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Transformando-se: Saúde e Bem-Estar

 

Fantasias I

© Walther Hermann Kerth

Um dia, conversando com uma amiga numa reunião de amigos, ela contou-me que em quinze dias viria a São Paulo sua afilhada que morava no interior. Todas as vezes que a menina vinha, ela tirava um dia de folga em seu trabalho para levá-la para passear e brincar. Naquela ocasião, então, pretendia levar a pequena ao Museu do Ipiranga.

Contei-lhe que se quisesse ir ao Jardim Zoológico, eu lhe faria companhia, pois era um passeio que me interessava, há muito tempo, repetir. Disse-me que o passeio que planejara seria muito importante para a construção da cultura e da educação da pequena. Sem sombra de dúvida, concordei. Porém, eu não tinha interesse em visitar o museu.

Nossa conversa tomou outro rumo. A festa se foi e, após uma semana, surpreendi-me com sua ligação, interessada em saber se eu ainda iria ao Zoo - mudara de ideia. Mais uma semana se passou e nos encontramos para o passeio. Ela passou em casa para buscar-me.

Quando entrei em seu carro, havia duas meninas de sete anos no banco de trás. Sua afilhada e uma prima da pequena, em cuja casa ela se hospedava quando vinha a São Paulo. Elas já sabiam o meu nome, escutei o delas, mas logo esqueci.

Foi, dessa forma, iniciado o primeiro contato. Sinto-me, muitas vezes, inábil no trato com crianças - fui filho único e, praticamente, educado entre adultos. Porém, enquanto educador na prática esportiva, desenvolvi algumas formas empíricas de relacionamento com crianças.

Conforme minha amiga iniciou o percurso em direção ao parque, virei-me para trás, no carro, para interagir com as crianças. Começamos a conversar. Entre algumas coisas que falamos, disse-lhes que estávamos a caminho do Zoológico e que iríamos ver o macaco, a zebra, a girafa, o elefante, o cisne, o leão...

Então disse: "Por falar em leão... Eu tenho um tigre imenso!". Rapidamente retrucaram: "Que tigre... Que tigre?". Continuei: "Ah, meu tigre é lindo, tem um pelo bonito, olhos grandes, brilhantes e dourados...".

Assim elas se empolgaram: "Onde está o tigre?". Respondi: "Meu tigre? Ah, ele está sempre por perto de mim, junto comigo... É mesmo, é verdade, ele não cabia aqui dentro... Por isso subiu na capota quando eu entrei no carro... Vocês não o viram!".

"É mentira... Não existe nenhum tigre... Se ele tivesse subido na capota, ele teria amassado o teto do carro!". Opa! Escorreguei, pensei. Então disse: "Ah, mas meu tigre é mágico... Ele só pesa quando ele quer pesar, por isso não amassou a capota...".

Qualquer leitor que conheça as histórias e cartoons do Calvin e do Haroldo (Calvin & Hobbes, de Bill Waterson) sabe do que eu estivera falando. Insisti: "É verdade, eu tenho um tigre...". Elas mais uma vez atestaram: "É mentira... Você está inventando... Não existe nenhum tigre...".

Eu reforçava, com suavidade, e cada vez contava-lhes algo diferente sobre o meu tigre... Cada vez elas se esforçavam mais para negar-lhe a existência. Esse conflito permaneceu por vários minutos.

Minha amiga, ao volante, sabiamente, mantinha-se em silêncio. Finalmente esse assunto se acalmou, quase repentinamente. Lembro que tive a oportunidade de respirar mais profundamente uma ou duas vezes... Lá de trás veio, então, uma pergunta "mortal": "Quem declarou a Independência do Brasil?".

Nada mais justo, na minha opinião. Depois da provocação que eu fizera, devolveram-me em igual moeda. Agora questionavam as bases de sustentação da minha noção de realidade. O desafio continuou, eu diria perpetuou!

Inicialmente, respondi que não sabia, depois tentei alguns nomes: "Foi o Seu Joãozinho"; "Então... Foi o Seu Manoelzinho". Negativas. Não somente diziam que eu estava errado, como complementavam com a constatação de que eu era burro!

Interagindo com elas, heroicamente continuei a brincadeira, foi uma breve eternidade... Enfim, contaram-me a resposta certa! Sem descanso, a outra pequena indagou: "E quem era a esposa do D. Pedro I?". Para essa pergunta não havia a mínima chance de acertar, porém, tentei: "Foi a D. Mariazinha...".

Tudo se repetiu, diziam que eu era burro, não sabia a resposta... Arrisquei mais alguns nomes. Não acertei. Finalmente, elas deram-me a resposta certa!

Continuaram: "Quem era o amigo do peito do D. Pedro I?". Sem condições... Experimentei alguns nomes e, errando, descobri através delas qual era a resposta certa!

A essa altura, já tínhamos percorrido quase metade do percurso para o Jardim Zoológico. Num dia de semana, esse caminho toma quase quarenta minutos! Após um rápido intervalo, depois de todas aquelas perguntas, seguiu-se outra: "E o tigre?". Começou tudo outra vez!

Eu contava sobre as características e hábitos do meu tigre e elas afirmavam, já com menos convicção, que eu estava mentindo. Repetidamente, reforcei minha afirmação: essa era uma outra verdade! Eu não estivera mentindo. Mais alguns minutos se foram nesse "duelo". Finalmente, também silenciou.

