Encontrando o Próprio Caminho
A vida, em última instância, é muito simples: todos nós nascemos, crescemos, vivemos e morremos... Tudo isso num ambiente que já existia antes de nós e que continuará a existir depois de nossa jornada. Viver, portanto, é aprender, criar, interagir, relacionar-se, dar, receber, trocar e agir, e ainda outras coisas.
Talvez por essas razões tenhamos mais responsabilidade de encontrar nosso espaço e nosso caminho. Mesmo porque, nem nossa cultura nem nossa educação nos garantem esse encontro com nosso melhor destino e nossas potencialidades, principalmente em épocas de transformação tão rápidas como a que vivemos atualmente.
Por serem filhos desse mesmo mundo, nossos pais estiveram sujeitos aos mesmos riscos de encontros e desencontros, logo muitos deles também não têm os recursos necessários para nos orientar precisamente nessa busca.
Apesar de tudo isso, sabemos que muitas pessoas atingem aquilo que chamamos de sucesso... Ou felicidade... Como se essas pessoas pudessem consultar uma “bússola interior” (ou um “farejador”, como gosto de chamar) orientando-os para o encontro das melhores oportunidades.
Em nossa cultura ocidental, é comum associarmos a noção de sucesso a uma certa disponibilidade de recursos financeiros. Creio que, em nosso tempo, existem especialmente três “coisas” que possuem valor: dinheiro, conhecimento e relacionamento.
Qualquer um desses três entes produz mais valor. Além disso, atualmente é possível se desenvolver uma nova profissão ou competência profissional em um período que varia de dois a cinco anos, ocasionalmente menos.
Para nós, seres humanos, fazer e realizar são formas que encontramos de expressar melhor nossa força criativa. Nesse sentido, empreendedor também é aquele que educa filhos, aprende, negocia etc.
Minha experiência com a formação motivacional de empreendedores me leva a concluir que mesmo o sucesso empresarial não depende essencialmente de dinheiro. Muitos deles, sem capital inicial, fizeram da própria força de trabalho, com muita criatividade e dedicação, o impulso inicial para o sucesso.
Conjugando essas considerações, o que realmente quero dizer é que é possível trabalhar no que mais gostamos! Aprendendo a perceber nossas inclinações, melhores qualidades e habilidades, podemos melhorar nossas vidas e nossos sentimentos ao encontrar o nosso melhor destino ou, como gosto de chamar, o nosso próprio caminho.
Mais do que isso. Dentro de cada um de nós já existe um plano inicial e um mapa de nosso sucesso, porém muitas vezes escondido pelos preconceitos, medos, teimosias ou preguiças, aprendidos ao longo de nossas vidas.
Anote seus pensamentos agora, levando em conta aquilo que acabou de ler. Talvez você concorde com algo do que acabei de dizer, parcial ou completamente... Após a leitura deste pequeno livro, volte a ler esta apresentação e considere suas anotações para ter a oportunidade de observar o que pode acontecer de mágico na “cura” de alguns pensamentos ou sentimentos.
Início
Quando começamos a pensar sobre o assunto da Motivação Profunda, é muito importante refletirmos sobre algumas questões relacionadas aos nossos desejos, vontades e hábitos de fazer ou conquistar coisas.
Primeiramente, mesmo que uma pessoa esteja aparentemente desmotivada ou sem motivos para andar pela vida, ainda assim sua mente interior conhece razões de sobra para continuar mantendo o funcionamento total ou parcial do seu próprio corpo.
Por isso precisamos compreender que existem dimensões paralelas de motivação que coexistem... Mesmo que não estejamos conscientes delas. A história seguinte ilustra essa compreensão.
O Menino que Quebrava Brinquedos
Em uma palestra, uma senhora se apresentou, disse que gostara muito de algumas colocações e que queria ouvir minha opinião sobre a seguinte questão:
– Tenho um filho de nove anos. Não sei mais o que fazer com ele. Ele destrói todos os seus brinquedos! O que você me aconselha a fazer? Já lhe disse, várias vezes, que não lhe daria mais nenhum brinquedo até que aprendesse a cuidar dos que possuía. Ele acaba ganhando de outras pessoas... Além disso, quando percebo que não tem com o que brincar, acabo me comovendo e comprando-lhe um novo. Então novamente ele o quebra. Isso me deixa bastante irritada e repito que não vou mais lhe dar brinquedos. Mas você sabe como a gente é, eu não agüento e acabo comprando novamente. O que você acha que deve ser feito?
A longa apresentação do problema me proporcionou tempo para pensar, então lhe disse o seguinte:
– Eu tenho pelo menos três respostas diferentes para considerar... A primeira delas talvez seja a mais significativa dos pontos de vista de seu filho e meu. Eu também fui uma criança que quebrava muitos brinquedos. Na verdade, eu não os jogava no chão para ver se quebravam ou os incendiava. Tampouco os arremessava pela janela... Eu brincava, explorava, experimentava e, muitas vezes, eles se quebravam. Ocasionalmente, fazia comboios de carrinhos de ferro amarrados por fios de linha que bloqueavam as rodinhas ao se embaraçar nelas.
“Muitas vezes desmontava um brinquedo para entender como funcionava. Inicialmente, ao remontá-los, talvez sobrassem algumas peças e, certamente, não funcionavam mais. Na verdade, eu apenas brincava.”
“Passou-se algum tempo e, cada vez que remontava um brinquedo, até por vezes sobrava uma ou outra peça, mas voltavam a funcionar. Mais algum tempo, então, quando tinha dois ou três brinquedos quebrados, conseguia, reunindo partes de cada um, montar ou construir um que funcionasse. E assim foi com brinquedos de plástico, madeira, metal, mecânicos, eletromecânicos e até eletrônicos.”
