Apresentação

Olhando em volta, é bastante fácil observar que estamos num mundo caótico... Principalmente nós que vivemos nas grandes cidades.

Não somente as condições de vida mudam permanentemente, mas também descobrimos que elas se distanciaram tanto de nossa compreensão do mundo que agora nosso entendimento entrou em colapso. O mundo sempre mudou. Talvez nós é que tenhamos uma concepção constante dele.

Transformar é, portanto, aprender a “surfar na onda” da existência e acompanhar o fluxo da natureza. No entanto, existem diferentes estilos pessoais de lidar com isso: há os que se adiantam, aliando-se às crises, promovendo-as e antecipando-as; há aqueles que esperam as ocasiões, percebendo precisamente o momento oportuno das mudanças e aproveitando-se de seu fluxo natural; há também quem espere a “água bater na bunda”, e acabe pagando um alto preço pelo atraso.

Nesse universo de percepções, a principal força motriz dos processos de mudança e transformação certamente é a insatisfação. Um sentimento familiar à existência humana que possui uma natureza semelhante à da fome, da sede, do sono, do medo, da ansiedade.

Embora bastante subjetiva em grande parte das vezes, a insatisfação se apresenta como um dos mais importantes sinais que anunciam a necessidade de mudar, de buscar, de crescer, de transformar.

Quanto mais demoramos a tomar providências e iniciar a ação de mudar, mais incômodos se tornam nossos dias, chegando a se transformar em sinais físicos e sensações.

Se ainda continuarmos ignorando tais mensagens, então, cedo ou tarde, “a vida virá nos pegar”! Oferecendo-nos impasses, confusões e problemas que consideramos dramáticas, muitas vezes.

Compreender a natureza da permanente transformação das coisas e se aliar a essa poderosa e implacável força evolutiva é uma das principais virtudes do viver bem.

Em minha vida pude ter como exemplo vivo a conduta de grandes mestres. Surpreendentemente, creio que quanto mais envelheço, a cada dia, torno-me mais forte, mais hábil e mais flexível. E consigo aprender cada vez melhor e mais rapidamente.

Embora isso contrarie a crença popular de que envelhecer é perder velocidade e habilidade, não é esse o exemplo dos grandes mestres.

Certamente, muitas formas de compreender a vida ganham um novo colorido quando “iluminadas” por essas grandes e poderosas mentes que desbravam e conduzem a caminhada da humanidade em direção a um futuro melhor.

Paciência

Por exemplo, descobri que os grandes mestres não têm paciência! Eles não precisam dela. Eles conhecem o real tempo de amadurecimento das coisas e dos processos. Paciência é o nome que damos à nossa esperança com fé.

Como praticante de Tai Chi Chuan, lembro-me ainda de ter ouvido que um bom mestre consegue perceber o movimento do ponteiro das horas de um relógio. Com dificuldade percebo o dos minutos!

Nesse sentido, percepção e entendimento são importantes “ferramentas” para conduzir nossa jornada através das transformações. No entanto, somente exercitamos esses “músculos espirituais” ao longo do próprio caminho.

Um experimento científico bastante interessante foi a descoberta de que, se colocarmos uma rã viva numa panela com água quente, rapidamente ela salta para se salvar das queimaduras e do cozimento.

Porém, se a colocarmos numa panela de água fria e lentamente aquecermos essa água até a fervura, esse animal é cozido por não saber exatamente quando saltar. Não possui referência de qual é o limite ou de quando deve se salvar, pois sua temperatura se adapta facilmente à do ambiente, e não o percebe.

Nesse sentido, mudanças bruscas podem ser mais bem-vindas para determinados temperamentos de pessoas do que as lentas. Perceber sinais e evidências que monitorem os processos de mudança é uma importante condição para a sobrevivência em nossos dias. Essa é uma grande arte!

Um episódio curioso pode ilustrar melhor o colapso de nossas referências em uma situação simples do dia-a-dia.

A Palestra sobre Gerenciamento do Estresse

Certo dia, realizei uma palestra sobre gerenciamento de estresse para um grupo de jovens empresários. Também tenho essa experiência de ser empreendedor e sabia que qualquer apresentação de uma teoria formal sobre estresse não os comoveria, nem os ajudaria a solucionar os seus problemas.

Assim, após ter sido apresentado como palestrante lá na frente, sentei na cadeira e fiquei em silêncio por alguns minutos. Alguns? Acredito terem transcorrido, talvez, noventa segundos, embora tivesse planejado aproximadamente três ou quatro minutos.

Porém, foram os mais longos da minha vida. Posteriormente, descobri que, também para eles, foram bastante extensos. Meu compromisso como palestrante era “palestrar”, óbvio.

A expectativa deles, certamente, era participar de mais uma palestra. Porém, o inusitado e inesperado desse artifício realmente os comoveu e abriu uma fresta em seus habituais pensamentos para perceber que grande parte do estresse negativo é gerado internamente.

Sim, durante aqueles intermináveis noventa segundos eles ficaram impacientes e até irritados com o palestrante, lá na frente, apenas olhando para eles.

Entre os participantes, havia um senhor que abriu um jornal: sábia decisão. Ele provavelmente, por maior que fosse a tensão externa, já aprendera que poderia se sentir tão bem quanto quisesse em qualquer ambiente.

Diz um de meus mestres que, para nos decepcionar, para nos frustrar, é necessário um cuidadoso planejamento. Caso contrário, não saberíamos qual é exatamente o momento certo de nos sentir mal.

Certamente, tudo tem seu tempo. Nada melhor do que um dia após o outro na conquista da serenidade de viver o melhor possível sob qualquer circunstância.

