Prólogo

“O mais genuíno dos sentimentos religiosos
não é o amor, como muitos acreditam.
É, sim, a perplexidade”

Miriam Morata Novaes

Acredita-se que existem dois tipos de conhecimento: aquele que não sobrevive a uma ou duas gerações e aquele que se perpetua através de milênios.

Certamente, essa é uma forma mais segura de avaliar a profundidade e integridade dos conhecimentos que buscamos. Muitas civilizações ocuparam-se de desvendar essa segunda natureza do saber. E serviram de fonte de inspiração para a elaboração desta despretensiosa série de livros.

Não obstante, por mais perenes que possam ser as Grandes Tradições da humanidade, ainda assim elas evoluem e se modificam em suas formas de apresentação. Afinal de contas, o ser humano de cada era habita diferentes cenários, embora deva manipular forças de naturezas semelhantes.

Somos diariamente convidados a meditar sobre a natureza da vida e da morte. Em cada dia de nossas vidas há coisas que se iniciam e que terminam. Porém, geralmente nos absorvemos em observações mais superficiais, desprezando o sentido mais profundo das coincidências e milagres da existência cotidiana.

Se você acredita que milagre é um cego ver ou um aleijado andar, então está desprezando evidências muito mais significativas que, por serem cotidianas, passam despercebidas. Pense, quantas eras foram necessárias para que a vida se expressasse na forma que possui hoje, como a percebemos?

Muito poucas pessoas, no atual estágio de nossa evolução e interação humana são capazes de atravessar essa existência sem a necessidade de se empenhar em uma busca ou solução de alguma natureza. Quase todos temos nossos dramas existenciais ou materiais.

Enfim, viver melhor é estar preparado para aceitar aquilo que nos é ofertado. Sendo que, em algumas ocasiões, não podemos recusar e, em outras, não conseguimos desistir dos desafios que se interpõem em nosso caminho.

Portanto, prepare-se... Pois, mais cedo ou mais tarde, a vida vem te pegar! Até mesmo aqueles que preferem uma ou mais existências de sombra e água fresca... Por quanto tempo conseguirão descansar ou abrir mão de seus desafios antes que sua força interior os comece a queimar por dentro?

A permanente mudança e transformação de nosso mundo nos oferece, além de tudo, ocasiões de agirmos com criatividade e inovação. Os antigos modelos de comportamento e pensamento perderam sua efetividade. Aqui está nosso maior drama, poucas soluções do passado servem nesta época!

Pense bem, iniciamos a subida de uma longa escada chamada vida. Por muitos anos, lenta e cuidadosamente, subimos degrau por degrau com maior ou menor empenho. No começo, talvez nem tenhamos escolhido os primeiros passos.

Somente quando atingimos uma certa altura é que possuímos uma certa compreensão de nossa existência. Ainda subimos mais, em busca dos prêmios que nos contaram ser importantes. Num determinado momento, atingimos uma visão panorâmica de nossa subida... De um ponto de vista mais alto e privilegiado...

Entretanto, nesses momentos, muitas vezes nos damos conta de que nossa escada estava encostada na parede errada! Que vivemos diligentemente a vida de outra pessoa! E agora?

Então, dar a nós mesmos a oportunidade de iniciar nossa própria vida ou buscar um sentido para a vida que construímos pode se tornar um dilema extremamente profundo... E somente nosso coração, sentimento e intuição podem ser capazes de nos guiar.

Abrir os ouvidos e percepções para essa dimensão de nossa própria existência, seja por necessidade, seja por ímpeto de resgatar a si mesmo na vida, dependerá de uma nova forma de ser... Nessas oportunidades, permitir a mudança pode ser comparado, numa metáfora, a um profundo renascimento, antes do qual devemos ter a sabedoria e coragem de aceitar o fim.

Nesse sentido, permitir que uma forma de ser encontre seu final é uma grande arte. Essa tem sido a principal atitude daquelas pessoas que conquistam suas vidas após os grandes golpes que se apresentam na forma de doenças graves ou sérios riscos de vida.

Mesmo aqueles que testemunham os milagres que mais comovem a grande massa. Ainda esses renascem ou encontram sua nova existência apenas quando aceitam o seu próprio fim. Há também aqueles que desistem, consciente ou inconscientemente, por não ter em suas memórias os necessários exemplos de esperança e transformação.

Por isso, cada ser que se salva do Desconhecido ganha, junto com sua nova vida, também o compromisso de contar a seus semelhantes a existência de possibilidades, de esperança, de fé.

Assim nasceu esse empreendimento. Dessa forma ele pode ser compreendido... Como um testemunho de fé e esperança que contribua para a construção de um mundo melhor para todos nós.

Isso não significa que podemos encontrar tudo pronto. Nem que a pressa em aprender possa garantir a serenidade que possui o homem do campo em saber que a natureza possui seu próprio tempo de amadurecimento.

Histórias que Libertam são uma coletânea de vários casos e episódios de minhas buscas em equacionar e solucionar minhas próprias dúvidas a respeito da existência. Para mim, muitas delas são como jóias.

Em cada momento chegaram a mim como experiência própria ou como presentes da Providência através de outras pessoas. Espero que possam oferecer a cada leitor os mesmos sentimentos e compreensão que me ensinaram. Esta próxima me manteve em êxtase por muito tempo.

Cinco Maridos

Um grande mestre contou-me uma história bastante esclarecedora para concluirmos, finalmente, as atitudes importantes para continuarmos nosso caminho.

Era sobre um amigo seu, americano, também cientista do comportamento e divorciado há alguns anos. Há algum tempo vinha se relacionando com uma moça pela qual se apaixonara.

Como terapeuta, observava em seu consultório que seus clientes, individuais ou casais, traziam um conjunto de evidências de que, ao se casarem novamente, após uma separação anterior, muitas vezes “mudava-se apenas a carteira de identidade” do(a) novo(a) companheiro(a); os dramas e dificuldades de relacionamento permaneciam, apesar de terem escolhido um novo par.

