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Transformando-se: Saúde e Bem-Estar

 

Controle de Peso III

© Walther Hermann Kerth

Certa vez, eu caminhava pela Avenida Paulista, em São Paulo, em direção a um banco (não era um dia de descanso, tampouco um dia de extrema agitação), num ritmo regido pela ideia de que "tempo é dinheiro".

Aproveitava essas caminhadas para refletir sobre várias coisas do cotidiano e do trabalho. Num dado momento, percebi que se aproximava alguém caminhando logo atrás, pelas minhas costas - mantive-me atento. Conforme ia caminhando, num certo estreitamento da área de circulação de pedestres na calçada, percebi que tal pessoa começava a emparelhar comigo na caminhada.

Olhei para o lado e, ligeiramente atrás, observei que era uma moça, oriental, possivelmente coreana, que tinha aproximadamente um metro e meio de estatura. Espantei-me com seu jeito de caminhar.

Tinha um ritmo bastante característico e um certo oscilar de altura, como se dançasse, subindo e descendo a cada passo. Sem alterar o meu próprio ritmo nem o tamanho dos meus passos, apesar de possuir mais de um metro e oitenta, ela naturalmente me ultrapassou e começou a se distanciar sem esforço algum.

Ao observá-la pelas costas, ainda notei que tinha um biotipo comum aos orientais, com o tronco maior que as pernas e a coluna especialmente reta. Fui atleta, treinador de atletas e pratico Tai Chi Chuan há muitos anos - o movimento corporal e a harmonia dos gestos são as primeiras referências que capturo ao observar uma pessoa. Também noto com facilidade quando uma pessoa está fazendo mais esforço do que o necessário durante um gesto ou movimento.

Garanto, aquela moça caminhava com grande rendimento, naturalidade, coordenação e ritmo. Pensei: se eu tivesse aquela forma de caminhar, considerando que minhas pernas eram quase quarenta por cento maiores que as dela, eu provavelmente caminharia duas vezes mais rápido com o mesmo esforço que eu fazia!

Creio que não era apenas uma questão de aptidão ou predisposição genética. Acredito que poderia aprender e treinar aquela forma de caminhar. Possivelmente, entretanto, isso representaria uma mudança mais significativa em termos de hábitos musculares, coordenação e postura geral do meu corpo.

Tratar do assunto da forma física, especialmente no que se refere ao controle de peso, deve contemplar muitas dimensões nas quais estão estruturados nossos hábitos. Mesmo assim, grandes caminhadas começam com pequenos passos. É a partir dessa perspectiva que vou propor alguns experimentos práticos para você fazer nos próximos dias, porém não tente implementá-los todos de uma vez, pois isso produziria muito conflito e tensão interiores. Minha recomendação é que, se você gostar dos desafios propostos, tente apenas um a cada três semanas, tendo em mente que a reformulação de hábitos depende de prática para se consolidar.

Portanto, daqui em diante, você poderá ler estas linhas de, pelo menos, duas formas diferentes: como leitor normal que busca soluções e/ou como observador de suas reações, sensações e sentimentos ao acompanhar o texto.

Tenho um amigo que era um fumante inveterado e que abandonou o hábito de fumar quando percebeu que estava dependente desse ato. Num feriado prolongado acabaram todos seus cigarros, então ele saiu para comprar. Porém, naquela época, não havia comércio aberto por perto... Ele foi mais longe e não encontrou nada. Foi ao escritório para ver se encontrava algo, nada. Voltou para casa para procurar bitucas em cinzeiros... Seu desespero foi tamanho, sentiu-se tão mal, que constatou estar escravizado pelo hábito! Assim sentiu-se visceralmente desafiado a eliminá-lo: nada poderia ter tanto controle sobre ele.

Isso foi suficiente para que decidisse nunca mais passar por situação semelhante. Essa história apenas ilustra um fenômeno bastante frequente no comportamento humano, que é representado por aquilo que chamo de motivação profunda, convicção e tomada de decisão: "Chega!". De fato, provavelmente alguns anos tenham se passado e muitos conflitos tenham sido vivenciados antes desse desfecho. Mas quando a decisão é assim poderosa, nada pode evitar que a pessoa busque com tenacidade o seu objetivo.

O que nos interessa aqui é como ele mobilizou esse poder e certeza interiores naquele momento. Cada um de nós teria pelo menos um episódio para contar, da própria história, de ter entrado em contato com tal certeza ou convicção interior.