Contradições da Vida

Reencontrando um grande amigo que não via há alguns anos, conversávamos durante um almoço sobre aquilo que vivêramos no período de afastamento.

Ele contou que procurara uma terapeuta e na primeira entrevista contara-lhe as razões de sua iniciativa de começar um processo de auto-conhecimento:

Na mesma ocasião, eu lhe contava que estava completamente quebrado financeiramente, devendo muito dinheiro, embora reconhecido profissionalmente, não tinha ainda as condições de trabalho que desejava, vivia uma grande confusão... E, apesar de tantos contratempos, nunca estivera tão feliz! E convicto de estar trilhando o meu verdadeiro caminho.

É Tudo uma Questão de Tempo...

Certa vez, uma amiga que acreditava em reencarnação e tinha uma vida bastante tranqüila (sob meu ponto de vista, evidentemente) de classe média, contou-me que na próxima vida queria apenas “sombra e água fresca”. Então perguntei-lhe: “E na vida seguinte?”. Ninguém descansa eternamente... Mais cedo ou mais tarde, uma pressão interior nos conduz a agir, realizar, mudar, transformar.

Por muitos anos fui extremamente paciente. Sofria muitos estímulos e vivia sob tensão psicológica e emocional constantes, porém mantinha-me convicto de que a paciência era uma importante virtude. De fato, foi. Mas beirava mais a covardia. Até que, completamente exausto, aprendi a dizer não.

Sempre que aceitamos coisas a contragosto, estamos dizendo não para nós mesmos. Descobri ser uma questão de justiça e imparcialidade o fato de dizer tantos “nãos” às pessoas quanto dizia para mim mesmo.

Cada vez que tolerava pacientemente os impactos do mundo, estava dizendo não às minhas necessidades. E essa distribuição estava bastante desequilibrada.

Assim chegou o tempo de exercitar a assertividade, a objetividade, a justiça comigo mesmo e a imparcialidade. Tudo tem seu tempo e sua duração.

A Sabedoria da Natureza

Uma semente que seja colocada na superfície da terra pode morrer. Plantada no solo, germinará com maior possibilidade.

Porém, nascida a planta, se a enterrarmos, certamente morrerá. Sua natureza é viver na superfície, recebendo a luz do Sol, a chuva, o vento...

Da mesma forma, o ciclo de nossas vidas acompanha uma seqüência maior de nascimentos, pense bem...

Os Ciclos de Vida

Depois de uma gestação de nove meses vivendo no extremo conforto do ventre de nossa mãe, principalmente quando a gravidez é bem-vinda pela mãe, somos “forçados” a vir ao mundo no nascimento.

Nosso primeiro contato é bastante impactante; chegamos a um lugar frio, cuja luminosidade nos ofusca a sensibilidade dos olhos, passamos a ter fome, sede, estímulos táteis, desconforto físico... Esse é o nosso primeiro nascimento para o mundo.

Lentamente nos acostumamos a conviver com essas condições e nos adaptamos ao mundo. Se estivermos convivendo com nossa família, entretanto, estaremos vivendo uma outra gestação, mais longa, por vários anos.

Não de nosso corpo biológico, desta vez, mas uma gestação emocional e cultural chamada de educação, que somente se conclui no momento do nosso parto psicológico, quando conquistamos nossa independência, individualidade e autonomia.

Saímos da segurança e acolhimento do seio de nossa família e aprendemos a lidar com nosso ambiente, nosso mundo, nossos próprios dramas com nossas próprias forças.

Mas haverá ainda outros partos. Como, por exemplo, o nosso parto espiritual. Quando nos encontramos longe de nossos paradigmas, preconceitos, hábitos e comportamentos, na busca do conhecimento de quem somos nós... Na busca de auto-conhecimento.

Novamente teremos que nos sustentar pelas nossas próprias forças, encontrando um sentido para nossa vida, encontrando objetivos próprios, e preenchendo as necessidades inerentes à nossa natureza. Necessidades que muitas vezes não foram aprendidas, apenas identificadas... somente percebidas... É o nascimento para nossa existência interior.

Nesse percurso, uma metáfora pode ajudar a compreender melhor a dimensão dessa busca inconsciente e, no entanto, natural.

Fronteiras entre Universos

Podemos comparar nossa existência interior (ou mente inconsciente) a uma grande sala escura. Nossa consciência, então, será representada pelo feixe de luz de uma lanterna.

Conforme entramos nessa sala, talvez acreditemos que quanto mais forte for a lanterna, melhor veremos cada detalhe da sala. Entretanto, quanto maior o raio de luz, menos sensível fica nossa vista. Mesmo porque, ao enxergarmos isoladamente cada detalhe dessa sala, não conquistamos a visão e a compreensão do todo.

Um outro caminho, aparentemente mais demorado, é entrarmos na sala sem a lanterna. E esperarmos que nossa vista se acostume lentamente à baixa luminosidade do ambiente, até que nossa sensibilidade possa progressivamente distinguir cada vez mais contornos no escuro. Até que comecemos a discernir as primeiras formas e detalhes do grande recinto.

Esses pensamentos e reflexões sobre a natureza dos vários nascimentos pelos quais passamos em nossa vida podem nos preparar para estimular parte do nosso “faro” interior para encontrar nosso melhor destino.

Um panorama mais amplo de fatos objetivos do dia-a-dia complementará o empreendimento de construir o clima e a atitude necessários para que nosso ímpeto criativo germine forte e saudável.

Uma Vista Panorâmica

Como educador atuante na formação motivacional de empreendedores, tive a oportunidade de aprender a ver nosso mundo de uma forma um tanto diferente. As soluções e idéias disponíveis em nossa cultura demonstram uma grande criatividade e flexibilidade de nossa gente para lidar com tantas dificuldades de sobrevivência.