Isso, cedo ou tarde, condenava uma nova relação, conduzindo-a a um antigo problema e mais um impasse. Sabia, no entanto, que também tinha contribuído para o fracasso de seu primeiro casamento.

Tinha medo de que agora, ao casar-se novamente, repetisse os mesmos erros. Seu dilema contrapunha seu interesse presente pela moça à sua experiência profissional, que lhe indicava a possibilidade de um novo fracasso por antigos problemas.

Confidenciara seu drama a alguns amigos dispostos a convencê-lo a arriscar-se novamente. Um desses, ao convidá-lo para uma festa, oportunamente, durante a reunião, mostrou-lhe, entre os presentes, um casal que já comemorara bodas de trinta e cinco anos.

Interessado e curioso a respeito dos segredos de tal sucesso no casamento, aguardara ansiosamente uma oportunidade de se aproximar e conhecer o casal, ou um dos dois, e descobrir-lhes a receita do sucesso.

Finalmente surgiu a ocasião propícia; aproximou-se no momento em que a senhora fora se servir à mesa, ao afastar-se do marido. Iniciou uma conversa, apresentou-se e contou-lhe a curiosidade.

Quando aquela senhora ouviu que, supostamente, estava casada havia trinta e cinco anos, franziu a testa e negou: “Não, não, não. Nesses anos todos eu tive cinco maridos!”.

Desconcertado e surpreso, tentou desculpar-se pelo mal-entendido, enquanto a senhora, sem perder o ritmo, começou a contar-lhe, mantendo a elegância, como tivera sido sua vida:

“O meu primeiro marido... Éramos jovens, apaixonados, ele me trazia flores, passeávamos muito, viajávamos...”. Contou várias aventuras e episódios. “... Até que, um dia, nasceu meu primeiro filho. Então tudo mudou e... Meu marido me abandonou...”.

Chocado com o acontecido, porém, o terapeuta não teve tempo de expressar sua surpresa. A senhora prosseguiu:

“O meu segundo marido era um homem muito sério, estudava muito, passava horas e horas trancado em seu escritório, muitas noites nem sequer dormia... Eu aprendi a amá-lo e respeitá-lo. Aprendi muito com sua disciplina e determinação. Um dia, porém, ele também me deixou...

“Meu terceiro marido era um homem muito trabalhador, muito honesto e também muito reconhecido profissionalmente. Tinha muitos amigos e viajava muito. Eu tive que me desdobrar para dar conta de todas as atribuições que me sobravam enquanto ele estava fora. Nessa época, eu já tinha três filhos. Mas ele, um dia, também se foi...

“Meu quarto marido era um homem muito famoso, muito sociável, vivíamos em jantares, festas, coquetéis e reuniões. Muitas vezes eu recebi convidados e pessoas em casa. Aprendi a conviver com ele e também a amá-lo muito. Era um homem muito distinto e elegante... Um dia, porém, ele também foi embora...”

O terapeuta, já desconfiado ao ouvir esta última parte da história, teve então plena certeza quando a senhora começou a contar sua vida com o seu quinto marido... Sim, ela estivera, o tempo todo, falando da mesma pessoa.

Tivera “cinco maridos”, porém apenas um casamento! De uma forma sábia, entretanto, percebera que seu caminho se delineava a partir de uma sucessão de fases e papéis diferentes de acordo com o momento da vida. E cabe a nós identificá-los, aceitá-los e assumi-los ao percorrermos nossa jornada.

É uma grande arte saber e perceber, em cada fase de nossas vidas, o momento oportuno de aceitar as mudanças e deixar-se transformar, acompanhando o fluxo natural dos acontecimentos.

Um grande amigo contou-me uma experiência muito interessante...

Sabedoria de Mergulhador

Certa vez, enquanto praticava mergulho autônomo, viveu um episódio curioso. Tais mergulhadores “descem” sempre em pares. Mesmo sendo um grupo maior naquela expedição. Isso por uma questão de segurança em qualquer eventualidade de perigo ou falha de equipamento.

Ao retornar da exploração, devem parar e aguardar alguns minutos em algumas profundidades, para completar o processo de descompressão, caso contrário correm sério risco de morrer por embolia.

Nessa ocasião, havia uma forte tempestade na hora do retorno ao barco. E vários mergulhadores estavam retornando ao mesmo tempo. Enquanto aguardavam a descompressão e a oportunidade de subir ao barco, havia uma corda na qual podiam se segurar para não se afastar do navio enquanto a tempestade balançava tudo.

Agarrado à corda, começou a sentir náuseas por causa da forte oscilação do barco. Foi progressivamente se sentindo pior... Até que seu amigo conseguiu comunicar-lhe: “Largue a corda!!! Largue a corda!!!”.

Nesse momento, então, percebeu que estava preso aos movimentos do barco... Ao soltar a corda, retornou ao equilíbrio natural da flutuação, imerso na água.

Conseguir organizar as experiências de vida e nossas memórias de uma forma mais útil e agradável nos proporciona melhores condições de avaliar, compreender e inferir o sentido dos fatos.

Não obstante, há momentos em que misturar algumas certezas pode ser bastante oportuno! Pense bem, quando as coisas vão mal, também são as nossas certezas que nos colocam em tais circunstâncias. Nessas ocasiões pode ser de muito valor afrouxá-las.

Ou, no mínimo, compreender que nossas verdades podem ser extremamente parciais. Válidas apenas em determinadas situações. Siga adiante para compreender melhor esse pensamento.

Verdades Profundas

Mesmo que todo esse assunto ainda esteja muito estranho para você, quero apresentar mais um “lubrificante”: faça uma lista de adjetivos ou qualidades que você atribui a si próprio ou que as pessoas atribuem a você.

Sim, algo simples, não complique. Minha lista seria: eu sou alto, loiro, quase careca, magro, tenho boa coordenação motora, sou teimoso, alegre etc.