Mais outra vez ouvi: "Quem declarou a Independência do Brasil?". Nessa oportunidade, então, afirmei que não erraria a resposta... Agora sabia a certa: "Foi o Seu Pedrinho". Não, não era essa a resposta. Repetiram que eu era burro! Disseram que tivera sido o senhor Dom Pedro I.

Tentei explicar-lhes que eu estava falando da mesma pessoa. Dom Pedr-o... Seu Pedr-inho... Eram o mesmo! A minha resposta não servia. Elas sim, tinham a resposta correta. Ainda mais uma vez perguntaram-me sobre a esposa de D. Pedro I. Disse-lhes que havia sido a D. Dina. Também não servia...

A resposta certa era Dona Leopoldina. Ainda uma vez mais perguntaram-me sobre seu amigo do peito. Respondi: "Foi o Boni!". Não, não! José Bonifácio era o certo. Esforcei-me para convencê-las, algumas vezes, que se tratava do mesmo! Era isso que eu quisera dizer! Não! Não servia...

Então tive um insight. Dirigi-me à minha amiga, ainda em silêncio, já num pequeno congestionamento na avenida do parque, e disse: "Puxa vida! Elas não querem acreditar no meu tigre... Ainda mal sabem falar, mal sabem andar e já estão acreditando na maior `história da carochinha'!".

Eu não sei o que você, leitor, estudou de história, posso falar apenas sobre mim. Passei oito anos do ensino fundamental, ano a ano, ouvindo a mesma coisa nas aulas de Estudos Sociais e História.

Quando, enfim, cheguei ao segundo grau, os professores de história então, com certo cuidado, contaram-me que a história aprendida anteriormente seria acrescida de alguns novos detalhes e algumas situações seriam entendidas com maior profundidade.

Mas aqueles de vocês que chegaram a estudar história no ensino superior, na faculdade, devem ter observado quão poucos são os professores que têm o respeito e o cuidado com os onze anos investidos até então no estudo da história. Não raro, iniciam seus cursos dizendo: "Esqueçam tudo o que aprenderam até hoje, agora vocês vão finalmente estudar história!".

E nem isso me garante ser essa a verdadeira história, afinal de contas, nunca escutei a versão dos povos indígenas, dos Maias, dos Astecas, dos povos conquistados e perdedores em geral!

Uma matéria de capa da revista "Isto é" de outubro ou novembro de 1.997 dizia, em letras garrafais, algo como: "A verdadeira História do Brasil"; subtítulo: "A história que não nos contaram".

Outra reportagem de capa, em letras garrafais, da revista "Superinteressante" de fevereiro de 1.997, talvez 1.998: "Humilhe o seu professor de História"; tinha um subtítulo semelhante ao primeiro.

Diante disso, ainda acredito ser extremamente importante esse longo processo denominado sociabilização: uma longa jornada em que construímos nossa identidade social, ao aprender e memorizar os referenciais do mundo e da nossa cultura. Através disso conquistaremos nosso espaço no ambiente social e adulto. Para isso, devemos aprender seus conhecimentos, seus códigos, seus hábitos e, também, suas fantasias e suas mentiras...

Todos nós sabemos que não existe ninguém mais apto a conviver com um universo de fantasias do que as crianças. Aquelas duas pequenas, tão cedo, já estavam abrindo mão dessa dimensão da própria existência! Não aceitavam o meu tigre!

Acredito que não exista nada mais importante para uma criança, seja consciente ou inconscientemente, que o carinho, a aprovação e a aceitação dos adultos, principalmente dos pais. Penso também que, inconscientemente, talvez não exista nada mais desejável para uma criança saudável do que o impulso de conquistar o poder, a autonomia e a liberdade de ir e vir que possui um adulto - talvez esse seja o modelo que perseguem para se desenvolverem.

Ninguém... Absolutamente ninguém nos instala aquilo que costumamos chamar bloqueios (eu até prefiro chamá-los guardiães do passado, conforme perceberemos adiante). Nós é que, criativa e insistentemente, ao longo do processo de sociabilização, enquanto construímos a nossa personalidade e nossa forma de expressão social, paulatinamente, passamos a rejeitar aquelas formas de nos comportar que nos conduzem à rejeição, reprovação ou repreensão enquanto adotamos formas de ser e de se expressar culturalmente apropriadas.

Finalmente, quando constituímos nossa identidade social, depois desse longo caminho chamado sociabilização, em geral inconscientemente (às vezes conscientemente), constatamos um certo constrangimento gerado por essa mesma identidade - limitações e tensões. Como se chegássemos à conclusão que a identidade construída tenha se tornado uma "prisão" mental, emocional e psicológica.

Nessa ocasião, em geral, inicia-se uma nova jornada em nossas vidas: já conhecendo-se os códigos de conduta social, empreendemos um novo caminho, uma jornada de resgate de nossa maneira mais essencial de expressão, de ser e de sentir. Não acredito ser possível oferecer motivação às pessoas... Mas creio que, ao ajudar pessoas a se libertarem de alguns hábitos, condicionamentos, convicções e crenças, tensões e preconceitos desatualizados, poderemos melhorar nossa condição e, aí sim, ajudá-las indiretamente a encontrar seus caminhos - aqueles que despertarão seu entusiasmo e vontade de viver.

A principal consequência disso é começarem a manifestar aquilo que chamo de motivação poderosa!

Clique aqui para ver mais imagens que podem flexibilizar sua compreensão da realidade

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