O Vendedor de Espetinhos

No primeiro semestre de 1998, eu participava, juntamente com mais três pequenos empresários, como consultor do programa de treinamento de jovens Junior Achievement de formação empreendedora para o segundo grau.

Tal projeto era desenvolvido numa escola da zona Sul de São Paulo e, para chegar até lá, uma vez por semana, me utilizava de metrô até o bairro mais próximo, o Jabaquara, e táxi até a escola.

Certo dia, conversando com o motorista do táxi que me levava àquela escola, começamos a conversar sobre empreendedorismo. Contei a ele que acreditava que as soluções para o nosso país, cuja vocação não é essencialmente tecnológica, estavam muito mais próximas de nós do que podíamos imaginar.

Então ele começou a me contar que vinha observando um cidadão que vendia espetinhos de carne na estação do metrô em que fazia ponto e que possui um terminal de ônibus de viagem para o litoral de São Paulo.

Disse que o vendedor de espetinhos chegava para trabalhar em torno das 12h30 todos os dias. Montava sua churrasqueirinha e ficava até 19h ou 19h30 nos dias de semana. Contou que estimava suas vendas diárias em mais ou menos 200 espetinhos.

Em finais de semana e feriados, porém, chegava às (19)h e saía às 21h ou 22h para aproveitar melhor o fluxo de viajantes. Vendia aproximadamente 400 espetinhos por dia.

Então concluiu, fazendo contas de cabeça, que esse homem ganhava aproximadamente R$ 4.000 por mês! Sem considerar aquilo que faturava com a venda de cerveja, pinga e refrigerantes.

Onde está a crise? A crise é de conceitos e preconceitos. Vivemos num país no qual existem muitos preconceitos contra determinados tipos de trabalho. Embora sejam uma solução honesta para muitas pessoas.

Perspectivas de trabalho

Em 1996, envolvido em um projeto de pesquisa e implantação de programas empreendedores, soube que cada emprego na pequena e média indústria necessitava de um investimento de aproximadamente US$ 30.000.

Na mesma época, uma reportagem de jornal dizia que uma nova fábrica e laboratório de uma indústria têxtil de alta tecnologia custara US$ 9 milhões e criara apenas cinco postos de trabalho especializado. O resto era todo automatizado!

Certamente, nossa compreensão daquilo que será o nosso futuro nos ajudará a lidar melhor ou pior com as condições de adaptação e sobrevivência nesse mundo. Romper com alguns preconceitos pode ser de grande valia para encontrarmos nosso papel nesse futuro.

Acredita-se que o emprego na forma que conhecemos acabará. Porém, trabalho existe cada vez mais.

Frente de Trabalho

No ano de 1999, o governo de São Paulo criou a Frente de Trabalho para absorver uma parte dos desempregados. Um grande amigo era um dos coordenadores desse projeto e me contou dados alarmantes.

Havia 450.000 candidatos concorrendo a uma das cinqüenta mil vagas oferecidas para trabalhos não qualificados de seis horas diárias e uma remuneração de R$ 160 por mês mais uma cesta básica!

1,7% dessas pessoas possuía formação superior, ou seja, quase 6.000 pessoas formadas na faculdade! Um deles tinha PhD nos Estados Unidos! Onde estão as soluções?

Pontos de Vista

Conta uma história de consultor que uma determinada indústria de calçados americana contratou um profissional para avaliar o mercado africano. Após três semanas de viagem, enviou uma mensagem para a empresa contratante informando que não havia oportunidades porque, nas cidades em que estivera, ninguém usava calçados.

Um ou dois anos depois, outro consultor foi contratado e enviado para uma nova avaliação de mercado daquela região. Passadas duas semanas, foi enviada a seguinte mensagem: “Corram para cá... Aqui ninguém ainda usa calçados!”.

Catando Latas

Em outra ocasião, esperava uma amiga em frente ao Shopping Iguatemi, em São Paulo, para uma viagem ao interior. Estava sentado em uma mureta, enquanto observava o grande movimento de uma tarde de sábado na região.

Havia também uma promoção no local, com garotos-propaganda distribuindo balões e camisetas de um novo provedor de Internet. Então observei que, bem na minha frente, parou um moço bem arrumado, porém simples, que catava latas de refrigerante no lixo do material daquele evento promocional.

Enquanto fazia isso, puxou conversa e começou a me falar algumas coisas. Contou que começara naquela atividade de catador de latinhas de refrigerante há oito dias para complementar o orçamento mensal.

Disse que vendia a sucata de alumínio amassado a um “ferro velho” que lhe pagava R$ 1,50 por quilo. Nesses dias de trabalho, apenas em horas vagas e final de semana, havia ganhado R$ 300!

Mencionou também que tinha um emprego, de jornada integral de trabalho, como auxiliar administrativo em uma empresa e isso lhe rendia R$ 300 por mês!

Contou ainda que havia um prédio na Avenida Paulista que investia R$ 500 por dia, captados com a reciclagem do seu próprio lixo, em treinamento de funcionários.

Ainda comentou que a reciclagem de lixo nos Estados Unidos chega a 30%, enquanto aqui no Brasil ainda nem sequer chega a 2%. Tive uma verdadeira aula! O que, de fato, está em crise?

Como conhecedor de seu novo mercado de atuação, embora em poucos dias, ainda disse que hoje é tudo mais difícil, pois várias empresas já se deram conta desse cenário e estão começando a profissionalizar tais atividades e que, portanto, as oportunidades estão diminuindo.