Anote essas qualidades ou defeitos em uma coluna à direita de uma folha de papel. Agora, na outra coluna, ao lado de cada um daqueles adjetivos, escreva o antônimo correspondente (a idéia ou qualidade exatamente oposta).

No meu exemplo, teria escrito: baixo, moreno, gordo, desastrado ou atrapalhado, adaptável, triste, “anti-etc”. Agora observe que existem pelo menos dois tipos de adjetivos diferentes. À primeira categoria quero dar o nome de “Verdades Simples”: alto/baixo, loiro/moreno, magro/gordo etc. Ao considerarmos verdadeiro o primeiro dos adjetivos, o segundo é automaticamente falso.

Então, “Verdades Simples” são aquelas cuja negação é uma mentira: se eu sou magro, estarei mentindo ao afirmar que sou gordo.

Porém, existe uma segunda categoria de verdades, e estas nós não aprendemos na escola. Se tivéssemos aprendido, nosso hábito de julgar e pré-julgar os acontecimentos teria se estruturado de forma diferente.

Essas são as “Verdades Profundas”: “Muito prazer em conhecê-las!”. Observe. Estarei falando a verdade quando afirmo que sou alegre; também estarei falando a verdade se afirmar que também sou muito triste, pelo menos em algumas ocasiões.

Neste momento, percebemos que ser alegre ou ser triste não se refere a uma questão de identidade, mas sim de estado! Verdades Profundas são aquelas cuja negação também é uma verdade. E acredite, o universo humano está muito mais povoado de verdades profundas do que de verdades simples.

Em se tratando da dinâmica de nossa mente inconsciente, muitos paradoxos podem coexistir, pois, lembre-se, somos o conjunto das várias pequenas consciências de nossas células, tecidos e órgãos. Essa é uma forma útil de compreender a estrutura de nossa mente inconsciente, embora não seja significativo se é ou não verdade.

Talvez por isso tantas vezes nos encontremos conversando ou negociando com nós mesmos, utilizando nossa voz do pensamento ou voz interior. Para compreender ainda melhor essas propostas, tive uma experiência que ilustra ainda mais essa maneira de lidar com as verdades profundas.

Podemos compreender cada uma dessas formas de ser como uma dimensão de expressão interior. Lembre que, na dimensão de nossa existência interior, somos vários! Na próxima história, essa múltipla dimensão de existência vai ficar ainda mais evidente.

O Menino que Quebrava Brinquedos

Um dia, em uma palestra, durante os instantes reservados às perguntas, recebi a seguinte: “Eu tenho um filho de nove anos que destrói todos os seus brinquedos. Tenho dito a ele, repetidamente, que não comprarei mais brinquedos se ele não aprender a cuidar bem dos que possui. Mas você sabe como a gente é, eu não resisto, compro outro e a história se repete... O que você tem a dizer sobre isso?”.

Respondi a ela que teria, de fato, três respostas para aquela pergunta: “A primeira, talvez a mais importante, é que você não deve acreditar em nada do que eu disser, pois não tenho filhos; a segunda é que eu também fui uma criança que quebrava muitos brinquedos. Mas eu não os jogava no chão para saber se resistiriam ou quebrariam. Eu observava, comparava, desmontava etc.

“Acredito que a criança que quebra brinquedos é, em geral, aquela que busca entender a estrutura de funcionamento do mundo material, e que quebrar brinquedos seja apenas uma fase de comportamento não intencional (fase de exploração), existente dentro de um processo maior que podemos chamar de compreensão do funcionamento do universo físico – suas possibilidades, suas limitações.

“Enfim, avancei desenvolvendo uma boa habilidade de consertar brinquedos. Concluo, ao observar outras crianças que quebram brinquedos, que são as mesmas que, num futuro, consertarão e até construirão.

“Então você poderia entender o seu dinheiro como sendo investido em proporcionar um campo de exploração para seu filho aprimorar a habilidade manual e desenvolver a capacidade motora e de observação.

“A terceira resposta talvez te incomode um pouco, porém pode ser a mais significativa para você: de todas as ocasiões em que você repetiu aquele tipo de repreensão, dias, situações, lugares e brinquedos diferentes, a única coisa que se manteve constante foi a sua incongruência!

“Pense bem, o que você está realmente ensinando, inconscientemente, a seu filho é que os adultos não fazem o que dizem, e que não dizem o que fazem. Você, nas entrelinhas do seu comportamento, está ensinando essa criança a te manipular!

“Então, sugiro que, de agora em diante, nunca mais diga que ‘não vai mais dar brinquedos’ ou nunca mais dê enquanto permanecer afirmando essa frase!”

Verdadeiramente, a realidade de nossas vidas pode apresentar muitas dimensões de compreensão simultâneas. Conseguir gerenciar algumas delas com criatividade e auto-respeito é uma grande arte, que atualmente pode ser compreendida como sendo nossa inteligência intrapessoal ou espiritual.

Fomos dotados de inúmeras potencialidades... Mas ninguém nos deu um manual de instruções para sabermos onde encontrar essas preciosidades! Já pude observar isso inúmeras vezes, e a história seguinte ilustra minha certeza disso.

Deslocamento de Identidade

Durante um seminário, propus aos participantes que expressassem algumas idéias e percepções depois de se imaginarem como um cinzeiro. Isso mesmo, se você fosse um cinzeiro...

Um dia, uma participante, espantada ao final da brincadeira, comentou que sua linguagem, durante a realização do exercício, tornara-se inusitadamente clara, objetiva e direta – isso nunca tinha acontecido!

Por que o espanto? Ela era jornalista! Imaginem, propus a ela que, nas próximas ocasiões de sua vida, quando fosse útil ou necessário um discurso mais objetivo, ela se imaginasse novamente um cinzeiro.

Esse recurso estava dentro dela mesma, porém, talvez não estivesse disponível para seu uso por causa de limites aprendidos e da identidade que ela havia construído para si própria.