“Percebo, hoje em dia, que essa foi uma longa e importante etapa de desenvolvimento de algumas habilidades que considero de valor inestimável. Habilidades de manipular o mundo da realidade concreta. O mundo material. O desenvolvimento dessas competências me proporciona, no presente, uma grande desenvoltura em gerenciar e administrar ferramentas e consertar alguns diferentes tipos de utensílios domésticos e eletrodomésticos, eletricidade, alguma coisa de eletrônicos, hidráulica, mecânica, marcenaria etc.”
“Portanto, nesse caso, no seu lugar, eu não me preocuparia com o dinheiro que estivesse sendo gasto em brinquedos condenados à destruição. Estaria, sim, muito interessado em financiar e investir o quanto fosse possível e racional no desenvolvimento de algumas dessas habilidades de compreender, perceber e manipular o mundo das coisas materiais. Isso para qualquer criança. Também me interessaria em proporcionar-lhe autonomia nessas competências – serão de muito valor para ele. Além disso, esse ímpeto talvez chamado de destruidor, quando orientado para construir, acaba por justificar muitos contratempos.”
“A segunda resposta será a mais incômoda e, no entanto, valiosa para você como mãe. Pense bem, no relacionamento com seu filho, nessas questões de brinquedos, o único padrão repetitivo é sua atitude incoerente como mãe. Observe: brinquedos diferentes quebrados, brinquedos diferentes comprados, dias diferentes, até mesmo em locais diferentes; o único fator constante e repetitivo é o seu comportamento incongruente. Aquilo que você realmente está ensinando a seu filho, inconscientemente, é que ele pode manipulá-la quando precisar. Imperceptivelmente, você está ensinando-o a desrespeitá-la e a não acreditar em você. Está mostrando-lhe, desde pequeno, a grande fantasia do mundo dos adultos: os adultos não fazem o que falam e também não falam o que fazem!”
“Assim, sugiro que, no futuro, nunca mais lhe dê um brinquedo, enquanto continuar a afirmar que não lhe dará mais, se ele não aprender a conservá-los. Ou nunca mais lhe diga que não dará, se não tiver forças para cumprir sua palavra. Caso contrário, daqui por diante, saiba que, cada vez que ele desrespeitá-la ou mentir para você, você mesma ensinou isso a ele. A incongruência.”
“A terceira resposta talvez seja a mais importante das três: eu, se fosse você, não acreditaria em nada do que acabei de dizer, pois não tenho filhos e, além disso, fui filho único, criado entre adultos. Minha mais completa experiência com crianças foi como educador em um ambiente esportivo. Logo, conclua você aquilo que pode ser útil no seu caso.”
Infelizmente, quando nascemos, não nos é dado o manual de instruções para sabermos como operar melhor todas as nossas potencialidades. Sequer alguém nos diz quais são elas. Da mesma forma, nossos pais, tendo a melhor e mais pura das intenções, acabam por fazer o melhor que podem com as “ferramentas” das quais dispõem. Entretanto, isso não garante completo sucesso.
Ao iniciarmos nossas vidas, é natural que pelos estímulos mais comuns, aprendamos inconscientemente uma série de hábitos de comportamento, integrados e incorporados à nossa forma de ser, de agir, de sentir, de pensar, de argumentar e de explorar o mundo. Muitas vezes, também, nossa forma de sonhar, de criticar ou abrir mão de nossos planos.
Graças a essa grande revolução atual nos modelos de trabalho, produção e construção do conhecimento, muitas famílias tiveram os pais compromissados com a captação de recursos para a sobrevivência.
Assim como nessa história anterior, devemos compreender que, na dimensão de nossa existência interior, muitas percepções e verdades coexistem, mesmo contraditórias.
Nosso trabalho nesse livro será aprender a sintonizar essas outras dimensões de vida que podem nos ensinar muitas coisas sobre como buscar e encontrar nosso caminho.
Além daquilo que possamos querer ou desejar em nossas vidas, precisamos também estar certos de que não possuímos uma forma única de ser e existir.
Mesmo que tenhamos sido bastante adestrados em dar sempre a resposta certa, ainda assim, o caminho mais adequado para cada um de nós não pode ser ensinado por outra pessoa.
Buscar e encontrar nosso próprio caminho faz parte de nosso compromisso de viver, assim como ninguém pode respirar por nós... Nem comer, nem ir ao banheiro.
Como pessoa, levei muitos anos para encontrar qual era a minha profissão. Foi um longo percurso de buscas, erros e acertos até chegar aqui onde estou hoje.
Entretanto, eu nunca imaginava que eu teria que criar minha própria profissão! Certamente, quando me perguntam o que eu faço profissionalmente, respondo que sou educador... Palestrante... Hipnólogo.
Mas, para os mais próximos, digo que faço Arquitetura de Aprendizagem. Se você me perguntar se estudei arquitetura... Eu nego! Se foi pedagogia? Também não! Mas a vida me ensinou a ser isso: Arquiteto do Aprendizado!
As duas próximas histórias vão tornar isso mais compreensível.
Burrice ou Ignorância...
Um dia, folheando uma revista, encontrei uma matéria muito interessante. Na verdade, foi o título completamente absurdo que captou minha atenção e meu interesse.
Essa curiosidade natural é uma ótima forma de perceber como está orientado nosso sistema de busca automática, ou “Farejador Interior”, como gosto de chamar.