O Guardador de Carros na Paulista

De outra feita, sentado numa mesa na calçada de um café numa travessa da Avenida Paulista, entre amigos, já tarde da noite, observei um jovem de uns dezenove anos se aproximar de nossa mesa, vestido com roupas um tanto surradas e pouco sujas.

A paranóia que a vida de paulistano nos proporciona contribuiu para que pensasse rapidamente na possibilidade de um assalto ou pedido de esmola. Grande engano!

Um dos amigos de infância presentes em nossa mesa levantou-se para cumprimentar o rapaz. “Ufa!”, pensei... Pude ver que meu amigo retirou sua carteira do bolso e pegou dois ou três reais para dar ao jovem.

Conversaram um pouco. Meu primo, também presente, cumprimentou amistosamente o garoto.

Logo ele foi embora e aquele amigo contou-me que no Natal anterior ganhara um par de tênis importados que não lhe servira. Ainda na caixa, completamente sem uso, trouxera-o para presentear o rapaz.

Com gratidão e muita educação, o jovem recebeu a caixa fechada, abriu, retirou e olhou o calçado e colocou-o de volta na caixa. Agradecendo mais uma vez, devolvera-o ao meu amigo, dizendo:

Em seguida, meu primo contou outro episódio. Diariamente, caminhava de sua casa para o estacionamento onde guardava o seu carro. Nesse percurso havia uma oficina que, certa vez, colocara uma placa na porta oferecendo uma vaga para auxiliar de mecânico.

Lembrando-se daquele rapaz que “trabalhava” à noite na rua, meu primo buscou informações sobre a natureza daquela vaga e serviço.

O dono da mecânica, seu amigo, dissera que pagaria R$ 300 por mês no início. Ensinaria o ofício e, caso fosse bom funcionário, o salário poderia chegar até a R$ 400!

Oferecendo essa oportunidade àquele moço, surpreendeu-se com sua recusa e, no entanto, grande gratidão pela sua iniciativa. O jovem disse-lhe que ganhava R$ 1.500 por mês como guardador de carros à noite!

Uma Compreensão Diferente

Após a reflexão sobre esse breve cenário, vamos pensar um pouco sobre a natureza de nossa força criativa, como ela se expressa, como ela se apresenta em cada momento.

De tantas e tantas coisas que tenho ouvido falar sobre criatividade, sempre me interesso mais pelas abordagens que levam em consideração a realização efetiva ou concretização das idéias ou de pensamentos.

Esses temas são muito controvertidos, principalmente considerando-se que a fonte das idéias pode estar em alguns cantos da mente interior ainda pouco conhecidos.

Muitos pesquisadores têm apresentado técnicas e procedimentos que permitem encontrar algumas portas de acesso aos “ambientes mentais criativos”. A noção de ambiente mental (e seus estados emocionais) é útil de ser utilizada para o modelo que iremos comentar.

Essa linguagem também nos aproxima da compreensão do mundo virtual e da informática, que tão rapidamente nos conduzem ao futuro.

Não estranhamos muito falarmos sobre criatividade, pois estamos muito habituados a considerar “a criatividade” fora de nós, como se tivesse uma identidade própria, como se fosse algo ou alguém.

Faça uma breve brincadeira: elabore ou construa uma frase afirmativa e verdadeira, na primeira pessoa do singular (lembra-se das aulas de língua portuguesa?), com as expressões “minha criatividade”, “minha capacidade de criar” e “meu poder de criar”.

Gostou das sensações e percepções? Muitas pessoas, nesse momento, gaguejam ou não conseguem articular os pensamentos de forma organizada, tamanha a sua distância dela; afinal de contas, para uma criança, muitas vezes a expressão criativa mais causa problemas do que soluções.

Agora, pense em outras frases do mesmo tipo com as expressões “Eu crio” (no presente simples), “Eu criei” (no passado simples) e “Eu criarei” (no futuro simples). Seja honesto e, sem julgar, observe suas dificuldades, movimentos internos e seus sentimentos e percepções ao assumir a sua identidade de ser criativo.

Nesses momentos, talvez, você tenha tido algum “insight”: não existe algo que possamos chamar de criatividade! Criar é um processo inerente à nossa forma de expressão.

Por incrível que pareça, até os nossos chamados bloqueios fazem parte de nossa expressão criativa, mas isso é uma história para depois. Se, entretanto, você “patinou” no exercício anterior, quero apresentar a você mais um “lubrificante”: faça uma lista de adjetivos que você se atribui ou que as pessoas atribuem a você.

Sim, algo simples, não complique. Minha lista seria: eu sou alto, loiro, magro, tenho boa coordenação motora, sou teimoso, alegre etc. Anote essas qualidades ou defeitos em uma coluna à direita de uma folha de papel.

Agora, na outra coluna, ao lado de cada um daqueles adjetivos, escreva o antônimo correspondente (a idéia ou qualidade exatamente oposta). No meu exemplo, teria escrito: baixo, moreno, gordo, desastrado ou atrapalhado, adaptável, triste “anti-etc”.

Agora observe que existem pelo menos dois tipos de adjetivos diferentes. À primeira categoria quero dar o nome de “Verdades Simples”: alto/baixo, loiro/moreno, magro/gordo etc.

Ao considerarmos verdadeiro o primeiro dos adjetivos, o segundo é automaticamente falso.

Então, “Verdades Simples” são aquelas cuja negação é uma mentira: se eu sou magro, estarei mentindo ao afirmar que sou gordo.

Porém, existe uma segunda categoria de verdades, e estas nós não aprendemos na escola.