Universos Paralelos

Efetivamente, temos ouvido dos cientistas que só nos utilizamos de 5% de nossas capacidades mentais. Alguns talvez afirmem que nos utilizamos dos 100%, porém de uma forma muito pouco útil. Mas... Pensamos quase 24 horas por dia. Vamos dormir pensando... Acordamos pensando... Durante a noite, para ir ao banheiro, ainda pensamos!

Onde sobra tempo para aprendermos a nos utilizar melhor dos outros 95%? Fique feliz, então. Todas essas dimensões de nossa existência têm atividade permanente, porém, para a maior parte das pessoas, fora da consciência normal de vigília.

Essas nossas possibilidades são tantas que, embora ainda não tenhamos construído um bom manual de instruções de nossas potencialidades, diariamente alguém descobre algo novo e surpreendente.

Aprendendo a Ver

Pense no nosso entendimento do processo de visão. Um cientista fez uma experiência que comprova que não vemos com os olhos apenas. Esse experimento foi realizado com gatos, pois é o animal que possui o sistema nervoso mais parecido com o dos seres humanos.

Foram preparados dois grupos de filhotes bem pequenos. O primeiro grupo foi tratado e alimentado como se tratam normalmente esses animais, permitindo-se que tivessem uma infância, crescimento e amadurecimento normais.

Quanto ao segundo grupo, foram colocados em cestinhos especiais e individuais, com excepcional conforto, de modo que não precisavam se mexer para nada: a própria alimentação e a água eram oferecidas em mamadeiras ou “na boca”. As condições de temperatura e umidade também eram controladas.

O surpreendente é que todos esses gatinhos do segundo grupo estavam completamente cegos quando adultos! Concluiu-se dessa pesquisa que a visão é um aprendizado do corpo inteiro! Desenvolvida de acordo com nossa mobilidade e a partir de nossa prática de exploração do mundo.

Visão Artificial

Outro pesquisador construiu um equipamento especial constituído de uma câmera de vídeo na qual as imagens captadas numa superfície sensora (de microcélulas fotoelétricas) transmitia, através de pequenos fios, os “estímulos elétricos” (de baixa intensidade) para a superfície da pele do braço de um cego de nascença.

Embora não seja possível saber com que precisão ou “nitidez”, o surpreendente é que, após alguns meses, esse cego podia “enxergar” através daquela câmera de vídeo! Ele aprendera a decodificar aquelas sensações provenientes dos pequenos estímulos elétricos na forma de uma representação de seu “ambiente visual”!

Esses breves experimentos nos convidam a crer na rara capacidade de aprendizado e adaptação de nosso sistema mente-corpo. Em relação aos gatinhos, ainda nos mostra que não desenvolvemos aquilo que não utilizamos.

Dessa forma, os desagradáveis sentimentos que acompanham ou decorrem de uma má notícia sobre nossa saúde ou perspectivas de futuro são apenas uma forma drástica de o nosso mundo interior romper o antigo e estimular o desenvolvimento de habilidades ainda não exercitadas.

Medo, solidão, abandono, revolta e os motins são reações naturais e saudáveis ao grande “parto” que representa grandes mudanças e transformações, nas quais nos descobrimos isolados e à disposição exclusiva de nossas próprias forças (grande parte das vezes ainda não exercitadas!).

Verdadeiramente, a depressão ou os maus sentimentos que se apresentam naturalmente quando encontramos um obstáculo muito grande em nosso caminho, como no caso de doenças sérias ou a antevisão do fim, provavelmente já foram vividas ao máximo quando nascemos. Sim... No nosso próprio parto!

Pense bem, ao nascermos, trocamos um ambiente de extremo conforto, bem estar e segurança (na maior parte dos casos, evidentemente) pelo desconhecido e frio ambiente exterior ao útero de nossa mãe. Imagino que seja por essa razão que alguns bebês lutem contra o parto.

De forma semelhante será o processo de reconquista da vida e da saúde. Um novo aprendizado num novo contexto e, ocasionalmente, novo ambiente.

O curioso é que esse fato se repete inúmeras vezes durante a nossa vida. Embora as borboletas, aparentemente, só vivam isso em três ocasiões em suas vidas (quando saem dos ovos na forma de lagartas; como crisálidas, dentro do casulo e, finalmente, como as borboletas que conhecemos).

Essas transformações profundas ao longo da existência, assinaladas elegantemente pela natureza das borboletas, está presente em toda a vida, de formas mais evidentes ou escondidas.

Além disso, essa é uma metáfora poderosa para compreendermos a essência das transformações, mortes e nascimentos pelos quais os seres vivos passam.

Mais do que isso. Pense no que aconteceria se em alguma dessas transições a lagarta ou a crisálida se recusassem a aceitar a nova condição. Ou o que aconteceria se o bebê fosse bem-sucedido em sua tentativa de permanecer no ventre de sua mãe, contrariando o fluxo dos eventos naturais.

Seguindo em Frente por Caminhos Tortuosos

Tive uma amiga que conheci há alguns anos num programa de treinamento, muito inteligente e muito culta. Quando a conheci, entretanto, observei que sua saúde não parecia muito boa – tinha uma rarefação nos cabelos.

Posteriormente, participamos juntos de uma delegação comercial de São Paulo, enviada para uma Rodada de Negócios do Mercosul (ainda jovem, na época) em Montevidéu, no Uruguai, com duração de três dias. Pudemos conversar mais calmamente durante a viagem de volta pois, por coincidência, regressamos juntos antecipadamente.

No dia da minha ida, um amigo que me levaria ao aeroporto perdeu a hora pela manhã, e eu, já bastante atrasado, peguei meu carro para chegar a tempo. Para viajar, deixei-o no estacionamento do aeroporto. No retorno, por fim, tinha o carro à minha disposição. Levei-a para casa.