Voltando à matéria... Tinha como apelo inicial: “O homem que vende ignorância”. Comecei a leitura. Era a história de um americano, já cinqüentão, e suas peripécias na vida. Ele era graduado em direito e arquitetura, se não me engano.
Toda a sua vida trabalhara em pequenos projetos ou consultorias, porém nada tinha dado muito certo. Mesmo os negócios que empreendera não foram bem-sucedidos.
Como dizemos, fora “empurrando com a barriga” e sobrevivendo ao longo dos anos. Embora fosse considerado muito inteligente e criativo, nunca tinha dado muito certo.
Um belo dia, numa viagem de férias pelo interior dos Estados Unidos, comprara um guia e fora de carro.
Ao longo de seu passeio, constatou uma grande dificuldade de utilização daquele guia turístico. Cada vez que necessitava de uma informação, embora soubesse estar lá, levava muito tempo pesquisando até encontrá-la.
Quando estava na estrada, ao anoitecer, buscando a cidade mais próxima, encontrava as cidades organizadas em ordem alfabética! De que lhe servia isso?
Foi ficando muito incomodado com essas circunstâncias, a ponto de destacar páginas do livro, colá-las em outros lugares, recortar, rabiscar, anexar etc. Quando retornou da viagem, o guia estava completamente em frangalhos.
Entretanto, ainda insatisfeito com a aquisição, ligou para o editor da publicação e fez todas as reclamações!
Suas queixas eram tão bem fundamentadas que esse editor contratou-o para implementar suas idéias de um novo arranjo das informações do guia.
Atualmente, esse homem é um profissional extremamente bem-sucedido, trabalha em sua mansão à beira da praia na Costa Oeste americana. É conhecido como o primeiro e mais importante Arquiteto da Informação! Quando lhe perguntam o que faz, responde: “Eu vendo ignorância!”.
Graças à sua “burrice” (e à de mais noventa e nove por cento dos americanos), ele ganha milhões de dólares por ano para reorganizar informações de guias turísticos, listas telefônicas e manuais técnicos.
E as pessoas gostam muito quando compram alguma dessas publicações organizadas por ele. São extremamente claras, organizadas e de fácil manuseio. Seu pior problema? Suas dificuldades de compreender aquelas publicações. E esses problemas tornaram-se seus principais aliados!
Quando li essa reportagem, algo fantástico aconteceu dentro de mim e em minha compreensão sobre qual era a minha profissão.
Essa história foi tão importante para mim que, naquela época, contava-a para todos os amigos, como se tivesse “descoberto a América”!
Fracassos e mais Fracassos...
Um de meus amigos, em retribuição, contou-me outra história fantástica: era sobre um outro americano, empreendedor desde jovem, que nunca fora bem-sucedido. Tivera um primeiro negócio e fracassara. Tivera um segundo empreendimento que não dava dinheiro... No terceiro, desentendera-se com o sócio... Assim por diante, nada dava certo para esse homem, que ia sobrevivendo no decorrer de sua carreira de pequeno empresário.
Um belo dia, depois de várias tentativas, acabara de quebrar em outra iniciativa... Parou, refletindo sobre tantos insucessos e, extremamente insatisfeito, perguntou-se: “Que diabos... Afinal de contas, o que eu aprendi nesses anos todos? O que eu sei fazer, enfim?”.
Nessa ocasião de sua vida, então, encontrou sua mais importante resposta pessoal e profissional: descobrira aquilo que tinha aprendido... O que realmente sabia fazer de melhor... Ele era um especialista em fracassos! Ninguém tinha fracassado tanto quanto ele... Ninguém sabia fazer isso melhor do que ele!
O impacto emocional da descoberta dessa sua realidade única e profunda foi devastador. A partir desse momento, tornou-se milionário. Passou a vender “fracassos”! Isso mesmo! Começou a promover palestras de motivação para empresários quebrados e alto executivos desempregados!
Evidentemente ninguém, absolutamente ninguém, corre o risco de fracassar sentado em uma cadeira sem fazer nada. Somente fracassa aquele que está fazendo ou buscando algo. E ninguém era melhor do que ele para falar sobre esse assunto.
Ele tinha sido mal-sucedido inúmeras vezes e, depois de cada insucesso, sabe-se lá como, conseguira se reorganizar, levantar-se, sacudir a poeira e dar a volta por cima.
Ao longo de sua vida, tivera a oportunidade de viver repetidas vezes aqueles sentimentos e circunstâncias que acompanham cada fracasso. Após cada uma dessas perdas, se recompunha, se auto-motivava e iniciava um novo negócio.
Seu maior drama, seu pior problema... Foi ele que forjou suas melhores habilidades!
Para mim, isso foi a gota d’água. Compreendi então que talvez tivesse que criar a profissão na qual trabalharia! Mais do que isso... Compreendi que o mundo ainda não estava acabado... Eu poderia e deveria dar a minha contribuição nessa construção!
Finalmente entendi que a época em que vivemos colocou em crise todos os antigos modelos de sobrevivência e de compreensão do mundo. Isso me convidou a crer que grande parte das profissões do futuro, talvez, ainda não tivessem sido criadas.
Pela primeira vez na vida, chegara à conclusão de que havia espaço para mim e necessidade da minha participação e contribuição nessa construção do nosso futuro. Isso me transformou interiormente.
Certamente, creio que você também pode encontrar vários exemplos curiosos na sua ou na vida de pessoas próximas.
Normalmente julgamos os fatos apressadamente... Isso nos limita perceber as coisas a partir de um ponto de vista mais amplo e numa dimensão de tempo maior.
Nos três casos anteriores, o meu, o do arquiteto da informação e o do vendedor de fracassos, a dimensão de tempo estava bastante expandida. Foram vidas inteiras! Mas há exemplos mais curtos também...