Se tivéssemos aprendido, nosso hábito de julgar e pré-julgar os acontecimentos teria se estruturado de forma diferente. Estas são as “Verdades Profundas”: “Muito prazer em conhecê-las!”. Observe...

Estarei falando a verdade quando afirmo que sou alegre; também estarei falando a verdade se afirmar que também sou muito triste, pelo menos em algumas ocasiões. Neste momento, percebemos que ser alegre ou ser triste não se refere a uma questão de identidade, mas sim de estado interior.

Verdades Profundas são aquelas cuja negação também é uma verdade. E acredite, o universo humano está muito mais povoado de verdades profundas do que de verdades simples.

Grosso modo, este é um dos importantes recursos de flexibilização interna para nos colocar em nossos estados criativos: a habilidade de sustentar na consciência pontos de vista contraditórios. Lembra-se da dialética?

Sua estrutura tinha o objetivo de conduzir percepções e gerar conclusões. A tensão interior ativada pelas contradições (tese versus antítese) promove uma pressão criativa para o processo de síntese.

No caso específico da educação, esta é uma das principais ferramentas da Aprendizagem Inconsciente: construir e produzir introvisões (“insights”), ou promover sínteses criativas, ou seja, o aprendizado profundo.

De outro modo, Aprendizagem Inconsciente consiste no processo de estimular e praticar a estabilização de estados de consciência alternativos – exatamente como outros pontos de observação da nossa realidade.

Simplificadamente, é manter na consciência percepções ou pensamentos paradoxais – esse é um dos estágios do desenvolvimento. Para nossa época, talvez seja uma das etapas mais importantes.

Acreditem em mais uma agora: isso é tão antigo quanto o conhecimento humano, isto é, muitos de nós já ouvimos falar sobre os métodos pouco convencionais dos mestres zen-budistas para educar os seus discípulos no caminho da meditação, utilizando-se do “Koan”.

No Taoísmo, o conflito simbólico entre Yin e Yang (ou seria a complementaridade?). Na Física Quântica, o paradoxo onda-partícula. Na ontologia, ser ou não ser.

Essa abordagem inicial inclui pelo menos duas etapas importantes do processo de construção do Criar Empreendedor (talvez melhor definido pela equação: “Creatividade” = Criatividade + Motivação para Realização), afinal de contas, qual é a diferença entre aquelas idéias que criamos e realizamos e aquelas que, mesmo bem planejadas, nunca são concretizadas?

Aquelas duas etapas significativas correspondem à percepção e à observação (não necessariamente conscientes). Todos nós, seres humanos, vivemos num mesmo planeta, porém, alguns observam e vêem o mundo de uma maneira particular que lhes permite ter determinadas idéias e percepções que, supostamente, estão à disposição de todos.

Como eles percebem coisas que estão “debaixo do nariz” de qualquer um? Para entender o funcionamento desse processo e se conectar a essa dimensão de percepções, pondere a seguinte questão: como você escolhe o que vai perceber?

Como você direciona a sua atenção consciente? Perceba que essa questão é extremamente séria.

Considere também que nossa tomada de consciência ou percepção depende de uma seleção permanente entre todas as possibilidades de percepção disponíveis que nos impactam através dos órgãos sensoriais (incluindo visão, audição e tato periféricos), somadas a todos os pensamentos e idéias independentes ou decorrentes da percepção.

De fato, escolher o que perceber é um processo interior organizado a partir de nossas experiências anteriores, de nossos paradigmas e de nossas crenças e referências a respeito de quem somos (nossa identidade).

As etapas subseqüentes à percepção e observação são a organização das informações, o processamento e a síntese de conhecimentos e, finalmente, a expressão.

Porém, entre as duas primeiras e estas, existe uma interface que o estudo dos paradigmas propõe como uma dúvida existencial: “O que nós percebemos está dentro ou fora de nós?”.

Você deve ter percebido que algumas dessas perguntas são um tanto quanto incômodas. De fato, elas carregam a intenção de construir um espaço vazio entre aquilo que somos e o nosso próprio instrumental de observação e de comportamento.

Essa é uma das abordagens mais potentes para adentrarmos e estabilizarmos os estados de consciência criativos. A maior parte dessas perguntas diz respeito a Verdades Profundas, e suas respostas normalmente são múltiplas.

Mas as respostas a essas perguntas todas não são tão importantes quanto as próprias perguntas – medite a respeito delas, são um dos possíveis caminhos para aprender a estabilizar outros estados de consciência não usuais em nossa cultura e educação.

Afinal de contas, se você acha útil ativar seus estados criativos e incrementar sua performance de criador, um dos possíveis caminhos é começar a perceber as coisas de formas diferenciadas.

Além disso, esses ambientes, enquanto domínios de verdades profundas, constróem a tensão interna necessária para poder abrir algumas janelas de percepção e nos coloca em alguns estados de perplexidade, surpresa e criatividade.

Ocasionalmente, mesmo assumindo o papel de educador, aceito um outro papel quando algum amigo solicita uma intervenção terapêutica ou consultoria na forma de “personal training” para planejamento pessoal.

Chamo essa linha de produtos de “soluções criativas e planejamento pessoal” (não as minhas, e sim as dele). Na prática, após escutar longas histórias sobre cenários previamente construídos, normalmente observo que o que nós já sabíamos nos trouxe até onde estamos. De agora em diante, o importante é o que ainda não sabemos.

Quem É o Sr. Bloqueio

Por muitos anos, o conflito aparente entre a força criativa e os limites de expressão dessa força criativa (comumente conhecido como bloqueio) tem sido apresentado como algo a ser vencido por um dos personagens: a chamada criatividade. Mas essa é essencialmente uma conclusão do mundo adulto.