Durante o caminho, pedi licença para falar de sua saúde – algumas vezes presenciara alguns comentários rápidos, na viagem. Ela consentiu. Perguntei-lhe a origem do problema, que, embora resolvido, mantinha sua saúde atual dependente de medicamentos e com algumas seqüelas.

Contou-me que fora uma infecção no sangue ou na medula, não me lembro bem, e que estivera às portas da morte, hospitalizada por mais de seis meses na Alemanha – não havia tratamento no Brasil. Ao falar daquele mal, sua expressão facial ficara transtornada, observei enquanto dirigia.

Dissera, repetidamente, que sofrera muito e que aquela doença fora muito violenta. Enfrentara a morte, insistentemente. Talvez, faltando-me um pouco de sensibilidade perguntei-lhe, se fosse possível voltar no tempo e retirar do seu caminho aquelas experiências tão duras, se ela gostaria de não ter vivido tais situações.

Sem hesitar, respondeu que sim e até questionou minha sanidade ao fazer tal pergunta. Disse que não desejaria tais condições nem ao pior inimigo... Enfim, agora o solo estava fértil... Mudei de assunto e perguntei-lhe sobre sua vida naquela época (de nossa viagem).

Contou-me algumas coisas muito interessantes sobre suas conquistas, seu desprendimento, sua coragem empreendedora, sua desenvoltura e liberdade, seu amor pela vida e sua simplicidade... Mais uma vez questionei, teria ela sido sempre assim?

Afirmou que não, que, em outras épocas, era comedida, medrosa, dependia muito da opinião dos outros, era uma “dondoca” (conforme suas próprias palavras). Perguntei-lhe, finalmente, se aquela doença tivera alguma relação com essa transformação, se tivera sido um “divisor de águas” em sua vida. Sim, eu estava no caminho certo.

Então lhe propus uma nova escolha em fantasia: “Suponhamos que você pudesse voltar ao passado e evitar todo o drama e terror que aquela doença proporcionou a você, como ponderei agora há pouco...”

“Porém, tendo evitado esse caminho, você não teria se tornado a pessoa que é hoje! Pense bem, seus valores, princípios, anseios e hábitos, provavelmente, seriam os antigos... Ainda assim gostaria de ter tido outra história?”. Sua tensão facial “caiu”. Insight! Touché!

Simbolicamente falando, podemos compreender essa experiência vivida por minha amiga como uma verdadeira morte! No mínimo, se for muito gritante essa idéia, podemos admitir que uma antiga forma de ser, sentir, pensar dela realmente deixou de existir para dar lugar a uma outra forma de expressão e existência.

Esse é um fato comum, um padrão constante, entre aquelas pessoas que podemos chamar de sobreviventes em nosso mundo. Todas elas aceitaram uma nova condição de ser e existir, uma nova identidade.

Se fizermos uma breve busca no nosso próprio passado, um panorama interessante se revela. Pense bem, um dia você teve sete ou nove anos de idade... Naquela época você pensava, sentia e agia de determinadas formas... Talvez sonhasse com um certo futuro e brincasse de maneiras específicas.

Provavelmente também tivesse uma série de perguntas que, certamente, não foram todas respondidas satisfatoriamente.

Ao completar dezesseis ou dezoito anos, ao recordar-se daquelas formas de ser enquanto criança, possivelmente concluísse que aquela identidade, de alguma forma, tivesse deixado de existir. Simbolicamente, aquela criança morrera...

Mesmo que você tivesse incorporado muito de seu temperamento ou hábitos. Aqueles pensamentos, sentimentos e formas de agir já tinham se tornado bem diferentes... Os sonhos e formas de diversão, também.

Mesmo aquelas perguntas... Ou ganharam um novo colorido, maior compreensão e uma resposta diferente ou perderam o seu sentido original. Possivelmente se transformaram em outras questões, um pouco mais profundas.

Se hoje você possui mais idade e pode se lembrar daquela época de adolescente ou jovem maturidade, com certeza chegará à conclusão de que mais uma vez as coisas mudaram.

Ora seus interesses mudaram, ora suas preocupações, sonhos, desejos, compreensão do mundo, das coisas e da vida. Também as emoções, as ações etc. Aquelas formas de ser deixaram de existir e deram lugar ao nascimento de outras... E você renasceu!

A compreensão da vida vai mudando naturalmente. Porém, como permanecemos com nosso próprio corpo por muitos anos, isso nos proporciona uma falsa ilusão de continuidade no tempo. E muitos mitos, fantasias e fantasmas se cristalizam por falta de tempo de observarmos e refletirmos sobre o viver.

Como a borboleta, vivemos várias vidas dentro de nossa existência; pelo menos seis delas são muito compreendidas socialmente falando: nascimento (biológico), infância, adolescência, maturidade, velhice e morte.

E, embora tenhamos vários diferentes papéis para interpretar em cada fase de nossa vida, isto é, comumente temos hábitos e comportamentos diversos em nossas vidas profissional, familiar, social, esportiva etc., poucas vezes levamos isso em consideração para o entendimento da arte de viver bem.

Nesse exato momento, caso você faça um juízo de valor e sinta saudades da inocência, ingenuidade e felicidade da época de criança, isso pode ser compreendido como uma insatisfação atual que ainda não completou seu destino de incomodá-lo(a) e impulsioná-lo(a) para a busca e encontro do seu verdadeiro destino e caminho de expressão genuína.

Acredito visceralmente que todos os seres humanos tenham um potencial latente para despertar e conquistar a excelência. Se soubermos abandonar antigas formas de ser (muito úteis e necessárias em certos momentos de nossas vidas, porém inúteis para toda a vida), “morrer e renascer” em cada nova fase, então sabiamente encontraremos nosso melhor destino.

Todos temos a oportunidade de renascer várias vezes ao longo de nossas vidas... Mas apenas se tivermos coragem de abandonar velhas formas de ser. Apenas se tivermos disposição e coragem de enfrentar as transformações que se apresentam em cada final de ciclo. Simbolicamente falando, somente se soubermos “morrer”.