Perdido no ABC
Certa vez, retornando do litoral em um sábado, pela hora do almoço, durante um feriado prolongado, graças à Operação Descida (da serra), subi a Via Anchieta.
Tenho hábitos alternativos e, geralmente, estou no contrafluxo dos congestionamentos – minha profissão permite uma certa flexibilidade de horários.
Comumente, viajo antes ou depois do grande público e sempre aproveito as baixas temporadas – tudo mais vazio e mais barato. Naquela ocasião, não vinha diretamente para minha residência, tinha como destino um sítio em Arujá, na Via Dutra.
Em ocasiões anteriores, com tempo limitado, viera até o centro de São Paulo para depois encaminhar-me para a estrada, utilizando-me da Marginal Tietê. Naquela oportunidade, entretanto, tinha tempo de sobra e uma curiosidade de experimentar uma nova possibilidade: a de cortar caminho por dentro do ABC Paulista em direção à Via Dutra.
Dei atenção à primeira placa e, no local indicado, abandonei a Via Anchieta em direção à Zona Leste. Naquela época, São Paulo era uma das cidades mais bem sinalizadas do país, quiçá da América do Sul; infelizmente, o mesmo não acontecia nos municípios do ABC.
Após a terceira placa, dei-me por perdido em São Bernardo do Campo, acredito. Havia, de fato, muitas placas, porém com nomes de bairros e avenidas locais, dos quais eu nunca ouvira falar.
Eu possuo um senso de orientação espacial e localização muito bom, especialmente durante o dia. Confiando no meu faro, não quis parar para perguntar ou consultar o guia (continuei em frente); imaginava que, cedo ou tarde, encontraria algo conhecido ou uma indicação familiar.
Passaram-se ruas e avenidas, praças, indústrias e mais indústrias... Num dado momento, percorria uma avenida na qual nunca estivera (não que eu me lembrasse). Era uma avenida de duas pistas com três faixas em cada uma delas. Eu estava na faixa central.
Pratico um estilo de direção chamado “defensivo”. Tenho um tio, muito querido, que divide as pessoas que dirigem veículos em duas categorias principais. A primeira, ele chama de pilotos: aqueles cujo passageiro, em nenhum momento, se esquece de que está dentro de um carro – permanece sempre tenso, agarrando-se como pode para manter-se equilibrado no banco do carro.
O segundo grupo, ele chama de motoristas – aqueles cujo acompanhante, em nenhum momento, se lembra de estar dentro de um carro... As acelerações e frenagens são suaves, as curvas bem dosadas etc. Faço parte desta segunda categoria.
Pois bem, seguia tranqüilamente pela faixa central, passeando (a avenida tinha pouco movimento), quando resolvi andar mais rápido. Quem dirige carros há algum tempo sabe que esse tipo de avaliação não é racional, não olhamos o velocímetro. Quando muito, sentimos a vibração do carro, o vento entrando pela janela, a velocidade dos outros carros e aceleramos ou não...
Qual não foi o meu susto e a minha surpresa de, querendo andar mais rapidamente, ter pisado no freio! Pisei levemente, como pisaria no acelerador, mas foi no freio! Meu coração disparou...
Fiquei muito assustado, aquilo nunca havia acontecido antes. Instantaneamente, olhei pelos espelhos, querendo antecipar algum problema, mas não havia ninguém imediatamente atrás.
Foi algo tão inusitado que nem meu próprio corpo sabia desse fato e, embora estivesse com cinto de segurança, naquela pequena freada todo o meu corpo e cabeça inclinaram-se para a frente.
Uma curiosidade interessante é observar que motoristas, ou mesmo pilotos, em seus assentos, sempre estão mais equilibrados e altivos enquanto dirigem.
De fato, nossa mente inconsciente, quando acostumada com o carro que dirigimos, sabe compensar os movimentos do veículo com tensionamentos diferenciais de músculos antagônicos àqueles que promoveriam os movimentos de recuo ou avanço da cabeça e tronco durante as manobras.
Se você já dirige veículos há algum tempo, talvez tenha observado que a nossa organização motora inconsciente promove uma tensão diferenciada nos músculos do abdômen e região interna dos braços quando aceleramos o veículo; e dos músculos das costas e região externa dos braços, quando freamos.
São contrações suaves que nos permitem agarrar-nos ou apoiar-nos ao volante e banco para a preservação do nosso equilíbrio. Os passageiros, em geral, não sabem avaliar as manobras, por isso têm menos estabilidade em seus assentos.
Por isso também afirmei que, além de ter pisado no freio, em vez do acelerador, meu sistema de equilíbrio automático não estava ativado, coordenadamente, com essa ação.
Completamente assustado, desengatei a marcha e permiti que o carro apenas continuasse com a velocidade que estabilizara e, enquanto dirigia com apenas a percepção periférica, minha consciência e atenção voltaram-se quase que inteiramente para dentro de mim mesmo.
Já tinha experimentado o sonho vívido em outras ocasiões e, naquele lapso, pensei até estar sonhando e belisquei-me; estava acordado, pelo menos aparentemente.
Ao voltar-me para o ambiente interior, estava “checando os sistemas” e avaliando o que poderia estar acontecendo. Pensava: “E se isso acontecesse em avenidas ou ruas movimentadas?”.
E se isso acontecesse ao contrário: querendo frear o carro, ao me aproximar de um semáforo ou cruzamento, pisasse no acelerador? Desastre certo! Enquanto isso, o carro prosseguia.