No universo infantil, de alguma forma, esse conflito parece ser construído e ativado para que os bloqueios perseverem. Contraditório, não? Existem pesquisas que afirmam que uma criança, até os sete anos de idade, já escutou pelo menos 100.000 vezes a palavra não.

Testes de criatividade realizados pelo Dr. Calvin Taylor, da Utah University, apresentados no livro do Dr. George Land, indicam uma realidade impressionante.

Oito tipos de testes aplicados num universo de aproximadamente 1.600 indivíduos avaliados em diferentes fases de vida evidenciaram o seguinte: 98% de um grupo de crianças, cuja idade se situava entre três e cinco anos, apresentou desempenho de criatividade correspondente à genialidade.

32% das crianças entre oito e dez anos possuía grau de gênio; apenas 10% entre treze e quinze anos ainda permanecia “gênio”; e, finalmente, restou apenas 2% dos jovens adultos acima de vinte e cinco anos com essas habilidades ativadas.

De alguma estranha forma, parece que as crianças aprendem a não ser criativas.

Verdade! Uma outra forma de entender os chamados bloqueios mentais ou emocionais é percebê-los como construções criativas de nossa própria mente interior para lidar com os regulares problemas causados pela expressão descontrolada de nossos impulsos criativos.

Observe que essa força criativa que temos dentro de nós (ou que somos nós) se expressa constantemente através das mais diversas formas.

A Natureza da Força Criativa

Tome algumas inspirações mais profundas e, ao final da quinta ou décima respiração mais intensa, deixe que, naturalmente, o ar seja expirado até uma posição de repouso.

Perceba que, após uns poucos instantes de descanso do ato de respirar, espontaneamente você volta a respirar. Como isso é surpreendente, já pensou? É tão natural e espontânea a expressividade vital que, muitas vezes, nem nos damos conta: a vida se perpetua em sua forma criativa de perceber e se expressar.

Estamos investindo um certo tempo e energia na integração e resgate de muitas habilidades e percepções que, por alguma razão importante até aqui, não estiveram em uso.

Quero exemplificar a observação anterior, para que possamos entender melhor o significado e a importância da adequação cultural e social para cada indivíduo.

Dois exemplos da vida diária servirão para coordenarmos, sem prévios julgamentos e de uma maneira mais respeitosa, nossos interesses de mudança e transformação com nossos antigos programas de sobrevivência e adequação social, profissional e pessoal – condições que, efetivamente, nos destacam e compõem nossa própria identidade.

O Tigre e as Meninas

Certo dia, conversando com uma amiga, tomei conhecimento de sua intenção de levar a um museu sua afilhada que viria para São Paulo no prazo de duas semanas. Ofereci-me como companhia caso ela mudasse seu passeio para uma ida ao Jardim Zoológico. Aprovado.

Duas semanas depois, fomos com duas meninas de sete anos (sua afilhada e uma priminha) visitar o parque. Travei conhecimento com as duas pequenas e rapidamente iniciei uma brincadeira durante nossa conversa no caminho.

Comentei com elas sobre o passeio e os animais todos que iríamos ver e perguntei a elas se tinham visto o meu tigre. Qualquer pessoa que já tenha lido Calvin e Haroldo (Calvin & Hobbes) nas tiras de jornal ou edições especiais em quadrinhos sabe que trata-se de um personagem imaginário.

E eu possuo o meu: um imenso tigre que vive me rondando – uma doce e infantil fantasia (ou um anjo da guarda, para quem preferir).

Tão logo iniciei a apresentação do meu tigre, fui considerado mentiroso. Criou-se então uma discussão: elas afirmavam (já não muito seguras) que eu estava mentindo e eu afirmava que não mentia, mas que aquilo era “uma outra verdade”.

Houve tensão no ambiente. Passados alguns minutos, a discussão sobre o meu tigre naturalmente se calou, então uma delas “sacou” uma pergunta diretamente endereçada a mim: “Quem declarou a Independência do Brasil?”.

Respondi, brincando com um nome diminutivo qualquer. Imaginem, logo disseram que eu era burro e que não sabia a resposta; em seguida me contaram a resposta certa.

Disse-lhes que ficaria feliz de ir ao Zoológico, pois poderia encontrar-me com meus parentes mais próximos: as zebras, os cavalos, outros eqüinos... Novamente, outro teste: perguntaram-me quem era a esposa de D. Pedro I.

Errei outra vez! Perguntaram-me, então, quem era o seu “amigo do peito”. Mais uma vez, errei. Disseram-me que eu não sabia nada e que era burro!

Não tardou, voltaram a falar sobre o meu tigre. Mais uma vez fui considerado mentiroso. Mais alguns minutos na repetição daquela mesma discussão.

Pela segunda vez, então, repetiram todo aquele questionamento a respeito da História brasileira – novamente me mostrei incompetente e elas declararam isso, porém, desta vez, para cada pergunta eu respondia com os diminutivos dos nomes que elas haviam me contado: isso ainda não servia.

Então percebi algo muito interessante. Todos sabemos que, em geral, as crianças são conhecidas pela sua habilidade de conviver com um mundo paralelo, imaginário.

Também sabemos que o processo de aceitação social (poderíamos chamar também de iniciação social ou sociabilização) percorre uma estrada de demolição do mundo imaginário através de seu julgamento como irreal. Afinal de contas, o mundo adulto deve ser real e objetivo.

Pois bem, elas me testaram o quanto conseguiram. Não utilizei a linguagem do certo e do errado e muito menos o discurso adulto. Tornar-se adulto e conquistar o poder, a autonomia e a liberdade nesse mundo é um sonho de quase toda criança (foi o meu também).