Essa é uma grande sabedoria dos orientais. Eles dizem que não aprendemos a viver antes de aprender a morrer.

Provavelmente eles se refiram a uma série de preconceitos e valores de nossa civilização que consideram fúteis. Curiosamente, aquelas pessoas que sobreviveram a doenças terminais ou catástrofes, os “sobreviventes”, como gosto de chamá-los, repetidamente chegam a conclusões semelhantes após um evento que lhes mostre um possível fim.

O Garoto que Tinha Aids

Uma das reportagens mais violentas que já li foi sobre um garoto, jovem adulto, de aproximadamente vinte e dois anos, paciente terminal de Aids que, em seu leito de morte, dizia que graças a Deus havia pego Aids!

Por mais absurdo que possa parecer, a reportagem conclui com a explicação do garoto de suas razões: “Eu era um ‘filhinho de papai’, tomava drogas, vivia batendo o carro em ‘rachas’, tratava mal meus pais e meus irmãos e nunca, absolutamente nunca, até essa doença, fora capaz de encontrar o amor e a compreensão presentes em minha família.”

“Eu nunca tinha sequer percebido isso! Esses dois anos de sofrimento por causa da doença, convivência com outros pacientes como eu, tantas dores e doenças oportunistas, me permitiram encontrar uma serenidade, respeito e carinho que não conhecia.”

“Imagino que nunca encontraria isso naquela minha forma de ser. Por absurdo que possa parecer, foram os dois melhores anos da minha vida... Agora já posso morrer em paz!”.

Todas essas reflexões servem para contribuir e criar um estado interior de bastante confusão... Creio definitivamente que, se estamos insatisfeitos ou com problemas, é muito saudável transformar algumas de nossas certezas em dúvidas.

Isso já ocorre espontaneamente durante as grandes fases de transição em nossas vidas. Como se entrássemos num período de incubação durante o qual sintetizaremos e organizaremos as memórias e expectativas da nova identidade.

Especialmente porque nossa cultura e educação, em geral, não nos prepara para isso, não nos ensina como atravessá-las, sequer temos a oportunidade de ensaiar antes as novas formas de agir.

Seja uma separação conjugal ou afetiva, uma doença ou morte em família, desemprego, algum fracasso em geral, esses fatos da vida de uma pessoa tornam-se extremamente estressantes. Ou mesmo alguma mudança de etapa de vida, como por exemplo as fases de transição entre infância, adolescência, maturidade, velhice.

Até boas mudanças causam estresse! Casamentos, casa nova, promoções profissionais etc. também demandam grandes transformações e ajustes interiores.

É normalmente nessas épocas, quando o indivíduo não consegue aprender a se adaptar à nova condição ou ao novo papel, que aparecem as principais doenças ou sintomas. Também é nessas ocasiões que acontecem os maiores acidentes.

Leia novamente a oração anterior... Essa é uma observação experimental extremamente importante na compreensão atual da natureza das doenças e problemas de saúde.

Nesse sentido, e apenas nesse sentido, doenças e “acidentes” podem ser considerados como soluções inconscientes para equacionar determinadas transformações.

Um Caso de Hepatite

Por incrível que possa parecer, uma das coisas mais importantes de minha vida foi uma hepatite que contraí em 1.988.

Naquela época, trabalhava essencialmente com esportes e lazer. Trabalhava sete dias por semana e tinha consciência de minha perigosa dependência de minhas condições físicas, embora não conseguisse elaborar uma solução para essa “prisão”.

Como que por destino, tive uma hepatite que me obrigou a ficar em casa por quarenta dias! Embora tenha contraído algumas sérias dívidas pela minha inatividade profissional, tive tempo para parar, pensar e planejar minha futura empresa.

Quando retornei lentamente às atividades profissionais, tudo que planejara começou a dar certo. Compulsoriamente, aprendi a gerenciar minha sobrevivência material, que estava totalmente vinculada à minha saúde!

Garanto que posso dar graças a Deus por essa doença, embora só tenha me dado conta disso depois. Evidentemente, me senti muito mal com a queda de vitalidade e os sintomas da doença. Mas sinto que foi uma doença santa!

Através desse novo enfoque, por incrível que possa parecer, do ponto de vista de nossa mente inconsciente (aquela que possui o poder de curar ou gerar sintomas), doenças podem ser soluções que encaminham seus portadores a novas formas de agir e se comportar.

Tive problemas muito incômodos de pele, funcionamento intestinal e infecções de ouvidos por muitos anos, que foram tratados isoladamente como micose, colite e dor de ouvido crônica. Até que, quinze anos depois, descobri acidentalmente que era alergia ao consumo de leite e seus derivados!

Lenta e progressivamente, sintomas foram se apresentando e desenvolvendo como sinais de que aqueles alimentos eram venenosos para o meu organismo. Porém leite, queijos, manteiga, creme de leite, iogurtes etc., até então, eram componentes básicos em minha alimentação. Como eu podia imaginar isso se os médicos me tratavam os sintomas mas não me orientavam a buscar as causas?

Aos poucos fui identificando que também o café, o álcool, chás e alimentos muito ácidos me são nocivos. Para pele e cabelos muito oleosos, descobri que a solução era deixar de utilizar sabonetes.

Não proponho essas soluções para as pessoas, pois cada um tem diversos níveis de sensibilidade e tolerância a diferentes substâncias. O que proponho é que você fique bastante atento às suas próprias soluções de vida. Ninguém melhor que nós mesmos para escolher nossos caminhos, depois de consultar pessoas e profissionais experientes.

Quando faço atendimentos individuais, numa consultoria chamada de Soluções Criativas e Planejamento Pessoal, é muito comum que meus clientes queiram me contar tudo o que sabem e compreendem sobre a natureza dos problemas ou impasses que vivem.

De fato, a maior parte das questões que levam uma pessoa para um atendimento em terapia são dúvidas existenciais e problemas culturais, ou seja, que nossa educação não foi capaz de equacionar e oferecer uma resposta adequada.