Nesta avenida, aproximadamente duzentos metros à frente, havia uma curva, que eu nunca percorrera. Na curva, havia uma sinalização de trânsito de estreitamento da pista; especificamente a faixa da direita estava em obras.
Enfim, se nessa curva eu estivesse meio metro à frente, não teria tido tempo de evitar a batida num carro que, com a obstrução da pista, avançara pela direita, antecipando-se, e cortara-me a frente. Não corria, mas seria um acidente em uma avenida, numa curva, após uma grande reta.
Voltei-me novamente para dentro de mim e agradeci. Muito emocionado com o ocorrido, dei um grande “muito obrigado” para minha mente inconsciente, “meu tigre e todo mundo lá dentro”. Nem com um computador teria sido capaz de calcular e antecipar aquele fato. Eu sequer havia percebido, conscientemente, o carro à minha direita.
Voltei-me mais uma vez para dentro de mim e propus um novo acordo para minha mente interior (meu próprio “coração”): “Todas as vezes em que, dali em diante, para meu bem estar, integridade e segurança, for necessário retirar o meu controle consciente dos fatos, circunstâncias ou percepções, ou mesmo um seqüestro da minha consciência, então minha mente interior terá total liberdade e autonomia para exercer suas deliberações!”.
Também pensei que em muito poucas ocasiões temos a oportunidade de identificar verdadeiras relações causais. Em geral, as teias causais em nossas vidas são tão complexas e distantes no tempo e no espaço, que, raramente, ao afirmarmos que algo aconteceu por causa daquilo, ou fiz isso porque, estamos sendo justos na avaliação dos fatos.
Normalmente, são apenas justificativas que a conduta social aceita como plausíveis. Naquele episódio, entretanto, a proximidade no tempo e no espaço eram gritantes. Talvez se o acidente evitado estivesse à frente um ou dois quilômetros, eu não tivesse lembrado ou relacionado as evidências. Voltei-me uma vez mais, então, para dentro de mim e agradeci por mais essa introvisão e aprendizagem.
Mais Evidências de uma “Outra Lógica”
Certa vez, chegando em casa às (19)h30, depois de uma manhã de treinamentos e aulas dadas na academia, tinha uma agenda lotada de pequenos compromissos: bancos, xerox, correio etc.
Na época, morava perto da Avenida Paulista, e normalmente realizava essas tarefas sozinho e caminhando. Possuía um escritório em casa, além da academia. Era uma segunda-feira e, depois de um seminário de final de semana, ficavam inúmeras coisas para serem resolvidas no início da semana.
Cheguei, troquei a fantasia e, rapidamente, saí. Era um dia no qual, provavelmente, nem teria tempo para almoçar antes das quatro horas da tarde. Acontece...
Saí, ainda meio atrapalhado. Entretanto, durante a descida do elevador do oitavo andar, onde morava, tive tempo para avaliar o que tinha em mãos. Descobri que faltava o documento mais importante que deveria levar. Cheguei ao térreo e voltei.
Entrei novamente em casa, peguei o que necessitava, voltei ao elevador e chamei... Esperei... Esperei... Bati à porta... Nada. Aqueles poucos minutos pareciam horas... Escutei outras batidas à porta em outros andares. Enfim, chegou. Desci.
Era um prédio de dois blocos com portaria dia-e-noite, e quando cheguei lá o porteiro não estava presente. Esperei alguns instantes, coloquei a mão pela grade para tocar a campainha do prédio, pois não possuía a chave do portão. E nada.
A essa altura, eu, que contava os minutos no relógio, já estava contando os segundos. Finalmente, o porteiro apareceu ainda ajustando a fivela do cinto de sua calça. Pensei: “Estava fazendo algo de muito importante, porém, é o meu tempo que está se escoando...”.
Consegui chegar à rua. Caminhei com passos largos em direção ao meu objetivo. Chegando à primeira esquina, o semáforo se fechava para os pedestres.
É uma região de intenso movimento de carros em horário comercial e, para gerenciar o fluxo de veículos da Avenida Paulista e imediações, a sincronização de semáforos tem intervalos de tempo extremamente dilatados – dependendo do horário, a demora é de um minuto ou mais!
Só podia olhar o relógio e continuar a constatar o desperdício de tempo. Enfim, consegui atravessar aquela rua. Num ritmo ainda mais acelerado, caminhei a quadra seguinte até que, chegando à outra esquina, mais uma vez o semáforo se fechava para mim! Irritado e contrariado, lembrei-me das Leis de Murphy (naquele dia não valiam apenas as leis, era uma constituição completa!).
Mais alguns momentos preciosos perdidos. Consegui atravessar a rua. Na época, naquela esquina havia um prédio, no qual estava sediada uma empresa estatal. Caminhando mais vinte metros, exatamente à minha frente, pelo portão da empresa, saiu um grupo de umas quinze pessoas. Era um dia de sol, no inverno, hora do almoço...
Na rua passavam muitos carros e, agora, à minha frente, várias pessoas estavam fazendo o merecido “turismo” na hora do almoço. Foi o limite da minha paciência e tolerância...
Percebi que não conseguiria ultrapassá-los, então voltei àquele percurso de uns trinta metros, após acompanhar-lhes por alguns instantes, esperando uma oportunidade para passar. Decidi voltar e ir pela outra rua.
Cada um de nós sabe quanto esforço é necessário para ser mais rápido que o grande público. Chegando à Paulista, após subir a outra rua, pensei que recuperaria uma boa parte do tempo perdido se fosse de Metrô.
Era apenas o percurso entre duas estações vizinhas, imaginei que seria bom. Cheguei às catracas e descobri que não tinha mais bilhetes em minha carteira. Para comprar um, enfrentei fila. Finalmente consegui entrar.