E isso significa romper com o mundo infantil e assumir as mentiras dos adultos e suas manias. Mentiras, sim! Qualquer pessoa que chegue a estudar a real História do Brasil ou geral em nível universitário saberá que todas aquelas historinhas que ouvimos, quando éramos crianças, sobre heróis e pioneiros não foram muito bem contadas.

Na verdade, nada bem contadas – muito mal contadas. E passamos anos e anos estudando aquelas fantasias. Muitas delas, no nível escolar primário, são grandes e muito bonitas.

As garotinhas não queriam acreditar no meu tigre imaginário, e ficaram testando minha seriedade buscando respostas de adequação cultural. Pior que isso.

Ouvem algumas histórias fantasiosas em tão tenra idade, repetidamente, durante anos, e saem pelo mundo afora passando adiante essas fantasias – porém, aceitas como reais pela grande maioria das pessoas de uma mesma cultura.

Aí acaba se cristalizando sua identidade pessoal e cultural. Peter Senge, grande cientista americano, conta uma história muito interessante em um de seus livros, “A Quinta Disciplina – Caderno de Campo”.

Diz algo a respeito de um povo africano cuja saudação entre as pessoas era: “Te vejo”. A reposta correspondente era: “Eu estou aqui”. Nessa cultura, um indivíduo ficaria muito ofendido caso alguém lhe encontrasse sem cumprimentá-lo, pois estaria negando-lhe a existência e, conseqüentemente, retirando-lhe a própria identidade. É claro, essa é “uma outra cultura”. Em nossa civilização, conquistamos respeito, reconhecimento e identidade pelo que sabemos repetir dos conhecimentos culturalmente aceitos como verdadeiros. Ou através da representação de ações ou frases realizadas nos programas de televisão pelos personagens em evidência em cada época.

Certamente, então, qualquer recurso, comportamento ou estratégia que tivemos ou usamos em alguma época de nossa vida e, conscientemente ou não, escolhemos deixar de utilizar para assumir uma identidade reconhecida profissional ou socialmente, poderá ser reativada.

Agora, entretanto, não devemos nos condenar, ou mesmo julgar algumas decisões conscientes ou não. Naquela época, talvez tenha sido muito mais importante a conquista do processo de sociabilização e a construção de uma identidade.

No presente, porém, poderá ser muito importante para nossa criatividade e realização que resgatemos aqueles potenciais que acabaram por adormecer em nosso interior. Afinal de contas: “Por que ser quem somos se podemos ser bem melhores?” (Richard Bandler).

Síndrome de Pânico

Há uma outra história interessante de aprendizagem rápida que tive oportunidade de observar. Voltando para casa num domingo à noite, atravessei a Avenida Paulista, como faço muitas vezes, por dentro do Metrô.

Lá havia um cartaz divulgando uma palestra sobre Síndrome de Pânico. Seria na segunda-feira, o dia seguinte, às 19 horas, na Câmara Municipal. Ótimo, fui lá para ver.

De imediato, percebi algo bastante estranho: seria realizada no oitavo andar e começou com 45 minutos de atraso! Eu não sofri com isso. Durante a espera, tive oportunidade de um longo bate-papo com um jornalista conhecido.

Porém, fiquei pensando como estariam se sentindo alguns portadores da síndrome que porventura estivessem lá. A resposta não tardou.

De fato, mesmo antes de iniciar o evento, que reuniu aproximadamente 200 pessoas, uma senhora, sentada à minha frente, virou-se para nós e disse estar interessada em nossa conversa, cujo assunto era uma outra forma de entender a manifestação (ou seria expressão?) da síndrome.

Essa senhora, que havia sido levada por duas moças (uma, acredito, era sua filha), não queria mais permanecer no recinto por estar se sentindo muito mal. Ao virar-se para nós e expressar seu desconforto, formulei uma pergunta: “A senhora gostaria de se sentir melhor?”.

Surpresa! Por um lapso de tempo, pude perceber em seu rosto uma expressão de surpresa e confusão. Pensei comigo: “Talvez nunca ninguém tenha lhe feito essa pergunta!”.

Passados alguns instantes, ainda meio confusa, respondeu que sim. Pedi, então, que respondesse quatro ou cinco perguntas, após tê-las escrito em uma folha de papel. Terminadas as respostas, terminado o mal estar, naquele momento.

Finalmente iniciou a palestra. Havia uma mesa onde ocupavam assentos um deputado, um representante do prefeito e algumas profissionais de saúde pública (médicas e psicólogas).

Após a abertura oficial da palestra, sucederam-se os seguintes eventos: uma médica ou psicóloga, por vinte minutos, falou sobre a instituição Associação de Síndrome de Pânico (ou algo assim) e suas dificuldades de sobrevivência por falta de recursos e fez um longo agradecimento ao deputado que presidia a mesa pela sede dessa associação, que havia sido providenciada por ele.

Vinte e cinco minutos de apresentação da instituição e história de sua formação, complementados por depoimentos de três ou quatro pessoas beneficiadas pelo convívio nessa instituição (já eram 20h30), e uma longa indução hipnótica de aproximadamente 75 minutos realizada por uma psiquiatra que descreveu, detalhadamente, toda a evolução da sintomatologia dessa síndrome.

Acredito que as intenções de todos esses profissionais eram muito boas e puras. Porém, os resultados, considero catastróficos. Para ter uma idéia, antes do final da última parte da palestra, mais da metade dos presentes havia se retirado da sala.

Chamei de indução hipnótica por dois motivos: os resultados nas pessoas (havia uma amiga, portadora de alguns sintomas da síndrome, que me confidenciou, ao final do evento, que havia sentido coisas que não sentia há muito tempo) e os padrões de linguagem e entonações utilizados pela médica, provavelmente sem perceber.

