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Transformando-se: Relacionamentos

 

Respostas Certas

© Walther Hermann Kerth

Certa vez, durante uma sessão de perguntas e respostas quando proferia uma palestra sobre hipnose, uma senhora se apresentou, disse que gostara muito de algumas colocações e que desejava conhecer minha opinião a respeito do seguinte problema que vivia:

"Tenho um filho de nove anos. Não sei mais o que fazer com ele. Ele destrói todos os seus brinquedos! O que você me aconselha a fazer? Já lhe disse, várias vezes, que não lhe daria mais nenhum brinquedo até que aprendesse a cuidar dos que possuía. Ele acaba ganhando de outras pessoas... Além disso, quando percebo que não tem com o que brincar, acabo me comovendo e comprando-lhe um novo. Então novamente ele o quebra. Isso me deixa bastante irritada e repito que não vou mais lhe dar brinquedos e que ele deve aprender a cuidar de suas coisas. Mas você sabe como a gente é, quando eu o vejo sem brinquedos... eu não aguento e acabo comprando algo novamente; e ele continua quebrando-os. Não consigo fazê-lo entender que deve mudar o seu comportamento! O que você acha que deve ser feito?"

A extensa apresentação do problema me proporcionou tempo suficiente para pensar. Então eu lhe disse o seguinte:

"Eu tenho pelo menos três respostas diferentes para considerar... A primeira delas talvez seja a mais significativa dos pontos de vista de seu filho e meu, quando criança. Eu também fui uma criança que quebrava muitos brinquedos. Na verdade, eu não os jogava no chão para descobrir se quebravam, embora, às vezes, os incendiasse. Tampouco os arremessava pela janela... Eu brincava, explorava, experimentava e, muitas vezes, eles se quebravam. Ocasionalmente, fazia comboios de carrinhos de ferro amarrados por fios de linha que bloqueavam as rodinhas ao se embaraçar nelas. Muitas vezes desmontava um brinquedo para entender como funcionava. Inicialmente, ao remontá-los, talvez sobrassem algumas peças e, certamente, não funcionavam mais. Essas eram as minhas formas de brincar e explorar esse universo.

Passou-se algum tempo e, cada vez que remontava um brinquedo, até por vezes sobrava uma ou outra peça, mas voltavam a funcionar. Mais algum tempo, por fim, quando tinha dois ou três brinquedos quebrados, conseguia, reunindo partes de cada um, montar ou construir um que funcionasse. E assim foi com brinquedos de plástico, madeira, metal, mecânicos, eletromecânicos e até eletrônicos.

Percebo, hoje em dia, que essa foi uma longa e importante etapa de desenvolvimento de algumas habilidades que considero de valor inestimável. Habilidades de manipular o mundo da realidade concreta. O mundo material. O desenvolvimento dessas competências me proporciona, no presente, uma grande desenvoltura em gerenciar e administrar ferramentas e consertar alguns diferentes tipos de utensílios domésticos e eletrodomésticos, eletricidade, telefonia, instalações, alguma coisa de eletrônicos, hidráulica, mecânica, marcenaria, etc.

Portanto, neste caso, no seu lugar, eu não me preocuparia com o dinheiro que estivesse sendo gasto em brinquedos condenados à destruição. Estaria, sim, muito interessado em financiar e investir o quanto fosse possível e racional no desenvolvimento de algumas dessas habilidades de compreender, perceber e manipular o mundo das coisas materiais, graças ao interesse natural que seu filho possui em explorar esse universo. Isso eu considero válido para qualquer criança. Também me interessaria em proporcionar-lhe autonomia nessas competências - serão de muito valor para ele. Além disso, esse impulso talvez chamado de destruidor, quando orientado para construir, acaba por justificar muitos contratempos - eu prefiro chamar "exploratória" a essa fase que você denomina de destruidora".

Nesse momento percebi que sua expressão era de ter descoberto uma agradável surpresa, então prossegui:

"A segunda resposta será a mais incômoda para você como mãe e, no entanto, a mais valiosa para mim, enquanto educador. Pense bem, no relacionamento com seu filho, nessas questões de brinquedos, o único padrão repetitivo e constante é sua atitude incoerente como educadora. Fique atenta: brinquedos quebrados diferentes, brinquedos comprados diferentes, dias diferentes, até mesmo em locais diferentes; o único fator constante e repetitivo é o seu comportamento incongruente: aquilo que você realmente está ensinando a seu filho, inconscientemente, é que ele pode manipulá-la quando precisar. Imperceptivelmente, você está ensinando-o a desrespeitá-la e a não acreditar em você. Está mostrando-lhe, desde pequeno, a grande fantasia do mundo dos adultos: os adultos não fazem o que dizem e também não dizem o que fazem!

Assim, sugiro que, no futuro, nunca mais lhe dê um brinquedo enquanto continuar a afirmar que não lhe dará mais, até que ele aprenda a conservá-los. Ou nunca mais lhe diga que não dará brinquedos caso não tenha coragem de cumprir sua palavra. Caso contrário, daqui por diante, saiba que, cada vez que ele desrespeitá-la ou mentir para você, você mesma ensinou isso a ele: a sua própria incoerência!".

No centro das atenções, encolhida na cadeira e parecendo completamente aturdida, eu ainda continuei:

"A terceira delas é a mais importante das três para você, enquanto mãe: eu, se fosse você, não acreditaria em nada do que acabou de ouvir, pois eu mesmo não tenho filhos e, além disso, fui filho único, criado entre adultos. Minha mais completa experiência com crianças foi como educador em um ambiente esportivo. Todos nós sabemos que as teorias, na prática, podem ser bem diferentes! Logo, conclua você aquilo que pode ser útil no seu caso".

Nesse momento percebi que ela relaxara na cadeira e, finalmente, tinha liberdade para escolher sem tensão.

Note que cada uma das três respostas dada àquela senhora durante a palestra era verdadeira, embora houvesse aparentemente conflitos entre elas! De fato, a percepção de cada pessoa participante numa determinada situação pode ser bem diferente - cada envolvido terá sua própria verdade, sua própria interpretação a partir do seu ponto de vista. Talvez por isso ainda haja tantas guerras... A noção de certo e errado dá origem à violência enquanto não aceitarmos que todos podem estar certos, sob diferentes ângulos!

Esta mesma dinâmica acontece entre nossas diferentes motivações interiores, assim, frequentemente podemos nos utilizar da analogia de termos diferentes subidentidades interiores que podem não estar em acordo, dando origem aos nossos conflitos interiores, autoexigências e autopunições.

A maior parte das respostas imediatas que damos aos problemas e dúvidas são condicionamentos culturais. Aprendemos isso durante nosso desenvolvimento, criamos "clichês" e costumamos dar as respostas esperadas por aqueles que perguntam, às vezes até mesmo sem pensar profundamente. Assim é constituído nosso modelo educacional: nós recebemos reforços (boas notas, elogios, respeito, carinho, etc.) quando fazemos aquilo que os outros esperam de nós e repetimos, como papagaios, aquilo que nos foi ensinado. No modelo educacional vigente não há espaço para outras respostas. No entanto a vida insiste em nos mostrar que grande parte dessas respostas prontas não são satisfatórias nem nos trazem soluções para os nossos problemas que fogem dos padrões (estão fora da "caixa").

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