Quem conhece a Estação Consolação do Metrô de São Paulo sabe que é uma estação muito profunda. Entrei na escada rolante, percebi que o trem estava lá embaixo, chegando. Quando atingi a base da escada rolante, as portas daquele carro estavam se fechando.
Já estava então suficientemente bravo e irritado com tantos contratempos, sentia-me tão impotente que ao invés de chorar, ria sozinho. Tenso e incomodado ainda, alcancei o banco.
Estava preenchendo um formulário de depósitos quando passou por mim um amigo que eu já não via há mais de um ano. Uma pessoa muito importante para mim.
Ele fora o meu primeiro cliente institucional, numa época em que construíra meu negócio de lazer, ainda um pouco inseguro enquanto empreendedor. Tinha criado uma nova metodologia do aprendizado do tênis e meus próprios colegas profissionais e instrutores condenavam minha abordagem.
Naquela época, estava “nadando contra a correnteza”. Ele, um profissional de altíssimo gabarito, tornara-se meu cliente e trouxera consigo parte dos funcionários de sua empresa. Apoiara abertamente meus métodos e resultados. Tornei-me amigo pessoal dele.
Ele não pudera comparecer ao lançamento do meu primeiro livro, enviara-me um telegrama cumprimentando-me e desculpando-se e, desde então, nem havíamos nos encontrado. Ocasionalmente, conversávamos por telefone. Finalmente, marcamos uma reunião para tratar de negócios...
Fiquei muito feliz de encontrá-lo. Terminei meus afazeres. Já estava na rua quando lembrei que não pegara o extrato e voltei. Enquanto operava a máquina de auto-atendimento, passou por mim uma amiga que já não via há uns oito anos.
Ela fora minha colega no colegial, colega no Instituto de Física e minha aluna de Tai Chi Chuan. Cada um de nós mudou de endereço e perdêramos contato. Fiquei ainda mais feliz de encontrá-la. Um novo insight brotou; pensei: “Puxa vida, se eu soubesse que iria encontrar essas duas pessoas tão caras, nesse momento, aqui no banco, eu teria me sentado na calçada da rua para esperar o tempo passar!”.
Também pensei que, se eu pudesse antever aqueles encontros, não teria desperdiçado “uma gota” sequer de bem estar e bom humor. Quão tolo eu tivera sido, abrindo mão dos bons sentimentos durante aquele percurso para o banco, empenhado em superar vários obstáculos.
Não fossem aquelas dificuldades todas, não teria encontrado aquelas duas pessoas tão importantes para mim.
Poucas vezes, em nossas vidas, conseguimos observar a sucessão de eventos e fatos através de uma perspectiva mais ampla de tempo e espaço. Nessa dimensão de observação, em geral, as razões e sentidos que atribuímos aos eventos isoladamente são comumente transformados.
Esse panorama apresentado por essas histórias nos aproxima um pouco mais de razões ocultas em nosso coração para os fatos que se desenrolam em nossas vidas.
Conforme vamos nos habituando a essa linguagem interior que nos comunica coisas através dos fatos e das coincidências, começamos a desenvolver uma certa confiança em nós mesmos. Nesse sentido, não existe melhor oráculo do que a observação de nossa própria existência.
Leitura criativa
A seguir está descrita uma importante forma de ler os livros desta coleção.
Como primeiro título da Coleção “Histórias que Libertam”, “Os Problemas São a Solução” traz uma apresentação geral da atitude básica presente nesta coleção.
Embora cada título possa ser lido independentemente, e algumas histórias se repitam em diferentes títulos, a forma mais adequada de ler esses livros está explicada a seguir, conforme já foi apresentada no livro “Domesticando o Dragão”.
A linguagem informal deste livro consiste numa estratégia que tem por intenção e pretensão criar um clima de leitura criativa. Aqui reside um dos mais importantes aspectos desta metodologia.
Contraditoriamente, quanto menos esforço fizermos neste processo, maiores serão os resultados! Estaremos, ao longo deste programa, investindo tempo e energia na integração e no resgate de muitas habilidades e percepções que, por alguma razão muito importante, até aqui não têm estado em uso.
Quero exemplificar melhor a observação anterior, para que possamos compreender o significado e a importância dos programas de adequação cultural e social para cada indivíduo.
Dois exemplos servirão para coordenarmos, sem prévios julgamentos e de uma maneira mais respeitosa, nossos interesses de mudança, crescimento e transformação com nossos antigos programas de “sobrevivência” e adaptação social, profissional e pessoal – condições que, efetivamente, nos destacam e compõem os atributos de nossa própria identidade.
Peter Senge, reconhecido cientista americano, conta uma história muito interessante em um de seus livros traduzidos para o português, “A Quinta Disciplina – Caderno de Campo”.
Diz algo a respeito de um povo africano cuja saudação entre as pessoas era: “Te vejo”. A reposta correspondente era: “Eu estou aqui”. Nessa cultura, um indivíduo ficaria muito ofendido caso alguém lhe encontrasse sem cumprimentá-lo, pois estaria negando-lhe a existência e, conseqüentemente, retirando-lhe a própria identidade.
É claro, essa é “uma outra cultura”. Em nossa civilização, conquistamos respeito, reconhecimento e identidade pelo que sabemos repetir e reproduzir dos conhecimentos culturalmente aprendidos e aceitos como verdadeiros. Ou através da representação de ações ou frases observadas nos programas de televisão.
Parte da noção de realidade e dos significados são estabelecidos pelos personagens em evidência em cada época – grandes personalidades e artistas nos oferecem os padrões de conduta adequados.