Pacientemente, escuto algumas descrições com grande detalhamento e dignas de uma potente, inteligente e demorada análise! Porém, durante tais explanações que, em geral, demonstram uma compreensão bastante aguda e precisa de seus problemas, ainda assim, confirmam que não sabem como mudar ou o que fazer.

Por isso eu pondero: “Tudo o que você sabe trouxe você até aqui. Ainda sem solução... Logo, provavelmente a solução está no que você ainda não sabe!”. Então eu pergunto: “O que é que você ainda não sabe? O que é que poderia contribuir para sua solução e que, porém, você ainda não sabe?”.

Se existe algo de essencial e importante, principalmente se pensarmos a partir desse novo enfoque, no qual doenças e problemas não são realmente ruins, mas possuem dois lados, pelo menos, eu pergunto: se esse mal fosse uma mensagem, apenas uma evidência... O que esse sinal poderia significar? O que ele quereria dizer?

Naturalmente, sem um prévio treinamento, pode ser bastante difícil identificar alguns sinais iniciais. Talvez por já ter se acostumado a ignorá-lo ou se já se instalou um “motim interior” que o tenha conduzido a uma doença ou problema sério.

Nesses casos, criar condições para mudanças essenciais de vida pode abrir a percepção para novas formas de ser. Isso não significa fazer loucuras simplesmente.

O próximo exercício, se praticado por alguns dias, pode revelar uma maneira de se comunicar com o seu interior bastante enriquecedora e, independentemente de seus resultados práticos, trazer à sua consciência uma nova compreensão de seus motivos e sentimentos.

Certamente, uma atitude adequada é fundamental para criar a atmosfera de relacionamento intra-pessoal. As atitudes mais importantes neste momento são de respeito, aceitação, disponibilidade e amor próprio.

Onde Nasce a Próxima Respiração

Inicialmente, proponho que você comece a respirar um pouco mais consciente e intensamente. Durante a leitura das próximas linhas, estarei explicando a experiência. Aproveite esse tempo para ir se preparando para o exercício.

Conforme a duração de sua leitura, talvez dez, vinte ou mesmo trinta respirações completas, não tente controlar nem a quantidade nem o ritmo, deixe apenas que elas se processem naturalmente um pouco mais intensas.

Apenas preste mais atenção. Você não precisa relaxar, basta sentir-se confortável e afrouxar alguma roupa que esteja constrangendo inspirações e expirações espontâneas.

Quando inspirar, não há necessidade de se esforçar ou ‘lotar’ o peito de ar; da mesma forma, ao expirar é só permitir, naturalmente, que o ar escape pelo nariz enquanto o corpo estiver procurando uma condição de conforto e descanso. Continue respirando mais conscientemente, porém, não controladamente.

Após essas respirações mais perceptivas, observe que, mais cedo ou mais tarde, uma dessas inspirações é naturalmente mais intensa ainda, como se ‘pedisse’ uma quantidade maior de ar e, em seguida, acontece quase espontaneamente um ‘suspiro’, uma expiração mais marcada. Não controle, apenas observe.

Neste momento, ao concluir a expiração, existe um lapso de tempo, uns poucos segundos, durante os quais a respiração fica, naturalmente, suspensa. Alguns instantes que parecem ser de descanso daquelas respirações anteriores mais intensas. Após isso, também espontaneamente, inicia-se outra inspiração.

A pergunta que desejo que responda é: depois desse suspiro, e de um pequeno intervalo de tempo de “descanso” da respiração, onde nasce a próxima respiração?

Fique muito atento a esse pequeno período para percebero: onde... em que local do corpo você sente ou percebe os primeiros movimentos ou sensações que sinalizam o início de uma nova inspiração? Às vezes, é apenas uma vaga impressão, outras vezes uma região do corpo para onde se desloca a nossa atenção consciente...

Perceba também quão impressionante é o brotar de uma nova inspiração e, como após ela se completar naturalmente, uma nova expiração se inicia! Continuamente, às vezes, compassadamente, outras... Parece até que Algo respira por nós ou, talvez, através de nós!

Observe que, nem tanto pela ventilação pulmonar, talvez mais pela atenção orientada para essa percepção, parece que essa descoberta, por si só, já nos proporciona um curioso estado de ânimo! Ou até de motivação.

Você pode estar exausto(a), completamente “acabado(a)”, talvez há duas, três ou quatro noites sem dormir, vivendo sob tremenda tensão e estresse, porém mais cedo ou mais tarde irá dormir.

Por bem ou por mal, quem sabe até tendo sua consciência ou atenção seqüestradas, possivelmente na forma de um colapso ou desmaio, seus sentidos serão apagados. Talvez durma algumas horas, talvez oito, dez, quinze, vinte, ou mesmo trinta horas seguidas.

Mais cedo ou mais tarde, invariavelmente, qualquer pessoa que possua um mínimo de condições de saúde toma uma inspiração diferente, desperta e, para continuar deitada ou sentada, terá de fazer esforço. Uma pressão interior nos impulsiona para a ação e o movimento.

E, se assim não for, essa pressão interior nos colocará em uma extrema atividade de pensamento. Permanecendo com o corpo em repouso, a mente, então, “dispara”!

Que força é essa que não nos permite descansar indefinidamente? Que nos impele ao movimento, à ação, à interação? O que é isso que se expressa através de nós? Que vive através de nós?

E o simples fato de Lhe observarmos a presença ou a “face”, ocasionalmente faz com que se manifeste alguma nova percepção, sensação ou sentimento – quem sabe até uma nova conclusão...

De uma forma mágica e impressionante, cada um de nós, seres humanos, possui, consciente ou inconscientemente, um jeito de perceber, entender ou experimentar essa dimensão de nossa natureza e expressividade. Sim, Algo se expressa através de nós!

