante a viagem pois, por coincidência, regressamos juntos antecipadamente.
No dia da minha ida, um amigo que me levaria ao aeroporto perdeu a hora pela manhã e eu, já bastante atrasado, peguei meu carro para chegar a tempo. Para viajar, deixei-o no estacionamento do aeroporto. No retorno, por fim, tinha o carro à minha disposição. Levei-a para casa. Durante o caminho (era no Butantã), pedi licença para falar de sua saúde – algumas vezes presenciara alguns comentários rápidos, na viagem. Ela consentiu. Perguntei-lhe a origem do problema, que, embora resolvido, mantinha sua saúde atual dependente de medicamentos e com algumas seqüelas. Contou-me que fora uma infecção no sangue ou na medula, não me lembro bem, e que estivera às portas da morte, hospitalizada por mais de seis meses na Alemanha – não havia tratamento no Brasil. Ao falar daquele mal, sua expressão facial ficara transtornada, observei enquanto dirigia.
Dissera, repetidamente, que sofrera muito e que aquela doença fora muito violenta. Enfrentara a morte, insistentemente. Talvez, faltando-me um pouco de sensibilidade perguntei-lhe, se fosse possível voltar no tempo e retirar do seu caminho aquelas experiências tão duras, se ela gostaria de não ter vivido tais situações. Sem hesitar respondeu que sim e até questionou minha sanidade ao fazer tal pergunta. Disse que não desejaria tais condições nem ao pior inimigo... Enfim, agora o solo estava fértil... Mudei de assunto e perguntei-lhe sobre sua vida naquela época (de nossa viagem). Contou-me algumas coisas muito interessantes sobre suas conquistas, seu desprendimento, sua coragem empreendedora, sua desenvoltura e liberdade, seu amor pela vida e sua simplicidade... Mais uma vez questionei, teria ela sido sempre assim? Afirmou que não, que, em outras épocas, era comedida, medrosa, dependia muito da opinião dos outros, era uma “dondoca” (conforme suas próprias palavras).
Perguntei-lhe, finalmente, se aquela doença tivera alguma relação com essa transformação, se tivera sido um “divisor de águas” em sua vida. Sim, eu estava no caminho certo. Então lhe propus uma nova escolha em fantasia: “Suponhamos que você pudesse voltar ao passado e evitar todo o drama e terror que aquela doença proporcionou a você, como ponderei agora há pouco. Porém, tendo evitado esse caminho, você não teria se tornado a pessoa que é hoje! Pense bem, seus valores, princípios, anseios e hábitos, provavelmente, seriam os antigos... Ainda assim gostaria de ter tido outra história?” Sua tensão facial “caiu”. Insight! Touché!
Outras Faces da Mesma Moeda
Certa vez, um grande mestre afirmou: “Se você quiser ser mais organizado, você também deve praticar a desorganização; se quiser mais vitalidade, deve também praticar mais descanso; se quiser mais concentração, deve ainda praticar a desconcentração (ou descontração); se quiser mais controle, deve praticar o descontrole!!!” Essas palavras operaram em minha mente como um vírus em um computador: “rasgando” a estrutura de meus pensamentos. Eu já reconhecia a sua maestria e aprendera muitas coisas valiosas com esse professor. Meu coração disparou e me lembrei de uma experiência que vivera e que, de alguma forma, sustentava a possível realidade daquelas palavras. Na prática do Tai Chi Chuan, existe um estágio no qual, dependendo do estilo praticado, para adquirirmos mais velocidade, rapidez e eficácia nos gestos marciais, devemos praticar cada vez mais lentamente (sem perder a fluidez). Ao constatar a veracidade dessa proposição no mundo real, comecei a praticar os gestos do tênis de uma forma mais consciente e lenta. Também pude observar experimentalmente um incremento na velocidade e ritmo do meu jogo!
Dessa forma, elaborei uma nova metodologia de aprendizado e treinamento desse esporte para, especialmente, ensinar adultos de uma forma mais leve, agradável e natural, levando em conta seu eventual despreparo físico e irregularidade em treinamentos. Chama-se Hermann’s Light Tennis. Portanto, minhas experiências pessoal e profissional foram a base de sustentação para trazer à minha consciência a natureza profunda daquela aparente contradição. Levei alguns dias para digerir e metabolizar aquelas palavras, para aceitá-las e torná-las parte de mim.
Às vezes penso que, semelhante a uma abordagem paradoxal e contraditória, tipicamente Zen, os maiores mestres do pensamento e comportamento ocidentais possuem também uma forma bem humorada e mordaz de nos oferecer as pérolas de seu conhecimento através de proposições, inicialmente, incompreensíveis, porém, consistentes.
Conclusões
Como você talvez tenha observado, a experiência humana é bastante universal. Isso, em muitos momentos, mesmo que tentando resistir, talvez tenha trazido à sua mente alguns fatos semelhantes que vivera ou experimentara ao longo de sua vida. As minhas histórias... Elas são somente cenários!!! Sejam quais forem os dramas ou conflitos, talvez sejamos todos muito mais irmãos nessas dimensões de existência do que simplesmente por parecermos todos física e estruturalmente iguais: olhos, boca, pernas, braços, coração etc. Neste palco, então, na nossa consciência, se desenrola uma grande peça na qual os personagens sejam, talvez, um pouco diferentes, os cenários idem, mas as relações e interações, muito semelhantes. Até que possamos passar para o próximo enredo.
Se você considerou muito monótona esta parte do livro, imagine que ela não foi escrita para as suas necessidades conscientes. Porém, se você gostou e até concluiu que este não é um livro apenas sobre aprendizagem de idiomas, fico muito feliz, mais uma vez, de ter tido a oportunidade de participar da organização deste programa com esta configuração. Isso faz parte daquela dimensão transcendente, tão esquecida, de nossa educação.
Resumo
Volto a propor uma solução para a questão da libertação humana de seus “bloqueios”. Confie em sua mente inconsciente: se existe algo que você acredita ser chamado de destino (e que eu prefiro considerar como destinos possíveis alternativos), saiba que, em minha opinião, somente dentro de si, explorando seus sentimentos, reações e comportamentos, encontrará quais são os seus de direito!
Tarefa
Reviva as passagens propostas na ABORDAGEM INTUITIVA tantas vezes quanto sentir necessário. Compare-as com os eventos correspondentes em sua vida até que possa ver através deles alguns fatos, um padrão no seu caminho. Quando conseguir abstrair esse sentido maior, será muito mais fácil encontrar a real natureza de sua jornada. Perceberá também que os sentimentos vão e vêm até que tenham se equalizado em suas tensões. Tenha fé, isso é ser humano. Bem-vindo, se não for em busca de seu próprio caminho, mais cedo ou mais tarde “a vida virá te pegar”. Cuide-se.