Outra ocasião interessante de ser observada: tive oportunidade de participar de um encontro de atualização profissional de Recursos Humanos em agosto de 1.996. Eu faria a palestra de abertura do terceiro e último dia do evento.
Assim, aproveitei os dois primeiros dias para reconhecer a linguagem dos outros palestrantes e adaptar o meu discurso. Na abertura do segundo dia, houve uma dinâmica com musicoterapia. Percebi que o palestrante estava realmente empenhado em obter a participação do grupo.
Mas seus esforços davam poucos resultados. Num dado momento, solicitou aos presentes, sentados ao longo do auditório, que se levantassem e que trocassem de posição: quem se sentava à frente deveria se encaminhar para trás e vice-versa.
Quando a movimentação se iniciou, pediu ainda que, no momento em que duas pessoas se cruzassem, olhassem nos olhos uma da outra, se cumprimentassem e trocassem um sorriso. Observei fatos interessantes: 85% dos homens que encontrei não me olharam nos olhos; 40% das mulheres também não!
Alguns, ao dar a mão, rapidamente, sequer paravam de caminhar. Percebi que, em todo o auditório, que continha umas cem ou cento e cinqüenta pessoas, apenas um senhor “engravatado” não se levantara para participar dessa vivência.
Pensei comigo: “Talvez essa seja uma das poucas pessoas honestas em todo este grupo, pois, não querendo participar, teve coragem de boicotar abertamente a dinâmica”. Também pensei: “Estes são os profissionais que cuidam das pessoas nas empresas? Que desastre!”.
Felizmente, entretanto, há uma minoria, porém crescente, de profissionais dessa área não só interessados, mas também empenhados e comprometidos em contribuir para a construção de um novo modelo de gestão do potencial humano.
Tive a felicidade de encontrar outras instituições nas quais o principal papel dos executivos é o de gestor do potencial humano: “Uma empresa não vale quase nada no fim-de-semana, ou seja, sem os seus profissionais”.
Por muitos anos, o conflito aparente entre o processo criativo e os limites de expressão dessa força criativa (comumente conhecidos como bloqueios) tem sido apresentado como algo a ser vencido por um dos personagens: a chamada criatividade.
Mas essa é essencialmente uma conclusão do mundo adulto. No universo infantil, de alguma forma, esse conflito parece ser construído e ativado para que os bloqueios perseverem. Contraditório, não?
De alguma estranha forma, parece que as crianças, criativamente, aprendem a não utilizar sua criatividade!
De fato, uma outra forma de entender os chamados bloqueios mentais ou emocionais é percebê-los como construções criativas de nossa própria mente inconsciente para lidar com os regulares problemas causados pela expressão descontrolada de nossos impulsos criativos.
Certamente, então, qualquer recurso, comportamento ou estratégia que tivemos ou usamos em alguma época de nossa vida e, conscientemente ou não, escolhemos deixar de utilizá-la para assumir uma identidade reconhecida profissional ou socialmente poderá ser reativado.
Agora, entretanto, não devemos nos condenar ou mesmo julgar algumas decisões, sejam elas inconscientes ou não. Naquela época, talvez tenha sido muito mais importante a conquista do processo de integração à nossa comunidade e a construção de uma identidade socialmente reconhecida.
No presente, porém, poderá ser muito importante para nossa expressividade e realização que resgatemos aqueles potenciais que acabaram por adormecer em nosso interior.
Para que ocorra aquele fenômeno que chamo de leitura criativa, convoco a participação daquelas dimensões de existência nas quais ocorre a extensa maioria de nossas percepções e ações: a nossa mente inconsciente. Afinal de contas, como você escolhe o que perceber?
Enquanto você lê estas linhas, pode não estar totalmente consciente de uma série de eventos que coexistem ao mesmo tempo: suas sensações corporais de contato e calor, o resto de suas impressões visuais periféricas que abarcam, pelo menos, um cenário muito maior que estas páginas.
Nem consciente das várias impressões sonoras que lhe invadem os ouvidos, seja por dentro ou por fora e, mesmo assim, são desviadas de sua consciência, processo este que podemos chamar, no momento, simplificadamente, de percepção periférica.
Entretanto, todas essas percepções estão aí, disponíveis... E basta falarmos delas que, magicamente, tornam-se evidentes!
Também, especialmente, devemos considerar nossas memórias e nossos pensamentos – como eles são ordenados?
Então repito, convoco todas aquelas dimensões da nossa existência interior que realmente escolhem o que perceber, aquelas que escolhem o que lembrar e também aquelas que escolhem o que pensar, entre outras, e que, na maioria das vezes, nos orientam e nos apontam os caminhos para as experiências de vida através de inúmeros sinais que podem escapar de nossa consciência, por uma questão de ignorância ou falta de treinamento nessa linguagem de comunicação consigo mesmo(a).
Convoco-as todas para contribuir e participar deste empreendimento que pode gerar aprendizagens e percepções que transcendam os limites dos objetivos conscientes.
Essa convocação tem um nobre objetivo que partilhamos todos juntos: sentir-nos melhor e promover melhores formas de expressão de nossa condição mais essencial, o fator humano.
Nesse processo, que chamei de leitura criativa, espero que a mente interior de cada um de nós esteja presente, a oferecer-nos as mais significativas percepções, conscientes ou não, transformando a nossa consciência apenas num palco ou num cenário de um espetáculo em que estejam presentes, simultânea e/ou sucessivamente, impressões internas e externas, para que possamos realizar, o mais efetivamente possível, nosso intento íntimo com este programa.