Alguns chamam de Força Vital, outros chamam de Força Criativa ou criatividade, talvez motivação, êxtase, impulso, energia, vitalidade etc. Invariavelmente, faz parte da natureza humana experienciar, mais ou menos conscientemente, tal condição ou categoria de ...

Talvez alguns de nós atribuamos a Isso uma classe de coisas que inclua aquilo de bom e de melhor existente na nossa natureza humana, algo de positivo. Algo que, para inibirmos Sua expressão natural, dependerá de um esforço, em alguns casos, sobre-humano.

Perceba que, neste momento, talvez alguma sensação se destaque em seu corpo e desperte sua atenção. Aceite tais evidências.

Por outro lado, contrastando com essas percepções, cada um de nós, enquanto seres humanos, também já teve a oportunidade de enfrentar ou observar as próprias limitações, dificuldades, os próprios dramas, medos ou dúvidas.

Sim, disso também é feita a nossa realidade e, para cada Ente que possamos considerar como positivo, talvez consigamos achar a dimensão que não Lhe permita Sua livre expressão e que, talvez, chamemos de negativo. Quem sabe sejam chamados de bloqueios ou mesmo de sombras.

Observe também que a simples menção da existência dessas dimensões nos proporciona, muitas vezes, ainda outras sensações ou percepções em nosso próprio corpo. Mantenha-se atento a elas. Porém, tenha coragem de não julgá-las. Fazem parte de nós.

Para algumas pessoas, o grande conflito existencial é representado pelo confronto entre tantas vontades, tanta curiosidade e tanta motivação versus tanta dúvida, medo, incerteza ou preguiça...

Para outros, o grande conflito essencial se apresenta como a incompatibilidade entre seus desejos, sonhos e interesses interiores versus a hostilidade, agressividade e inércia do mundo real, exterior...

Ainda outros vivenciam a tensão entre um futuro que poderia ser tão promissor e melhor versus um passado que lhe toma tanta energia, e que mantém presente a conclusão de não terem existido as oportunidades devidas para a expressão plena de seu próprio potencial...

Cada um de nós sabe muito bem, seja consciente, seja inconscientemente, quais são seus dramas mais íntimos... Mantenha ambas as percepções simultaneamente em sua consciência, coexistindo, coabitando.

Observe agora como se intensificam suas experiências e percepções interiores. Convido você, agora, a deixar de lado a leitura do texto, temporariamente, caso já não tenha ocorrido espontaneamente, para que, por alguns instantes, você possa se absorver nessa “viagem” interior.

Mantenha a coragem de não julgar os caminhos por onde sua mente inconsciente irá conduzi-lo. Apenas permita-se deixar seguir através desse contato mais íntimo com suas sensações e sentimentos. Absorva-se nas percepções corporais independentemente de sua possível turbulência.

Verdades por vezes muito simples, mas que somente cada um de nós é capaz de saber. Essa é uma experiência de meditação natural muito interessante, uma das mais poderosas que conheço em auto-conhecimento.

Lembre-se de apenas observar o que é natural, no fluxo dos movimentos corporais espontâneos, sensações, sentimentos, pensamentos, memórias, idéias, decisões e conclusões que vão se desfilando, de uma forma muito segura e inconscientemente ordenada, em sua mente.

Às vezes, você pode perceber uma certa aceleração respiratória ou cardíaca – é natural.

Conclusões

Aprender a morrer é uma condição para renascer.

Durante toda a nossa vida temos oportunidade de exercitar tal prática... Talvez, apenas, para enfrentar com dignidade e serenidade a companheira sagrada de nossa existência.

Se existe ou não vida depois da morte, essa é uma questão de percepção ou escolha pessoal. Como já comentei, se percebemos, não discutimos... Enquanto se discutem tais assuntos, é porque nossa percepção ainda não alcança tais fatos.

Se não me engano, Henry Ford tinha uma forma peculiar de compreender isso... Dizia: “Se existe ou não vida após a morte, não posso afirmar, mas a vida fica tão mais fácil e melhor de aceitar se acreditarmos que existe...”.

Finalmente, este é um fato bastante curioso: pacientes terminais que nunca tiveram práticas ou hábitos religiosos até a manifestação de suas doenças ou problemas de saúde acabam por se orientar naturalmente para esses assuntos durante suas preparações para terminar a vida.

Na história da humanidade, muitos dos momentos de maior produção artística e cultural estão associados a épocas de grandes crises ou guerras. Como se o contato com o fim tornasse o homem mais humano.

Sobre o Autor

Meu pai era médico e alcoólatra. Como cidadão e militar alemão, não pôde exercer a medicina no Brasil, por isso tinha uma farmácia.

Minha mãe era geógrafa, historiadora e professora, e morreu de câncer generalizado quando eu tinha sete anos de idade. Depois disso, nunca mais encontrei meu pai e, quando adolescente, descobri que morrera quatro anos depois dela.

Fui, a partir dos sete anos, educado por minha avó materna, que teve uma das mortes mais desgraçadas que já vi. Durante mais de dez anos foi sendo devorada por uma seqüência de doenças extremamente duras: diabetes, varizes, divirticolite, nervo ciático, palpitações e problemas de coração, trombose com duas amputações (dedos e perna), câncer na mama com amputação, até, finalmente, um colapso geral do organismo.

Entre outros encontros com a morte, perdi o amigo mais próximo, com vinte anos, de parada cardíaca, e minha ex-sócia no primeiro empreendimento, com vinte e nove anos.

Assim, paradoxalmente, minha busca por uma resposta com sentido que revelasse a razão dessa repetida “Presença” foi o maior impulso que me guiou pela vida. Até que a Morte se tornou companheira e pôde, enfim, me apresentar ao outro grande mestre: o Amor.

A partir de então, a apresentação deste livro, onde estou de “peito aberto”, num relato pessoal de artifícios e engenhos para suportar sentimentos de perda, abandono e falta de sentido para existir, faz parte das lições que venho recebendo nos últimos anos da mais presente mestra, porém a que passou mais despercebida: a Vida.