Problemas de Uns São
Oportunidades de Outros

Nessa ocasião, lembrei-me de um fato muito curioso que eu vivera. Nas festas de Natal do ano anterior, eu havia formulado votos de feliz Natal e ano-novo próspero para muitos clientes da minha academia.

Alguns alunos são médicos e, para um destes, dissera que torcia e esperava que seu consultório estivesse lotado de pacientes no ano seguinte. De fato, desejei a sua prosperidade.

Porém, ao desejar-lhe aqueles votos, tomei consciência de algo muito sério em nossa cultura: vivemos orientados e focalizados em problemas, não em soluções. Imagine: o que estaria pensando um médico ou psicólogo, em seu consultório, se tivesse muitos horários disponíveis em sua agenda?

Aquela médica psiquiatra, reproduzindo toda a sua experiência profissional, poderia ter usado aqueles 75 minutos para falar sobre soluções. Poderia ter tentado, pelo menos, fazer com que aquelas pessoas se sentissem melhor.

Mas ela provavelmente aprendera apenas a perceber problemas. Sua intenção, quero acreditar, era boa. Porém, sua intervenção, descobri, foi desastrosa.

Voltemos agora às soluções. Mais precisamente às questões de aprendizagem e de liberdade para criar nossas próprias soluções.

Se quisermos aprender mais e mais rápido, temos que lidar com alguns limites que, ao longo de nossa vida e educação, colocaram ou colocamos dentro de nós mesmos.

Apresento isso dessa forma porque acredito que, inconscientemente ou não, no mais íntimo ser de cada um de nós, aprendizagem é um valor essencial em nossa hierarquia.

Haja vista algumas evidências: por mais cansados e exaustos que estejamos, se gozarmos de uma saúde razoável, podemos dormir talvez oito, talvez quinze, ou mesmo vinte horas, mas, mais cedo ou mais tarde, tomamos uma inspiração profunda, abrimos os olhos e não conseguimos mais ficar deitados na cama.

Mais cedo ou mais tarde haverá algo nos impelindo e impulsionando para a vida e seu movimento próprio.

Retornando mais uma vez, os bloqueios são construções mentais para que o mais profundo de nosso ser possa gerenciar os transtornos causados pela livre expressão dos nossos próprios sentimentos e criações durante uma longa etapa de nossa vida, que inclui a adequação social ou sociabilização.

Isso significa que: a) 98% de nós, pelo menos, somos gênios criativos; b) o conflito que dizem existir entre criatividade e bloqueio é apenas aparente: não é real. Os próprios bloqueios são construções criativas (mecanismos de segurança de sobrevivência e aceitação cultural e social).

Portanto, esse conflito na superfície (“fictício”) poderá ser aproveitado a partir de um processo de síntese criativa, no qual os contrários podem coexistir simultaneamente.

Na prática? Abraçamos a sombra (segundo Jung). Damos boas-vindas aos nossos bloqueios. Ao darmos as boas-vindas, podemos agradecer-lhes todo o seu empenho e trabalho para nos preservar de nossa expressividade descontrolada. De frente para eles, então, podemos “contemplar-lhes os olhos e a face”.

Nesse processo contemplativo, nosso ponto de vista, o local a partir do qual observamos, permite-nos ver ou perceber uma outra dimensão causal e de relacionamento nosso para com a situação/solução a ser elaborada ou criada.

Esse atalho permite-nos observar a realidade de uma dimensão cuja passagem não está mais sendo protegida pelos guardiães chamados bloqueios.

Feita essa conexão, obtém-se outra temporária ordem interna: nesse novo ponto de vista, ocorre uma síntese onde o objeto de nossa criação e nós, os criadores, se relacionam através de significações e conceitos diferentes. Eureka!

Sobre o Autor

Para quem, como eu, que teve o Dr. Spock (personagem de seriado de ficção científica Star Treck) como ídolo e modelo durante a adolescência, certamente seria muito difícil falar sobre criatividade e emoção.

Mas a sabedoria de minha mente interior soube conduzir minha vida por caminhos nos quais pude encontrar outras formas de ser, muito mais sensíveis e criativas.

Os orientais dizem que no início do caminho consideramos que um rio é um rio e uma montanha é uma montanha. Durante a caminhada, descobrimos que um rio não é um rio e uma montanha não é uma montanha.

Finalmente, ao chegar, percebemos que um rio é apenas um rio e uma montanha é somente uma montanha.

Essa é uma forma simbólica de descobrirmos que os conflitos e contradições que experimentamos em nossas vidas são parte integrante do caminho.

Pessoalmente, depois de muito desgaste e esforço, descobri a importância da tensão no processo criativo.

Também passei a aceitar com mais serenidade aqueles sentimentos que são considerados tão errados e inadequados, tais como o medo, a ansiedade, o nervosismo e seus semelhantes.

Eram apenas “sinais de trânsito” orientando por quais caminhos deveria seguir. Como se aquilo que eu mais detestasse não somente fizesse parte de mim mesmo, mas também contivesse em si a solução que eu buscava.

Essa foi uma grande contradição! Se tivesse evitado tais sentimentos e crises em minha vida, acredito que não teria conquistado a compreensão presente nesta coleção.

Por mais sofridas que tenham sido essas experiências, enquanto as estava vivendo, hoje posso agradecer sinceramente à Providência por tais obstáculos no meu caminho.

Tudo ganhou um novo colorido, onde os meus maiores bloqueios demonstraram ser meus guardiães bem treinados para me guiar pela vida.