Não se oponha se, então, ao acompanhar estas palavras durante a leitura, acontecerem reações como: desconcentração ou concentração absolutas, não-entendimento, entendimentos únicos ou múltiplos, sonolência ou intenso impulso de movimentação e, principalmente, uma série incomum de sensações pelo corpo, imagens coerentes ou desconexas, ou mesmo um discurso paralelo dentro de sua mente ou percepções. Não existe certo ou errado nesta proposta, são apenas sinais e mensagens de sua mente inconsciente.
Todos esses efeitos, sejam conscientes ou não, apenas indicam uma intensa atividade interior de integração de percepções e ruptura de algumas crenças de limites instaladas ao longo de anos pela nossa adequação, sociabilização e educação formais.
Não obstante, permita que isso aconteça e divirta-se com isso. Quando perceber algum impulso de movimento, vontade de espreguiçar-se, bocejar ou adormecer, deixe acontecer. Não se preocupe, nem se pré-ocupe. Ceda aos impulsos espontâneos.
Poderemos reaprender coisas interessantes nesse caminho. Os diferentes estilos de aprendizagem estão sendo estudados e nós, acadêmicos ou não, ainda temos muito a aprender com aquelas crianças que “dormem” na aula, que estudam vendo televisão ou mesmo conversando, ou desenham enquanto assistem às aulas na escola – e comumente são bons alunos.
Quaisquer sensações, sejam incomuns ou não, durante a leitura deste livro, deverão ser entendidas como mensagens. Mensagens e informações de nossa(s) mente(s) não consciente(s).
Sendo assim, leitura criativa é um processo que se desenrola em nossa consciência, no qual, simultânea ou sucessivamente, estamos sensíveis, receptivos e perceptíveis a estímulos externos (informações e representações dos objetos de observação, estudo ou leitura) e sensíveis e atentos às impressões subjetivas que nos são oferecidas, tais como: percepções sensoriais, viscerais, visuais, auditivas, idéias, memórias e intuições.
Não esqueça as instintivas também, no caso de ocorrer sono, fome, uma vontade de se movimentar ou ir ao banheiro. Acima de tudo, divirta-se!
Esses foram os principais acordos necessários para continuarmos nosso empreendimento: abrir novos caminhos e desbravar fronteiras.
Assim, supondo que, realmente, nosso “coração” possua como um valor elevado a coleta de experiências e aprendizagens, agora passaremos à frente para discutir soluções, após termos definido um cenário inicial que inclui experiências comuns em nossas vidas.
Nessa coleção, propriamente, serão tratadas soluções em vários diferentes ambientes para conquistarmos melhores sentimentos, atitudes interiores de aceitação e respeito mais doces, e para viver melhor.
Considerações Finais
Esta é uma parte muito importante deste programa de aprendizagem inconsciente para construir a atitude adequada para ter acesso a canais de comunicação com a nossa própria mente interior.
Romper alguns protocolos sociais que nos moldam a percepção e flexibilizar algumas crenças nos permitirão encontrar um sentido mais profundo para desenvolver nossos objetivos, agregando ainda alguns ganhos secundários interessantes, próprios da estimulação dessas dimensões de nossa existência.
O encadeamento de múltiplos níveis de sentido e significação ainda nos mostra o valor e a elegância da utilização do Princípio da Alavancagem aplicado neste contexto. Serve ainda para convidá-lo(a) a vivenciar um processo de aprendizagem mais profundo e integral, incorporando todos os aspectos mentais, emocionais e corporais que se apresentam durante a leitura desta coleção.
Sobre o Autor
Talvez por ser filho único e educado por minha avó materna, especialmente entre adultos, a partir dos sete anos de idade, minhas maiores dificuldades na vida se transformaram em meus mestres.
Muitas vezes afirmei que gostaria de ter tido a oportunidade de aprender tênis com o método de aprendizado que construí. Com um professor que fosse semelhante àquele no qual me transformei...
Isso porque, em toda a minha carreira de instrutor de tênis, somente encontrei dois ou três alunos que tiveram as mesmas dificuldades que tive para aprender esse esporte. Enfim, acabei criando um método próprio para pessoas que tinham dificuldades.
Embora tenha tido dois grandes mestres chineses para aprender Tai Chi Chuan, gostaria de ter sido orientado inicialmente por alguém como o instrutor no qual me tornei... Teria sido mais fácil romper com o racionalismo e o perfeccionismo. Pois as barreiras culturais e lingüísticas, muitas vezes, obscurecem o caminho para o aprendiz ocidental.
Minhas próprias atitudes iniciais de distanciamento da hipnose, ou mesmo da música, mostraram-se insólitas ao longo de minha vida.
Talvez não acreditem, mas minha grande amiga “timidez”, ainda companheira em alguns setores de minha vida, transformou-se num extremo cuidado e suavidade ao lidar com meus clientes, alunos e amigos enquanto profissional.
Minha forma silenciosa de estar presente entre as pessoas germinou na forma de intensas e inflamadas conversas interiores, durante as quais aprendi a negociar, respeitar e interagir com as pessoas.
Minha grande dificuldade de expressão quando criança e adolescente se transformou numa obsessiva busca de precisão na linguagem de adulto.
Meus próprios medos de falar sobre os assuntos mais sérios da vida, como a própria morte, me ensinaram a transitar nesses universos com maior naturalidade, respeito e simplicidade.
Como fica evidente, mesmo com esses poucos exemplos de uma longa lista, meus maiores problemas sempre tinham preciosidades a me mostrar ao longo da existência. Hoje sou capaz de respeitar e agradecer à grande maioria deles!