Para as minhas pesquisas sobre hipnose e aprendizagens inconscientes, esse tipo de evento possui uma estrutura bastante importante, que poderia ser apresentada na seguinte questão: "Qual é a diferença entre aqueles objetivos que nós planejamos e realizamos e aqueles outros objetivos que nós planejamos, muitas vezes até nos esforçamos, e nunca atingimos?".

Se eu tivesse coragem, eu responderia que o sucesso de um empreendimento (no sentido amplo) depende de uma grande sinergia de nossa mente interior. Mas, de fato, não tenho essa coragem.

Abordando, agora, o aspecto prático dessas questões, provavelmente acabaremos por considerar várias crenças, mitos e sabedoria popular. Tenho alguns amigos que me surpreendem com o pouco que comem e, no entanto, são obesos.

Separemos então aquilo que poderíamos chamar de obesidade daquilo chamado retenção de líquidos. Independentemente de acreditarmos inicialmente em causas genéticas, talvez seja útil considerarmos a hipótese de, ao longo da vida, de alguma forma, sermos capazes de alterar o destino genético.

Assim esta conversa passará a ter o tom de uma fantasia, talvez. Porém muito útil do ponto de vista prático. E, acreditem em mim, algumas pessoas que não acreditaram nas sentenças de morte da medicina, ao longo de toda história, ainda assim, foram capazes de construir resultados bastante interessantes para elas mesmas que contrariam tais crenças e modelos científicos.

Daqui em diante, mantenha os olhos e os ouvidos bem abertos para evidências que você traga em sua memória ou experiências que corroborem algumas percepções que apresentarei neste e nos próximos textos.

Para finalizar vou propor o primeiro experimento para você fazer nos próximos dias... Os exercícios seguintes serão propostos nos textos seguintes. Durante os anos que me separam da primeira vez que publiquei a primeira versão deste texto, eu recebi muitos comentários de pessoas que experimentaram minhas sugestões e tiveram resultados espantosos! Principalmente porque em nenhum momento eu falo sobre o que comer, fazer regimes ou controle alimentar. Eu somente trato das formas com que nos alimentamos...

Gandhi propunha adotarmos como hábito beber os alimentos sólidos e mastigar os líquidos! Isso não é um simples paradoxo e significa que deveríamos mastigar os sólidos até se tornarem "líquidos" para depois os engulir. E que seria interessante mastigar os líquidos para salivá-los tanto quanto aos sólidos. A sabedoria oriental ainda propõe que, para termos uma saúde invejável deveríamos comer muito menos, apenas o suficiente para alimentar nosso corpo. Também dizem que deveríamos parar de comer antes de alcançar a saciedade.

Não vou propor nada disso, pois isso não faz parte de nossa cultura do prazer. Devemos ter em mente que a alimentação em nossa cultura está relacionada principalmente com a busca de prazer ou o preenchimento de uma insatisfação crônica com nossa vida extremamente regrada e repleta de compromissos e comprometimentos.

Tendo isso em mente, minha proposta é que na primeira semana você experimente o seguinte: coma a primeira garfada de cada refeição como se ela fosse a única! Então não faça isso com pressa. Mastigue apenas a primeira garfada de cada refeição a ponto de você poder sentir o gosto do alimento que come. Para isso, comece sempre pelos ingredientes mais saborosos e que pareçam mais apetitosos. Faça isso como se você fosse um rei ou rainha e, comprometido(a) consigo mesmo, tome o tempo que for necessário para sentir todo o sabor dessa garfada ou colherada. Se fizer isso, perceberá que o seu alimento, além de prazer, parece também alimentar o seu bem estar e a sua autoestima. Por mastigar mais lenta e cuidadosamente a ponto de ser possível sentir o sabor, notará que produzirá também mais saliva, logo ao final descobrirá que o alimento está quase "líquido". A salivação é um importante elemento do processo de digestão dos alimentos e absorção dos seus nutrientes.

Se você conseguir fazer isso disciplinadamente em cada refeição, notará que terá bem mais prazer em cada refeição, além de se sentir melhor ao final de cada uma delas.

Então nosso experimento começa pelo prazer e pelo reconhecimento do sabor do alimento. No próximo texto continuaremos nossa exploração de sua forma de se alimentar.

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